UOL Mídia GlobalUOL Mídia Global
UOL BUSCA

RECEBA O BOLETIM
UOL MÍDIA GLOBAL


23/09/2005
Romance de Michael Crichton apresenta o medo como ferramenta de controle social

Justo Barranco
Em Barcelona


Michael Crichton, rei indiscutível do best-seller americano, ao lado de John Grisham, e com pouco a justificar depois de sucessos como "Parque Jurássico", escreveu o romance mais polêmico de sua carreira, "O Estado de Medo", no qual a ameaça são terroristas ecológicos.

A obra, que está sendo publicada na Espanha (Plaza & Janes/ Edicions 62), recebeu duras críticas por expor a idéia de que não está ocorrendo uma mudança climática causada pelo homem. Nela são atacados os ecologistas e o lobby político-jurídico-midiático que sustenta o catastrofismo ecológico, uma idéia que teria nascido com a queda do Muro de Berlim para manter o necessário estado de medo.

O autor é pai do techno-thriller, Michael Crichton é, ao lado de John Grisham --talvez também com Dan Brown (de o Código da Vinci)--, o autor mais vendido do mundo. Doutor em medicina por Harvard, estudou antropologia e biologia.

Dirigiu seis filmes, entre eles o impactante "Coma", e criou séries de televisão de grande sucesso como "ER". Seus romances bem-documentados expõem temas científicos que vão das viagens no tempo à teoria do caos e à clonagem.

La Vanguardia - A idéia de que o mundo sofre um aquecimento climático é uma fantasia medieval, como diz um personagem de seu livro?

Michael Crichton -
É uma fantasia apocalíptica. Existe um poema de Robert Frost que diz: "O mundo acabará coberto de gelo". Aqui acabará coberto de chamas. Não é minha tese, é a do professor Bjorn Lomborg, que escreveu "O Ecologista Cético". Nele se diz que existe, por parte dos grupos ecológicos e da mídia, uma litania do fim do mundo, quase como um desejo de que o mundo acabe.

LV - E não vai acabar proximamente...

Crichton -
A temperatura aumentou meio grau no último século. Ninguém perceberia isso. E a previsão de que nos próximos cem anos aumente outro meio grau não fará o mundo acabar. A pergunta é se os modelos informáticos que são usados para prever o clima são corretos. Se uma empresa projeta seus lucros para cinco anos, ninguém acredita neles. Os cientistas falam da meteorologia para os próximos cem anos e as pessoas dizem: "Acredito". É incrível.

LV - O senhor não acredita.

Crichton -
Os mesmos cientistas dizem que não é possível uma previsão climática de longo prazo. Essa afirmação faz parte do Terceiro Relatório de Avaliação da ONU. Mas parece existir um grande desejo de prever o fim do mundo, sua condenação à morte. Eu entendo isso. Li o livro de Bjorn Lomborg e tem um capítulo que diz: "Tudo vai se arranjar, as coisas estão melhorando". E pensei: "Que chato". Mas creio que ele tem razão, as coisas vão melhorar.

LV - Então o clima não está mudando?

Crichton -
O clima está mudando, mas acontece que está sempre mudando: dos anos 40 aos 70 houve mais frio e as pessoas pensaram que viria uma glaciação. Dos 70 até agora foi mais quente. Existe um efeito estufa, é verdade. O dióxido de carbono é um gás do efeito estufa e aumentou 30% em cem anos. É verdade. O aumento deve-se à atividade humana. É verdade. Mas a pergunta é: o dióxido de carbono produzido pela atividade humana é a causa principal do aquecimento do planeta?

LV - Qual é sua idéia sobre isso?

Crichton -
A situação de um ponto de vista científico é muito complicada. Os modelos prevêem um aquecimento maior do que o ocorrido. Sempre. Nos anos 90 previam um aumento entre 1 e 3 graus até 2000. O aumento real foi de dois décimos. Uma pergunta seria por que os modelos prevêem maior aquecimento. Alguns pensam que os aerossóis estão reduzindo o aquecimento. Outros crêem que a resposta está no vapor de água. Para outros há tantas incertezas que não se devem fazer modelos.

LV - O que faremos, então?

Crichton -
As previsões do passado foram todas erradas, demasiado elevadas. Haverá aquecimento? Quanto? Porque um certo aquecimento pode ser bom. Tivemos um El Niño muito longo em 1998 e os efeitos foram cuidadosamente estudados. Houve mais inundações na Califórnia e alguns outros efeitos negativos. Mas em nível global os invernos foram mais amenos e se economizou em calefação, as colheitas foram maiores e o efeito total foi um benefício de US$ 4 bilhões.

