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09/12/2004
Europeus confirmam que falta de sono engorda

Jean-Yves Nau
Em Paris


Segundo pesquisa conduzida por pesquisadores franceses, belgas, turcos e búlgaros, a falta de sono provoca, entre outras conseqüências fisiológicas, uma estimulação do apetite. Além disso, se a redução do tempo de sono se instalar de um modo crônico, ela aumenta consideravelmente o risco de surgimento de uma sobrecarga ponderal, e até mesmo de uma obesidade.

A pesquisa, publicada na edição de 7 de dezembro, dos "Annals of Internal Medicine" (Anais da Medicina Interna), foi dirigida pelas pesquisadoras e médicas Karine Spiegel (do Centro de Estudos dos Ritmos Biológicos, da Universidade livre de Bruxelas) e Eve Van Cauter (do Departamento de Medicina da Universidade de Chicago).

A equipe da doutora Van Cauter já havia estabelecido um vínculo entre a diminuição da qualidade do sono à medida que uma pessoa vai envelhecendo e o aumento da quantidade de gordura no organismo. Num estudo publicado no "Journal of the American Medical Association" (Jornal da Associação Americana de Medicina) de 2003, ela explicava entre outros este fenômeno que, segundo ela, ocorre em função de uma diminuição da produção do hormônio de crescimento pelo organismo, um processo que tem por conseqüência aumentar o volume dos tecidos gordurosos.

A pesquisa havia sido realizada com base no estudo de 149 homens, com idades de 16 a 83 anos. Ela demonstrava que, passada a idade de 45 anos, os homens praticamente não mais podem beneficiar das fases de sono conhecidas como "sono profundo", fases estas durante as quais uma região específica do cérebro sintetiza o hormônio de crescimento.

"Nós sabemos atualmente que, se nós conseguirmos aumentar a quantidade de sono profundo, poderemos com isso aumentar a quantidade de hormônios de crescimento", disse a doutora Van Cauter.

Uma pesquisa mais recente, realizada pela Universidade Columbia (Nova York) também havia sugerido que a falta de sono podia estar associada à obesidade. Nela, os pesquisadores chegaram à conclusão de que as pessoas que dormem menos de 4 horas por noite vêem o risco de se tornar obesas aumentar em 73% em relação a aquelas que dormem cotidianamente entre 7 e 9 horas.

A proporção passa a ser de 50% apenas para as pessoas que dormem 5 horas, e de 23% para aquelas que dormem 6 horas por noite. Contudo, tais constatações podiam parecer bastante paradoxais, considerando-se que o sono corresponde a um período de menor despesa calórica.

As conclusões do estudo que acaba de ser publicado fornecem novos e convincentes elementos de compreensão. Os pesquisadores observaram 12 homens voluntários, não-fumantes e gozando de perfeita saúde, todos eles com idade em torno de 20 anos.

A pesquisa demonstra pela primeira vez que uma redução da duração do sono provoca, nos homens com boa saúde, uma elevação das concentrações sangüíneas de um hormônio estimulador do apetite (a grelina). Além disso, simultaneamente, esta redução de sono é associada a uma diminuição das concentrações da leptina, um hormônio que, fisiologicamente, induz uma sensação de saciedade e, portanto, leva a uma redução do consumo de alimentos.

As perturbações hormonais costumam ser observadas após duas noites consecutivas de um sono de uma duração inferior a 4 horas. Neste estágio da experiência, o aumento da taxa de concentração de grelina já alcança 28% e a de leptina, 18%.

"A privação parcial de sono é acompanhada efetivamente por um aumento da fome e do apetite, enquanto a importância deste aumento é proporcional à importância das modificações hormonais", concluem as autoras desta pesquisa. Elas precisam também que as diferenças observadas nos comportamentos alimentícios são importantes entre os voluntários que passaram duas noites com menos de 4 horas de sono e aqueles que beneficiaram de duas noite com 10 horas de sono cada um.

A partir destes resultados experimentais, as autoras não hesitam a operar uma transposição das suas conclusões para um plano mais geral.

"A redução do tempo de sono, que caracteriza a evolução das sociedades industrializadas há cerca de meio-século, poderia desempenhar um papel desencadeador --ou pelo menos favorecedor-- da epidemia de obesidade que grassa nos Estados Unidos e que vem progredindo em muitos outros países, inclusive a França", sublinham.

Nos Estados Unidos, a duração média do sono cotidiano foi reduzida em cerca de 2 horas, passando de 8 horas e meia nos anos 60 para um pouco menos de 7 horas atualmente. Durante o mesmo período, a proporção dos jovens adultos que dormem menos de 7 horas por dia passou de 15,6% para 37,1%.

Inversamente, a proporção das pessoas que dormem 8 horas ou mais diminuiu de 40,8% para 23,5%. Em 1960, nos Estados Unidos, era recenseado um obeso para cada nove adultos. Hoje, esta proporção é de um em cada três.

Para a doutora Karine Spiegel, convém desde já tirar as conseqüências destas observações. "Até então, a definição dos tratamentos médicos da obesidade e do excesso de peso era fundamentada numa restrição das suplementações calóricas e num aumento das despesas calóricas por meio dos exercícios físicos. Daqui para frente, vai ser preciso acrescentar a estes tratamentos conselhos referentes aos comportamentos no que diz respeito ao sono", sublinha.

Para Karine Spiegel, os resultados constituem sólidos argumentos a favor de um retorno a durações de sono superioras àquelas observadas atualmente nos países industrializados.

"É tanto mais verdadeiro", explica, que o aumento do tempo de vigília diz respeito a pessoas sedentárias que reduzem a duração do seu sono para, na maior parte dos casos, assistir à televisão".

Emagrecer dormindo mais?

Os resultados da pesquisa da equipe dirigida por Karine Spiegel (da Universidade livre de Bruxelas) foram confirmados pelo estudo de um grupo americano dirigido por Emmanuel Mignot (do Instituto Médico Howard Hughes, da Universidade Stanford, em Palo Alto, Califórnia). Esta pesquisa foi desenvolvida com a colaboração de 1.024 voluntários sofrendo de diferentes formas de perturbações do sono.

Os autores desta pesquisa observam que as pessoas que dormem menos de 8 horas por noite são, mais do que as outras, expostas a um risco de excesso ponderal de peso e de obesidade. E, mais uma vez, estas observações são confirmadas por análises biológicas relativas às concentrações sangüíneas de leptina e de grelina.

Segundo estes pesquisadores, é preciso desenvolver novos estudos o mais rápido possível para determinar se o fato de dormir ao menos 8 horas por noite pode ajudar as pessoas obesas a perderem peso.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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