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18/10/2005
A "supermulher" não gosta de sexo

Maricel Chavarria
Em Barcelona


Uma em cada dez mulheres admite que perdeu o interesse pelo sexo durante pelo menos seis meses no ano passado. Segundo um estudo britânico, as mulheres casadas ou que têm parceiro fixo apresentam maior tendência a ter problemas sexuais. A auto-exigência a que se submete hoje o sexo feminino pode nocautear o peso mais pesado. A "supermulher" em geral tem um salário do qual não pode prescindir -- mas não pode se permitir descuidar dos filhos, da casa, do parceiro, dos pais... e cuidado com a aparência física! Apetite sexual? Com essa agenda, o sexo a encontra exausta e muitas vezes diante de um homem com um nível de testosterona dez vezes maior.

É o que descreve uma recente pesquisa do University College de Londres. E é um bom motivo, mas não o único. O que acontece é que a mulher continua sentindo falta da cumplicidade com o parceiro, e hoje sente-se com direito a reivindicá-la. Além disso, vive em uma sociedade cujo imperativo é ser feliz aqui, hoje e sempre, e na qual não se assume bem que a passagem do tempo acabe com o desejo pelo parceiro. Por outro lado, a era do visual não deixa de vender sexo atraente, mas poucos assumem que é um sexo extraordinário e que exige um esforço transformá-lo em realidade freqüente.

"Sua falta de interesse pelo sexo muitas vezes indica que estão insatisfeitas em muitos aspectos da relação", diz Paula Sardelli, uma das três especialistas consultadas sobre o assunto por "La Vanguardia". "O papel que cada um desempenha na vida cotidiana revela falta de comunicação, de colaboração e de cumplicidade: sem estas, a sedução e a libido vão a pique. É aí que a inapetência assume a forma de reivindicação, que não é greve, pois não é intencional." O cansaço e o tão acusado estresse, salienta Sardelli, não devem se transformar em uma desculpa recorrente, como também não pode se prolongar o período pós-maternidade, no qual a relação com o parceiro adquire menor importância. "Se há um certo nível de libido, desejo e compreensão, o cansaço afeta pouco; outra coisa é que o que você encontra toda noite em sua cama não é o que você esperava, e fantasia, sexo e desejo deixaram de andar juntos."

O surpreendente é que uma grande porcentagem de mulheres ainda se queixe de uma aproximação sexual demasiado direta por parte de muitos homens, e que os psicólogos devam continuar insistindo que o protótipo de macho é o que provoca maior desinteresse, sendo mais afim às necessidades do sexo feminino heterossexual um homem com certo mistério emocional. Elas se consideram com o mesmo direito a sentir, desejar e escolher como e quando; e as conseqüências dessa atitude vital poderiam estar sendo confundidas com a inapetência por cansaço citada pelo estudo. Afinal, não é preciso retroceder muito no tempo para lembrar que seu papel na sociedade as havia levado a submeter-se à vontade do homem -- que era quem devia desfrutar do sexo -- e a estar sempre dispostas, talvez para evitar que ele fosse embora com outra.

A psicóloga Maria Teresa Pi-Sunyer opina que o problema está em um equívoco entre o casal. Pelo conhecimento de suas pacientes, ela deduz que a mulher vê cada vez mais além de si mesma e sente-se distante do homem, está desiludida. "A sexualidade feminina está mais ligada a vivências, e por isso a mulher precisa se comunicar em outras esferas da vida com a pessoa com a qual tem relações. Ouço-as queixar-se de que o parceiro quer ter relações depois de não se terem visto o dia todo, de que pretenda que a tarefa de ter recolhido o jantar e colocado as crianças para dormir se evapore quando chega ao quarto. Essa hora da noite é tenebrosa, sobretudo quando há filhos: esgota os recursos de todos e, se o casal não compartilha esse cotidiano, é difícil que ela aceite o sexo. É um mal-entendido, um desencontro..."

Profissionais da saúde mental e sociólogos concordam que os conceitos de esforço e de renúncia parecem ter desaparecido. "Isso se vê muito em casais que acabam de ter filhos", acrescenta Pi-Sunyer. "Tudo se agrava: ajudar na casa, não poder dormir à noite... tudo se torna muito explosivo e ninguém está disposto a fazer um esforço além do necessário." Por outro lado, a sexualidade tornou-se transparente e existe a sensação de que está aí para ser desfrutada em relações pouco comprometidas", diz a psicóloga. "Mas as mulheres que se separaram e descobrem a vida por sua conta vêem que em longo prazo esse modus operandi não satisfaz, pois não se sentem queridas. A relação fixa não as satisfaz sexualmente e a não-fixa não as satisfaz emocionalmente."

Ao cansaço da "supermulher" e ao desencontro do casal deve-se acrescentar um terceiro elemento decisivo: a cultura da imagem. O sexo está na moda. E também suas exigências estéticas. Criou-se uma espécie de fantasia da perfeição que submete gerações inteiras à tirania de uma determinada beleza e do suposto erotismo que a acompanha, o que, somado à possibilidade de se reparar ou remodelar constantemente no cirurgião plástico, transformou-se em um obstáculo generalizado para o sexo feliz: ninguém jamais se considera perfeito, sempre acaba sobrando um quilo, faltando peito... Essas imperfeições costumam ser imperdoáveis em sociedades onde, mais que um Casanova ou um Zorba -- ambos apaixonados pelas mulheres além de seu físico --, predomina o modelo masculino de Don Juan, um personagem que essencialmente quer a si mesmo, vive para se mostrar... e não desfruta da mulher. Na verdade a despreza.

No estudo do University College se deduz que os casais que têm relações menos de quatro vezes por mês são, em médio e longo prazo, vítimas de problemas sexuais. A freqüência é motivo de alarme -- não deveria preocupar mais a qualidade que a quantidade? -- e também de visitas ao sexólogo. Atualmente, só 21% das mulheres pedem ajuda, contra irrisórios 11% dos homens, mas recorrer ao especialista está deixando de ser considerado um remédio de ineptos.

Vejam por exemplo o roteiro do último filme sexy de Hollywood: "Sr. e Sra. Smith" aborda a crise por escassez de um casal altamente "cool". Ver um casal de assassinos de aluguel como Angelina Jolie e Brad Pitt entregando-se à terapia de casal sem dúvida fará um bom número de sofredores mudar de perspectiva. A moral do filme é tão simples como oportuna para os habituados a um amor baseado na elegante distância e no silêncio comedido entre o casal: se não há confiança -- diz a lição --, a relação e o sexo se extraviam...

Por acaso essa confiança é garantia de desejo duradouro? Muitos psicólogos são partidários de lembrar que amor e desejo não são a mesma coisa, que é possível amar a quem não se deseja e desejar a quem não se ama. O ideal seria uma sociedade de seres capazes de distinguir e admitir sem culpa que há quem nos desperte desejos, mesmo que não queiramos ter com essa pessoa uma relação de casal. É o que indica a psicanalista Marta Serra Frediani, que também lembra que o desejo implica insatisfação, ausência de algo.

"Só se pode desejar o que não se tem como posse segura. Manter o desejo pelo parceiro implica aceitar de alguma maneira que não se está totalmente na relação, que não é um bem adquirido. O amor é mais o engano que consentimos para conter a corrida de uma busca infinita de completude que não tem meta de chegada segura."


Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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