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14/06/2009

O banco existe para servir ao cidadão, e não o contrário

La Vanguardia
Lluís Amiguet
Howard Davis, diretor da London School of Economics (LSE).

Tenho 58 anos, o suficiente para ter vivido outras crises e saber que esta também será superada. Nasci em Manchester, mas essa é a minha semana de sorte, porque sou torcedor do Manchester City. Voto à
americana: não para os partidos, mas para os líderes. Colaboro com o Cercle d'Economia.

Sabemos que o aumento da riqueza só aumenta nossa satisfação na mesma proporção se nossa renda for muito baixa...

De não poder comer a poder comer, a satisfação é enorme.

... Mas à medida que nos tornamos mais ricos, essa proporção de "maior riqueza-maior satisfação", fica cada vez mais difusa.

Por exemplo...

Nos países pobres que alcançam pela primeira vez a riqueza que garante alimentação para todos, logo em seguida acontece um aumento proporcional na quantidade de cidadãos que se declaram satisfeitos.

Lógico.

... Mas essa proporcionalidade desaparece quando um país já próspero aumenta um pouco sua riqueza. Os cidadãos então não se declaram mais felizes na mesma proporção que enriqueceram. O primeiro carro dá satisfação, mas quando já tem três...

Você não falava de regulamentar os bancos?

Sim, mas escute, por favor. Essa proporção se rompe, mas em troca descobrimos que uma vez alcançado certo nível de renda, aparecem outras causas de insatisfação.

A saber.

O que faz as pessoas infelizes nos países ricos é a percepção de que podem voltar a ser pobres: o risco de perder o que ganharam, mesmo quando essa perda não significa voltar à pobreza.

Agora mesmo sofremos a decepção de que nossos salários perderam valor.

Se você tinha 10 e perdeu 9, será pior - ainda que continue com um ponto de vantagem em relação a quem nunca teve nada: quem perde algo fica mais deprimido do que quem nunca teve.

E se além disso meu vizinho tem mais...

Essa é a outra parte do paradoxo! A percepção de desigualdade nos faz infelizes - sobretudo se somos nós que temos menos - e mais ainda se percebemos essa desigualdade como resultado de uma retribuição injusta ao talento e ao esforço.

Até aqui concordo.

E o que você prefere: crescer 1,5% ao ano com estabilidade durante dez anos ou sofrer altos e baixos em sua riqueza - incluindo algumas grandes perdas -, ainda que o crescimento resultante ao final de uma década seja de 2% ao ano?

Crescer menos com menos sobressaltos.

Essa resposta não é talvez a mais objetivamente inteligente, mas é a mais humana. Se a diferença quantitativa entre um crescimento sem sobressaltos e outro com enormes altos e baixos não é grande, você preferirá a qualidade desse crescimento a sofrer com euforias e pânicos tão deprimentes.

E?

Pois bem, as objeções que se fazem à regulamentação dos mercados são que eles diminuem a criatividade e a criação de riqueza.

E não é assim?

Admitamos que talvez, em certa medida, sim, mas também que a regulação reduz esses altos e baixos que nos prejudicam e que criam estagnação e sofrimento.

Por que não deixar que os bancos respondam por seus erros sem que tenhamos que pagar por isso? Eles não eram antiintervencionistas?

Porque se os abandonarmos à pura lógica do mercado a que muitos de seus diretores se entregaram sem o mínimo de precaução, agora não restaria nenhum banco funcionando, e seria pior para todos nós.

E quem responderá pelos seus erros, então?

Se está atrás de culpados, reparta as culpas: primeiro, o excesso de liquidez permitido pelos bancos centrais durante anos com juros demasiadamente baixos; depois, os bancos privados que esqueceram toda a prudência e competiram para dar crédito sem garantias, e os bancos de investimento, que criaram um sistema bancário paralelo sem supervisão.

Concordo.

... Mas também os consumidores que pediram créditos que não podiam pagar se os juros subissem. O fato de que é permitido dirigir a 200 por hora não significa que você seja obrigado a arriscar a vida nessa velocidade. Se você arrisca e se mata, a culpa é sua. E, por certo, todos os jornais também compartilharam da euforia, à medida que continuavam vendendo publicidade.

E agora?

Mais regulamentação, e uma regulamentação melhor. E anterior à criação de instrumentos financeiros, não posterior. Não se devem aprovar novos derivados até que não se demonstre que eles não põem em risco o mercado, assim como não é possível vender um brinquedo antes que seja provado que é inofensivo.

O Banco de Espanha regulamentou.

E muito bem, mas foi insuficiente diante do furacão financeiro e agora veremos como algumas caixas espanholas saem dessa situação.

Como regular sem burocratizar?

O contribuinte colocou seu dinheiro nos bancos de forma que ficou claro que os bancos existem porque servem ao cidadão, e não o contrário. Existe um contrato social anterior à propriedade privada dos bancos que os submete a esse serviço pelo interesse geral.

Não acredito que eles gostem de saber disso.

Há alguns anos os banqueiros davam risada de uma afirmação assim: eles sabiam criar riqueza com seus bancos, mas agora está claro que seus bancos não existiriam sem nossos impostos. E, por outro lado, devem aceitar supervisão e regulação.

Quanta?

A regulação financeira deve ser como as valetas da rua: não impedem a circulação de capitais, nem tampouco são limites autênticos de velocidade, mas impedem de correr. "O banco existe para servir ao cidadão, e não o contrário."

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