LV - Nesse sentido, entre os efeitos negativos do ecologismo o senhor cita a proibição do DDT.

Crichton -
O DDT era a melhor proteção encontrada contra a malária. Era seguro, podia-se até comer. Foi proibido nos EUA pela pressão ecologista, permitindo-se seu uso médico. Depois se condicionou a ajuda ao desenvolvimento aos países pobres que proibissem o DDT. A malária voltou a ser grave. Serei muito cínico: no ano passado um artigo do "New York Times" disse que sua proibição talvez tenha sido prematura. Há gente no governo dos EUA que teme que a malária volte, mas enquanto estiver só na África matando crianças negras não importa.

LV - No livro se fala de como o medo de um desastre climático substituiu em 1989 o medo da Guerra Fria. E depois veio o terrorismo. Os personagens afirmam que se trata de criar estados de medo entre a população para controlá-la. E ao mesmo tempo o senhor diz que existe um certo desejo desse medo na população.

Crichton -
As pessoas hesitam muito na hora de abandonar seus medos. Se o medo controla nosso comportamento, não temos alternativa. Agimos porque temos medo e somos livres dessa responsabilidade. O medo é atraente. Mas o custo é elevado.

Tenho uma filha e durante muitos anos vivi preocupado com seu futuro. Você não é consciente do medo que carrega pelo futuro, que outros lhe transmitiram dizendo que ficamos sem recursos, que o ar está pior. Quando escrevi o livro, não sentia mais medo. O mundo não será perfeito porque é uma época de instabilidade. Os problemas entre o mundo desenvolvido e parte do mundo islâmico podem durar. Mas não é verdade que o futuro será pior que o passado.

LV - O senhor fala dos problemas com parte do mundo islâmico e em sua obra aborda a geração de estados de medo na população. Como vê nesse sentido a atitude dos EUA, por exemplo, sua atuação no Iraque?

Crichton -
Existem medos reais e medos falsos. Quando há grande desigualdade no mundo se produz instabilidade. Pode parecer estranho, mas há boas evidências de que o mundo islâmico não está tão em desacordo com o Ocidente pelo sistema democrático quanto por ser contrário à situação da mulher. A disputa tem muito mais a ver com as relações entre os sexos do que se admite.

LV - O senhor vê relação entre o que aconteceu em Nova Orleans e a mudança climática? Como avalia a reação do governo americano?

Crichton -
É uma coisa que acontece periodicamente; a diferença foi a dimensão do desastre. Por outro lado, Nova Orleans sempre se sentiu independente, por sua origem francesa. É um lugar especial, muito pobre e muito corrupto. O problema era conhecido desde Kennedy e ninguém o consertou.

LV - Falou-se em "lentidão racista".

Crichton -
Isso poderia ter sido verdade nos anos 50, hoje não. É o governo com mais negros da história. Mas foi muito lento. A governadora da Louisiana apareceu na televisão no dia seguinte e disse: "A única coisa que podemos fazer é rezar". Má resposta. E Bush deveria ter chegado lá uma hora depois.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

ÍNDICE DE NOTÍCIAS  IMPRIMIR  ENVIE POR E-MAIL

Folha Online
Brasil receberá US$ 28 milhões desviados por "propinoduto"
UOL Esporte
Após fiasco de público, CBF reduz preços de ingressos para partida
UOL Economia
Bovespa reduz ritmo de perdas
perto do fim dos negócios

UOL Tecnologia
Fãs do iPhone promovem encontro no Brasil; veja mais
UOL Notícias
Confira a resolução comentada
da primeira fase da Fuvest 2010

UOL Vestibular
Cotista tem nota parecida com de não-cotista aponta Unifesp
UOL Televisão
Nova novela da Record terá máfia e Gabriel Braga Nunes como protagonista
UOL Música
Radiohead entra em estúdio para trabalhar em disco novo
UOL Diversão & Arte
Escritor indiano Aravind Adiga ganha o Booker Prize
UOL Cinema
Novo filme dos irmãos
Coen tem maior bilheteria nos EUA





Shopping UOL

Gravadores Externosde DVD a partir
de R$ 255,00
Câmera Sony6MP a partir
de R$ 498,00
TVs 29 polegadas:Encontre modelos
a partir de R$ 699