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07/02/2007
Degelo a todo gás

J. Ramón González Cabezas
em Barcelona


O processo de degelo do Ártico devido ao efeito estufa aumenta as expectativas de exploração das grandes reservas naturais escondidas sob a calota polar, especialmente as de petróleo. Diplomatas e cientistas reunidos em janeiro passado em Tromso, Noruega, concordaram em que a futura abertura da rota marítima do Grande Norte poderá causar um processo de desenvolvimento acelerado na região, que segundo os especialistas oculta 25% das reservas mundiais de cru.

"O Ártico é em parte a solução do problema energético do mundo", afirmou Odd Roger Enoksen, ministro do Petróleo da Noruega, sétimo produtor mundial de cru e um dos oito países do Conselho do Ártico, diretamente envolvidos no cenário incerto que se perfila nesta vasta região do globo. "Não é o petróleo do Oriente Médio, e pode ser caro para extrair, mas o preço político do barril é menor", disse significativamente o ex-embaixador americano na Noruega Tom Loftus.

Através de um consórcio liderado pela empresa estatal Statoil, a Noruega explora junto com as francesas TotalfinaElf e GDF (Gaz de France) e outros grupos estrangeiros a enorme jazida de Snohvit (Branca de Neve) no mar de Barents, a ante-sala do pólo norte. Ali foram investidos 7,5 bilhões de euros no projeto de uma gigantesca usina flutuante de gás natural liquefeito (GNL) situada a 140 quilômetros de Hammerfest, a cidade mais setentrional do globo.

Os movimentos no setor confirmam a dimensão da disputa pelos recursos energéticos ainda disponíveis. Em dezembro, a Statoil e a também norueguesa Hydro fundiram suas divisões de gás e petróleo para criar um dos gigantes mundiais da exploração de hidrocarbonetos no mar. A aposta norueguesa no pólo coincide com a queda de produção nos poços do mar do Norte, de 18% em 2005, segundo revelou o próprio governo.

Caso se confirmem os prognósticos, a eventual abertura da região polar à navegação marítima e à exploração de recursos constituiria a primeira alteração efetiva imputável à mudança climática, cuja origem humana já é admitida como fato incontestável. Os especialistas salientam a transcendência que teria a nova passagem do noroeste ao largo do Canadá e da rota do norte, pelo litoral da Sibéria, como novos eixos de navegação entre o Atlântico e o Pacífico, com uma economia de 6 mil a 8 mil quilômetros em relação às grandes rotas intercontinentais através dos canais de Suez e do Panamá. Hoje parece um cenário irrealizável, mas a febre cresce.

A Rússia já trabalha na exploração da gigantesca jazida de Shtokman, o maior depósito marinho de gás do mundo, com uma superfície de 1.400 km2 e um volume de reservas estimado em 3,2 bilhões de m3. A exploração de matérias-primas não acaba aqui: o colosso da mineração De Beers, assim como outras 60 empresas de prospecção, procuram diamantes nos lagos gelados do Canadá, na expectativa de produzir até 10% ou 15% do valor mundial bruto. O Ártico também esconde minérios como ouro, prata, platina e carvão, e metais como molibdênio e tântalo.

Os especialistas calculam que as necessidades energéticas aumentarão 40% até 2020. "Só a China, que aumenta 5% por ano, duplicará suas próprias necessidades no prazo de 20 anos", afirma o professor Roberto Tornabell, da Esade. "O Ártico é como um favo de mel, e se entrarmos ali o processo de aceleração da mudança climática será incontível", acrescenta, depois de citar o desastre do navio Exxon Valdez nas costas do Alasca em março de 1989.

As indústrias navais e de petróleo estão de prontidão, ao mesmo tempo em que aumenta a disputa entre as principais potências regionais (EUA, Rússia, Canadá e Noruega) pela delimitação e extensão das águas territoriais. "Daqui até 2040 ou 2050, o Ártico poderá ser praticável à navegação e isso representará imediatamente um forte desenvolvimento", previu em Tromso o canadense Martin Fortier, diretor da agência ArticNet, especializada no impacto da mudança climática na região do Grande Norte.

Os especialistas concordam que, desde 1979, o Ártico perdeu 20% de sua superfície gelada, em um processo vertiginoso que poderia culminar com o desaparecimento total no verão de 2070, segundo cálculos da Universidade de Bergen, na Noruega. "Se formos conseqüentes com o fato da mudança climática, será preciso tomar medidas muito mais drásticas do que o Protocolo de Kioto", disse Mariano Marzo, catedrático de recursos energéticos da UB. "A única possibilidade de salvar o Ártico é renunciar à exploração dos combustíveis fósseis e mudar nosso modelo econômico", acrescentou.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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