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12/11/2004
Arafat foi político talentoso, apesar de seus erros

SHIMON PERES*
Especial para o Le Monde


Os palestinos vêem em Arafat o pai de sua nação. Assim como um pai, ele fez muito para os seus filhos, mas ele também os protegeu de maneira excessiva. Ele era um personagem com o qual era difícil se entender.

Fez mais do que qualquer outro líder para forjar uma identidade palestina única e distinta. Ele foi a voz e o símbolo da causa palestina. Os seus esforços ininterruptos alçaram a causa palestina entre as prioridades das preocupações mundiais, uma situação na qual ele se manteve durante quatro décadas.

Infelizmente, os seus sucessos foram obtidos com freqüência excessiva pelas armas. Ele combateu Israel e os israelenses com obstinação e afinco. Ele perpetrou um bom número de atos atrozes que deixaram na sua esteira famílias destruídas e vidas arruinadas. Apesar dos seus compromissos em favor da mudança, ele nunca abandonou a valer o caminho do terrorismo, na sua ânsia de manter viva a causa palestina.

Arafat apreciava o amor e o respeito que o seu povo tinha por ele. Este amor lhe era caro. Ele levava uma vida modesta e pedia pouco para ele mesmo. Ele vivia pelo seu povo.

A partir da sua posição de líder, ele abriu caminho para uma solução histórica com Israel, a da partilha da terra entre um Estado para o povo judeu e um Estado para os palestinos. Ele deu mostra de muita coragem, rompendo com o passado.

Ele aceitou um compromisso doloroso com Israel, baseado nas fronteiras tais como elas se definiam antes de 1967, renunciando ao mesmo tempo à divisão dos territórios que havia sido oferecida pela ONU em 1947 na resolução 181, que os palestinos haviam rejeitado na época. Ele aceitou as mudanças da realidade.

Mas ele não foi longe o bastante. Quando teve de escolher entre o amor do seu povo e a uma melhora da vida deste mesmo povo, ele infelizmente optou pelo amor. Ele não estava disposto a arriscar a sua popularidade e a defender decisões difíceis que ele considerava por demais discutíveis.

Certa vez, ele me disse, bastante amargurado, depois da assinatura dos acordos de Oslo: "Veja o que você fez comigo: eu era uma figura popular aos olhos do meu povo, e você me transformou numa personalidade controvertida aos olhos dos palestinos e de todo o mundo árabe".

No final das contas, a popularidade triunfou da controvérsia. As suas políticas declaradas eram corajosas mas ele não as implementava até o fim. Ele não se desvencilhou do terrorismo e do ódio. Ele frustrou as esperanças de inúmeras pessoas e perdeu toda credibilidade junto àqueles que mais poderiam tê-lo ajudado na defesa de sua causa.

Arafat manteve vivos os sonhos e as esperanças do povo palestino, embora esses sonhos e essas esperanças não tivessem mais lugar no mundo. Ele não abriu caminho para um processo doloroso porém necessário, pelo qual toda pessoa e toda nação precisam passar, abandonando os sonhos de grandeza que nada trazem a não ser a miséria, e aprendendo a viver, a amar e a prosperar neste mundo.

Arafat podia escolher entre o caminho da negociação e o caminho do terror e da violência. Ele teria feito muito mais em favor dos palestinos e de sua causa caso ele tivesse efetivamente abandonado o terrorismo em proveito das negociações.

Arafat era um homem talentoso. Ele era preciso e concentrado. Poucas coisas escapavam da sua atenção. Os modos de vida ocidentais o intrigavam, mas, com freqüência excessiva, ele considerou que eles não tinham qualquer relação com a sua própria experiência.

Ele prosperava nas situações anárquicas. Ele vivia como um fidalgo rico e poderoso em meio a um sistema arcaico e fortemente centralizado, mantendo um controle extremamente severo sobre os grupos armados e os movimentos financeiros.

Em resposta a um pedido para que fosse efetuada uma gestão financeira transparente, que havia sido formulado pelos países doadores, ele rebateu que ele não era uma "dançarina do ventre". Ele não tinha a menor intenção de se envolver naquilo que ele chamava de "uma exposição indecente".

Ele mostrava-se estupefato com a democracia caótica de Israel, e me disse um dia: "Meu Deus, a democracia, quem foi que inventou isso? É uma coisa tão cansativa". Ele tinha uma excelente memória dos nomes. Mas ele optou por esquecer um grande número de fatos.

A morte de um pai sempre provoca uma dor profunda. Mas é também uma oportunidade para reaparecer como um adulto em plena maturidade. O mundo observa agora o povo palestino órfão. O mundo espera vê-lo assumir o controle do seu destino, dizer adeus aos seus sonhos de juventude e mostrar a coragem de viver neste mundo tal como ele é, e não tal como se gostaria que ele fosse.

Os palestinos precisam reconhecer que Israel está aqui para ficar. O povo judeu está profundamente apegado à sua terra histórica, mas nós também queremos viver juntos e em paz. Todos nós precisamos compartilhar esta pequena porção de terra. O povo judeu é um povo moral, e a nossa tradição e os nossos valores exigem que nós aprendamos a viver em paz, juntos.

Nós crescemos enquanto povo quando nós aprendemos a reconhecer o outro e a viver junto com ele --pouco importa que ele seja diferente de nós e pouco importa que os seus sonhos sejam diferentes dos nossos. Nós crescemos quando aprendemos a compartilhar. E nós crescemos quando deixamos de lado a nossa cólera para com o mundo e a substituímos pela energia produtiva que permite transformar este num lugar melhor para todos os que nele vivem.

A minha prece para todos nós --palestinos e israelenses, judeus e árabes--, neste momento exato em que todos nós estamos refletindo sobre o nosso futuro, é a de que nós aprendamos a querer aquilo que é mais importante na vida. Nem mais, nem menos. Uma vida acaba de se terminar. Chegou agora o momento para muitas vidas de começar.

*Shimon Peres é um antigo primeiro-ministro trabalhista de Israel; ele dividiu o prêmio Nobel da Paz de 1994 com Iasser Arafat e Itzhak Rabin.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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