Para os europeus é difícil compreender que Khomeini pudesse ter companheiros de viagem que não fossem radicais como ele. Que os iranianos não o tivessem visto chegar. Que não quisessem um sistema político baseado na democracia parlamentar. A historiadora americana Nikki Keddie resume em uma frase de seu livro "El Irán Moderno" (Barcelona, Verticaless de Bolsillo, 2007) o que talvez seja a chave para entendê-lo: "Quando Abolhasan Bani Sadr demonstrou através de citações do Corão que a propriedade é algo exclusivo de Deus, e portanto que o Irã devia nacionalizar empresas que poderiam escravizar os trabalhadores, sua demonstração foi mais eficaz para os muçulmanos do que os argumentos tirados de 'O Capital'".
Bani Sadr fala com "La Vanguardia" de Paris, onde se exilou pela primeira vez como estudante nos anos 1960 e pela segunda em 1981, depois que Khomeini o tirou da presidência e o condenou à morte. Bani Sadr foi um dos ideólogos dos revolucionários dos anos 70.
LV - O que está acontecendo no Irã? É um movimento passageiro ou uma nova revolução?
Bani Sadr - Por enquanto, houve eleições com uma grande fraude. Inclusive o regime admite uma recontagem dos votos depositados nas urnas. Os candidatos que foram derrotados questionaram os resultados. Enquanto Ali Khamenei [o líder supremo] não falou, não houve problema. Por que Khamenei violou flagrantemente a Constituição ao anunciar os resultados no mesmo dia em que se realizaram as eleições e denominou uma "vitória divina" de Ahmadinejad? Khamenei se pôs em evidência ao referendar os resultados eleitorais com toda a pressa e de forma ilegal. Talvez tenha pensado que ao dizer que era "divina" ninguém questionaria a vitória. Mir Hosein Moussavi [o candidato que reivindica a vitória] dizia: "Onde estão meus votos?"
Quando Khamenei falou, declarou guerra aos candidatos. Agora é ele, o guia supremo, quem está em julgamento. O povo diz que será destronado; dizem que no final desta semana. Moussavi divulgou um comunicado em que disse que continuaria fiel ao regime se pudesse se apresentar em novas eleições. É uma contradição, porque continuaria às ordens de Ali Khamenei. Por outra parte, o povo quer continuar avançando contra o guia supremo.
LV - O senhor acredita que os manifestantes refletem o sentimento do povo?
Bani Sadr - O movimento está muito generalizado. Eu pedi o boicote das eleições. Em primeiro lugar, o regime não queria que muita gente votasse para poder encher as urnas com os votos que lhes interessavam. Os que não votaram porque queriam uma mudança de regime agora se somaram ao movimento de protesto. Em segundo lugar, em curto prazo as coisas não estão claras para o povo que apoia os candidatos. Não há uma presença habitual dos candidatos no movimento de protesto. Isso significa uma ameaça para os que concorreram nas eleições. Em terceiro lugar, é muito importante que esse povo, pela última vez, deu uma grande oportunidade ao regime ao votar em alguém do próprio regime. E o poder transformou essa legitimidade no contrário: uma fraude maciça. O povo deslegitimou esse regime que o traiu.
LV - O senhor veio com Khomeini de Paris para o Irã, foi seu ministro das Relações Exteriores e o primeiro presidente de seu regime, embora tenha ficado pouco tempo no cargo. Quase 20 anos depois, qual é seu modelo de sociedade para o Irã?
Bani Sadr - Não fui com Khomeini para estabelecer uma ditadura. Eles traíram a revolução. Não disseram que o povo era soberano, disseram que era o guia quem tinha a soberania. Deram um golpe de estado contra mim. Começaram a formar um estado totalitário.
LV - Só começaram?
Bani Sadr - Não o fizeram porque o povo resistiu. Têm tendências totalitárias, mas não conseguiram controlar os costumes. Queremos um estado democrático, livre, progressista, com justiça social. Não um regime islâmico. Não se pode bloquear a liberdade.
LV - Do jeito que estão as coisas, o que pode acontecer?
Bani Sadr - Há várias possibilidades. Khamenei já deixou clara sua posição no sermão da última sexta-feira: impor Ahmadinejad como presidente e eliminar os que se opõem a ele. No próprio bloco de Khamenei se defende que Ahmadinejad apresente sua demissão e que Ali Larijani [presidente do Parlamento] se apresente como candidato. Assim preparariam a partida do guia. Realizar outras eleições e elaborar outra Constituição, não creio que a situação internacional o permita. Outra opção seria que Hashemi Rafsanjani e Moussavi continuassem o movimento para enfraquecer o guia supremo para que, embora não consigam que Ahmadinejad saia, o guia aceite apresentar sua demissão e outro presidente o substitua. Se o movimento popular continuar, a possibilidade de que Khamenei se mantenha torna-se nula. Não creio que o discurso de Khamenei leve a um compromisso e Moussavi seja vice-presidente. Para mim é o princípio do fim do regime.
LV - Embora alguns que não votaram tenham se unido aos protestos, a contestação ocorre para substituir um homem do regime por outro também do sistema, e não a favor de uma mudança radical.
Bani Sadr - Um mês antes das eleições eu disse que se aproximava a morte do regime. O mais importante é que essa explosão dos homens do regime mostrou a todo o mundo que no centro do regime há posições irreconciliáveis. O islã como argumento desse regime se esvaziou de conteúdo. Só lhes resta a violência, ameaças, desprezo. Não são capazes de encontrar idéias. Um regime não pode sobreviver com essa luta no centro do poder. Em longo prazo está condenado. É como quando o regime soviético chegou ao fim.
LV - Ahmadinejad denunciou a ingerência estrangeira...
Bani Sadr - Não há ingerência estrangeira. Ahmadinejad disse que Obama esperava isso; Obama nunca disse isso. Qualquer ação que não convenha a este regime, dizem que vem de fora. Os ocidentais não intervieram. Ahmadinejad sim, que teve apoios externos: Rússia e Venezuela.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves