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25/08/2004
França celebra 60 anos do fim da ocupação alemã

Nicolas Weill
Em Paris


Os franceses comemoram nestas quarta e quinta-feira (25 e 26/08) os 60 anos da libertação de Paris das forças alemãs, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O fato, um dos mais marcantes da história do país, está revestido por um conteúdo político atual.

"Ninguém pode contestar o sentido nem a força dos valores que ela carrega", declarou o prefeito (do PS-Partido Socialista) da capital, Bertrand Delanoë. "Foi nestas bases --igualdade, justiça social, solidariedade-- que foi construída a França do pós-Guerra, da qual nós todos somos os herdeiros", acrescentou.

Esta herança nem sempre foi celebrada com o mesmo entusiasmo. Para o historiador Pascal Ory, do Centro de história social do século 20, depois do brilho que caracterizou as comemorações iniciais, nos primeiros anos que se seguiram à Guerra, o fervor arrefeceu.

Durante os anos 50, exceto no que diz respeito a uma memória comunista atuante, encravada nas prefeituras e nos feudos do partido, a imagem que as pessoas tinham da Ocupação foi fortemente influenciada pelo quadro sórdido pintado em "La Traversée de Paris" (A travessia de Paris"), o filme de Claude Autant-Lara (1956), no qual predominava uma atitude de espera e o mercado negro.

O retorno ao poder do general de Gaulle, em 1958, devolve um brilho particular a esta data. Ela reflete então uma espécie de partilha simbólica da esfera política entre as duas grandes forças do momento, os gaullistas e os comunistas --sendo que um outro filme passou a ilustrar este dualismo: "Paris brûle-t-il?" ("Paris está em chamas?"), de René Clément (1966).

"É a partir daquele momento que a dupla Jacques Chaban-Delmas - Henri Rol-Tanguy (respectivamente um delegado do general de Gaulle e um dirigente da resistência comunista parisiense) começa a representar a convergência das duas memórias, a gaullista e a comunista", constata Denis Peschanski, do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica). "Esta aliança transmitia à população a imagem de uma unidade resistente guiada pelo chefe carismático ou pela vanguarda".

Embora aquele fervor que estava renascendo não deixasse de ser um mito, nem por isso este deixava de ser baseado em elementos de realidade. "Na Liberação, os franceses tinham consciência de não terem todos participado da resistência, mas eles sabiam que todos, em graus diversos, haviam compartilhado os sofrimentos da Ocupação", lembra Denis Peschanski.

Entre estes dois pólos, as outras forças políticas por muito tempo fizeram figura de esquecidas da memória, tanto os democratas-cristãos como os socialistas.

Este esquecimento resultava em grande parte da escolha que havia sido feita, durante o período de ocupação, pelos dirigentes clandestinos do partido socialista, e principalmente por Daniel Mayer (1909-1996), o líder do Comitê de Ação Socialista, os quais concentraram todos os seus esforços na reconstituição política da SFIO (Seção Francesa da Internacional Operária - 1905-1969), sem criar sob o seu nome nenhum movimento armado de resistência --diferentemente dos comunistas.

Reconstruindo a França

Os seus militantes espalharam-se por todas as redes existentes, mesmo se uma dentre elas, a Libération-Nord, foi amplamente fundada por socialistas. "A famosa frase de André Malraux ('entre os comunistas e nós, não existe nada') era uma inverdade!", contesta o historiador Alain Bergougnioux, um secretário nacional do Partido Socialista encarregado dos estudos.

Este também lembra que a Resistência viu o surgimento de militantes que se destacaram como dirigentes políticos a partir da Liberação, e cujos nomes eram pouco conhecidos antes da guerra, tais como Guy Mollet, o presidente do conselho em 1956-1957, ou Alain Savary, o predecessor na SFIO de François Mitterrand antes do congresso de Epinay, em 1971.

Mais tarde, esta memória acabou sendo encoberta aos poucos, a partir da ascensão aos cargos mais importantes da política de uma geração menos vinculada à Resistência (Georges Pompidou à frente do Estado, Georges Marchais na direção do Partido Comunista Francês - PCF, etc), e sobretudo, durante os anos 70, a partir da redescoberta pela historiografia do período de Vichy, assim como da perseguição dos judeus.

