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05/07/2009

Não ao silêncio das gaitas

La Vanguardia
Rafael Ramos
A Escócia entrou em uma profunda crise de identidade. Não por causa do colapso de seus bancos, nem porque a depressão financeira afasta sua aspiração à independência. A razão é mais musical: uma diretriz da União Europeia em matéria de saúde e bem-estar público limita a exposição contínua dos trabalhadores a mais de 85 decibéis, um nível sonoro que as gaitas de foles escocesas superam amplamente.

Símbolo da Escócia

  • Antonio Carlos de Faria/Folha Imagem

    Escocês toca gaita de fole no centro de Edimburgo

Proibir as gaitas escocesas seria como declarar ilegais a barretina, a "senyera" e a sardana [respectivamente, gorro, bandeira e dança catalães] e impedir que o Barça jogue a Champions - uma tragédia nacional... É o que pretendem os burocratas de Bruxelas, talvez inconscientes de que se arriscam a uma revolução de consequências imprevisíveis. A Escócia não seria a mesma sem suas gaitas, como também não seria sem o uísque, as ovelhas, as saias ou a rivalidade entre Celtic e Rangers.

O ruído de uma banda de gaiteiros alcança 122 decibéis, menos que uma banda de rock ou a decolagem de um Boeing 747 (130 e 126 decibéis, respectivamente) e mais que um clube noturno (115), uma orquestra sinfônica interpretando "O Anel dos Nibelungos" de Wagner (110), o metrô de Londres (94), um aspirador de pó (70) e uma conversa normal (60).

A norma europeia que põe em risco a identidade da Escócia não tem em mente a saúde auditiva do público (que pode se afastar quando quiser), mas a dos próprios gaiteiros, e propõe que os ensaios sejam efetuados com tampões nos ouvidos, ou limitados a 15 minutos diários. "Seria uma aberração", diz Mark Pemberton, diretor da Associação de Orquestras Britânicas, "algo como pretender que os jogadores de futebol façam os treinos sem bola, ou que os astronautas ignorem a ausência de gravidade."

Os escoceses se uniram para combater o decreto de Bruxelas com o mesmo fervor com que lutaram contra os ingleses antes de aceitar a contragosto a Ata da União. Para complicar as coisas, um livro recente questiona a origem da gaita escocesa e afirma que é um instrumento muito posterior ao que se acreditava até agora, popularizado pelas classes médias industriais do século 18 para concertos com os quais tirar dinheiro dos turistas e dos emigrantes que voltavam ao país carregados não só de dinheiro, mas também de nostalgia. Ou seja - segundo o texto -, que não podem ter sido utilizadas na batalha de Waterloo, nem para atiçar o fervor da revolução jacobina que pretendia entronizar o príncipe Carlos Stuart. E nem falar nas lutas entre clãs medievais.

Nero era fã das gaitas, e a rainha Vitória tinha um gaiteiro pessoal encarregado de tocar todas as manhãs às 9 horas embaixo de sua janela do Palácio de Buckingham. Para os escoceses, porém, é muito mais que um instrumento musical. É uma metáfora de sua história e sua cultura. E quem quiser silenciá-la ou minimizar sua origem terá de passar por cima de alguns cadáveres.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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