15/09/2004
Mitomania é caso de Justiça, afirma psiquiatra
Jean-Yves Nau
Em Paris
A mitomania, descrita como a "tendência mórbida à mentira", é um comportamento que deixou de ser estudado pelos especialistas e que não é oficialmente reconhecido pela psiquiatria. Contudo, ele existe de fato.
Em entrevista, o pesquisador François Allilaire, um especialista em psiquiatria do centro hospitalar de urgências (CHU) da Pitié-Salpêtrière, em Paris, explica o porquê deste paradoxo.
Le Monde - Segundo o senhor, será que a mitomania corresponde a uma entidade patológica?
François Allilaire - É preferível dizer que se trata de uma entidade clínica, de um sintoma feito de comportamentos, de construções culturais e intelectuais. Para dizer a verdade, a dificuldade começa aqui com o nome que lhe foi atribuído.
Le Monde - O que o senhor está querendo dizer com isso?
François Allilaire - O psiquiatra francês Ernest Dupré (1862-1921), que foi o primeiro a descrever a mitomania, era um médico notável, especialista em doenças mentais. Ele a classificou imediatamente no quadro mais amplo dos "delírios emotivos" e mostrou desta forma, desde o início, que a emotividade e os seus desdobramentos são essenciais na mitomania.
Esta denominação remetia então à teoria das "monomanias" de Esquirol, que foi desenvolvida numa época particular para a ciência psiquiátrica, a dos alienistas [especialistas em doenças mentais]. Essa medicina psiquiátrica havia nascido fora da medicina habitual; ela se desenvolvia em lugares alheios ao hospital-general, e ela não era reconhecida pela universidade. A medicina psiquiátrica procurava então estabelecer critérios de objetivação para coisas que deles careciam. As "monomanias" estiveram bastante em voga durante o século 19, até serem vivamente criticadas, numa reação que resultou numa tendência que passou a definir o conceito de doenças mentais.
Le Monde - Em que constituiu esta mudança?
François Allilaire - Digamos que, em vez de se efetuar um corte transversal dos comportamentos humanos, passou-se então para um fio condutor longitudinal. Os estudiosos comparavam os destinos das patologias psiquiátricas aos destinos das outras doenças, atribuindo-lhes uma origem e uma evolução. Foi assim que eles descreveram as evoluções possíveis da histeria, de determinados delírios esquizofrênicos ou de estados paranóicos. A mitomania, a partir daquele momento, desapareceu da linguagem psiquiátrica.
Le Monde - Como entender então que este termo continue sendo utilizado?
François Allilaire - Este termo perdurou pela razão simples e boa de que ele é muito prático. A linguagem psiquiátrica torna-se muito manejável quando ela substantifica adjetivos. Mas este manejo pode ser extremamente perigoso. Você pode ser tratado de histérico ou de paranóico a partir do momento em que alguém quer rejeitá-lo, e lança mão destes termos para afirmar que você pensa mal, que você cria representações falsas, discutíveis, e até mesmo patológicas, da realidade.
No que diz respeito à mitomania, é possível afirmar que ela voltou a ser uma questão de destaque por intermédio dos adolescentes e do uso freqüente que eles fazem do termo "mytho" [na gíria, abreviação de mythomane, mitômano]. Eles sabem perfeitamente que, no comportamento verbal da infância e da adolescência, existe uma mistura de sonho e de realidade, de desejo e de concreto. Tudo isso faz com que sempre se pode tratar alguém de mitômano a partir do momento em que ele procura realizar um desejo. Talvez fosse mais adequado falar de "mitopatia", para lembrar e sublinhar o sofrimento experimentado por aqueles que se encontram neste estado.
Le Monde - Qual é o sentido deste sofrimento?
François Allilaire - Ele sublinha o caráter defensivo de comportamentos, de distorções, que só se tornam patológicos a partir do momento em que eles se instalam na duração. Com freqüência excessiva, a mitomania é apresentada como uma forma de comportamento perverso e manipulador, em detrimento do sofrimento psíquico, da adaptação a uma patologia subjacente que pode ser ansiosa, depressiva, paranóica ou outra.
Le Monde - Estaríamos então no campo da neurose?
François Allilaire - Sim, apenas pelo fato de o termo de neurose ainda ser atualmente uma definição comumente aceita, uma vez que ele foi rejeitado do vocabulário psiquiátrico moderno americano, e isso, apesar de continuar sendo bastante utilizado pelos clínicos. Vale acrescentar, além disso, que a mitomania desapareceu dos sistemas oficiais de classificação internacional das moléstias psiquiátricas.
Le Monde - Conhecida há mais de um século, esta patologia parece suscitar um interesse bastante reduzido por parte dos especialistas em doenças mentais. Por quê?
François Allilaire - Isso vem do fato de que, no plano terapêutico, não se realizou nenhum milagre, enquanto existem inúmeros outros campos no quais progressos foram realizados. No que diz respeito aos distúrbios neuróticos, a psicanálise ou as terapias cognitivas e comportamentais, ofereceram resultados, mesmo se isso foi objeto de polêmicas. Este é também o caso, graças à farmacologia, no campo dos distúrbios ansiosos, dos distúrbios do humor e dos distúrbios esquizofrênicos. Com a mitomania, nós estamos confrontados a um conceito muito volátil que pode ser encontrado essencialmente na literatura médico-legal. Os mitômanos costumam lidar com os juizes e os advogados, muito mais do que com os psiquiatras.
Le Monde - Ao lidarem com as conseqüências da decisão judiciária, será que os psiquiatras, apesar de tudo, não poderiam intervir e aplicar algum tratamento útil, a partir do momento em que, como se viu no caso recente do RER [linha de trens suburbanos no qual uma mulher imigrante viajava com a sua filha; ela deu queixa na delegacia, alegando ter sido maltratada por "carecas" de extrema direita, o que teve uma repercussão nacional, mas foi revelado mais tarde que era uma mentira], existe uma clara obrigação de se fornecer tratamentos para determinados pacientes?
François Allilaire - Mais vale uma obrigação de tratar um paciente do que nada. A introdução da lei - que agradará aos lacanianos - pode permitir ajudar a fazer com que os mecanismos da negação do real parem de funcionar. No caso, o fato de ter situado níveis de responsabilidade talvez permita a aquela jovem mulher, nunca se sabe, de se envolver de maneira eficiente num trabalho de terapia.
Contudo, eu gostaria de acrescentar que, de maneira mais geral, nós estamos diante de um dispositivo similar àquele que foi implantado recentemente para os delinqüentes sexuais, uma vez que a lei de 1998 havia-se limitado a dizer o que precisava ser feito, sem contudo criar as estruturas de interações entre o jurídico e o médico para que isso seja possível. É por isso que a obrigação de se fornecer tratamentos permanece, quase sempre e infelizmente, um imperativo puramente verbal.
Tradução: Jean-Yves de Neufville
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