As tensões que sempre existiram entre os governos de esquerda e o então prefeito de Paris, Jacques Chirac, após o afastamento de um outro protagonista da Liberação, Jacques Chaban-Delmas (1915-2000), até hoje chegam a confundir às vezes a mensagem de unanimidade. A tal ponto que, em 1989, por ocasião do 45º aniversário da Liberação, o ministro (PS) da Defesa, Jean-Pierre Chevènement boicotou a cerimônia da Prefeitura de Paris.

Nesse meio-tempo, os historiadores procuraram complicar o quadro por demais "certinho" e "idealizado" da Liberação de Paris, detectando, por exemplo, por trás de uma unidade de fachada as premissas da guerra fria.

"Atualmente, tudo está polido demais, tudo está perfeito; tem-se a impressão de uma unanimidade em torno dos objetivos. Ninguém enfatiza de maneira suficiente as divisões que existiram entre os quadros da Resistência", deplora André Kaspi, da Universidade Paris-1. "Esta comemoração não possui nenhum valor pedagógico. Por exemplo, dos resistentes comunistas, o que permaneceu na memória foi apenas o heroísmo. Mas todos esqueceram de que eles eram também militantes puros e duros".

Outros especialistas, em nome de uma história da Resistência que se encontra em plena renovação desde o início dos anos 90, preferem desconfiar das reconstruções a posteriori, que tiram conclusões a partir de conhecimentos gerais, buscando uma nova compreensão dos eventos de agosto de 1944 à luz do confronto entre o Leste e o Oeste, e que enxergam na Liberação uma máscara que esconde confrontos muito prosaicos de interesses políticos.

"Por mais que existissem conflitos na época, seria perigoso ceder à tentação de recriar uma espécie de lenda negra. Os resistentes não eram tão numerosos assim e existia entre eles uma certa cumplicidade. A sua unidade, portanto, não chega a ser apenas um mito", afirma assim Denis Peschanski.

Contudo, há sempre novas mensagens políticas que vêm disputar espaços em torno do relato da Liberação. Enquanto o 50º aniversário foi marcado pela reconciliação franco-alemã, o 60º, por sua vez, está cristalizado em torno da contribuição dos estrangeiros para as forças de liberação. Robert Hue (PC), o presidente da futura fundação Gabriel-Péri, havia protestado, em 1994, contra a presença de tropas alemãs do Eurocorps (forças armadas européias) por ocasião das festividades.

Hoje, apesar de manifestar a sua satisfação diante da celebração do internacionalismo, é um outro paradoxo que sublinha Robert Hue. Aquele que consiste, para um governo de direita que "vem praticando contra-reformas mutiladoras das reformas que foram geradas pela própria Liberação, tais como a Seguridade Social ou as nacionalizações", em celebrar as glórias deste evento histórico.

Por sua vez, Nicolas Dupont-Aignan, um deputado (UMP, de direita) da Essonne --de tendência soberanista (que luta contra o perigo da diluição da soberania do país dentro da UE)--, lamenta constatar que "os franceses adoram comemorar aquilo que eles estão perdendo com a Constituição Européia".

"Todo mundo é gaullista porque ninguém é gaullista de verdade. A privatização da Seguridade Social e do serviço público participa do desmantelamento do legado deixado pelo general", acrescenta.

No Front National (FN), de extrema direita, os responsáveis se dizem evidentemente reservados em relação à homenagem prestada à resistência comunista. Segundo Bruno Gollnisch, um delegado geral do FN, "fiel ao personagem que ele construiu, Jacques Chirac segue participando da mistificação histórica. Ele minimiza o papel da Resistência nacional para celebrar a glória da Resistência comunista, a qual mobilizou-se sobretudo a partir da entrada em guerra da Alemanha contra a União Soviética, que até então eram aliadas. Estas imagens de cartão-postal servem para construir mitos e estes mitos têm uma utilidade política que não está a serviço nem da unidade nacional, nem da independência recuperada".

Entre os dirigentes de outras agremiações políticas, muitos esperam que no momento em que a sociedade está se fragmentando e que se está assistindo à criação de um grande número de comunidades, a exaltação do espírito de resistência se revelará um bom meio de recriar um certo espírito de união entre os membros da sociedade. "O 60º aniversário da Liberação de Paris corresponde a uma necessidade de recompor a França", pensa, por exemplo, o socialista Alain Bergougnioux.

"Um retorno do espírito de cidadania inspirado na Resistência, contra uma colaboração que é um fenômeno eterno? Eu acho isso uma ótima coisa", responde Pascal Ory. "Mas isso permanece uma hipótese. E eu temo que isso possa ser até mesmo uma doce ilusão".

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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