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31/10/2009

Quimera de vitória

International Herald Tribune
Gian P. Gentile
Se a história servir como guia, então os recentes atentados suicidas em Bagdá mostram que a insurreição no Iraque está longe de encerrada.

Diferente de muito do que foi escrito e dito, a vitória não está próxima e a noção de que o "aumento" de tropas foi uma grande ação militar decisiva, que abriu espaço para a reconciliação política, é uma quimera.

Foi uma quimera para os franceses na Argélia que sua sangrenta contrainsurreição ali derrotou os nacionalistas argelinos.

Após a guerra, que durou de 1956 até 1961, começou a crescer um mito dentro do Exército francês, que depois penetrou no pensamento do Exército americano, onde ele vive hoje, de que as operações militares francesas derrotaram os insurgentes.

Não é verdade. Os insurgentes optaram por se manter quietos enquanto o Exército francês e o povo atacavam um ao outro devido aos problemas políticos do governo colonial. No final, o presidente Charles de Gaulle ordenou a saída do Exército francês da Argélia em 1961 e esta obteve sua independência.

Cerca de 10 anos depois, alguns cronistas da Guerra do Vietnã começaram a escrever que o Exército americano poderia pacificar o país e derrotar os insurgentes para acabar com a guerra, utilizando as táticas de contrainsurreição introduzidas pelo general Creighton Abrams.

Segundo este mito, se não fosse pela inconstância e fraqueza do povo americano e seus políticos, a guerra poderia ter sido vencida.

Esta noção, que domina atualmente o pensamento do Exército no Iraque e no Afeganistão, também é uma quimera.

A insurreição comunista no Vietnã não foi derrotada até o início dos anos 70, mas apenas adaptou suas ações com base nas condições predominantes no Vietnã.

A ofensiva do Tet de 1968 reduziu tanto a capacidade vietcongue que os insurgentes tiveram que fazer uma pausa para respirar, por assim dizer, de dois anos enquanto o Vietnã do Norte preparava o ataque militar final e bem-sucedido contra o Sul em 1975.

O mesmo ocorre no Iraque atualmente. O problema político e social fundamental de quem deterá o poder no Iraque ainda não foi resolvido, e o resultado final poderá ainda ser determinado por meio de combate.

A capacidade e disposição dos grupos insurgentes no Iraque de executar ataques suicidas minam a noção de que o aumento de tropas funcionou e, por meio de força militar, colocou um fim à violência.

Essas histórias também deveriam informar nosso pensamento a respeito do Afeganistão.

A história mostra que a ocupação por exércitos estrangeiros com a intenção de mudar as sociedades ocupadas não funciona e acaba custando sangue e tesouro consideráveis.

A noção de que se um exército obtiver um pouco mais de tropas, com generais diferentes e melhores, então em poucos anos será capaz de derrotar uma insurreição multifacetada estabelecida no meio de uma guerra civil, não é apoiada por uma leitura honesta da história.

Argélia, Vietnã e Iraque mostram que este é o caso. Lamentavelmente, nós parecemos não aprender nada com a história em relação ao Afeganistão. Nós estamos cometendo os mesmos erros.

Quando fui um comandante de batalhão de combate no oeste de Bagdá, em 2006, eu perguntei a um general do exército iraquiano quanto tempo levaria para uma guerra civil acabar no Iraque. "Quatrocentos anos", foi sua resposta.

Os Estados Unidos levaram quase cem anos para encerrar sua questão política e social mais divisora, a escravidão, e precisaram de uma guerra civil cataclísmica. Poderia uma força externa ter entrado nos Estados Unidos nos anos 1850 e ter resolvido seus conflitos internos à força de armas?

Então por que pensamos que acabamos com a guerra civil no Iraque à força de armas nos últimos dois anos -e que podemos fazer o mesmo no Afeganistão?

(Gian P. Gentile, um coronel do Exército americano, chefia o Programa de História Militar da Academia Militar dos Estados Unidos em West Point e serviu no Iraque de 2003 a 2006)

Tradução: George El Khouri Andolfato

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