UOL Mídia GlobalUOL Mídia Global
UOL BUSCA

RECEBA O BOLETIM
UOL MÍDIA GLOBAL


23/12/2004
Uma viagem às origens do carnaval brasileiro

Véronique Mortaigne
Le Monde


Rio, Bahia, Recife: este é o "triângulo de ouro" dos carnavais brasileiros, e já chegou a época em que se deve escolher onde passar a Terça-feira Gorda. Em primeiro lugar, é preciso saber que os desfiles concursos multicoloridos, ricos, conduzidos pelas grandes escolas de samba (em média, quatro mil participantes em cada uma, e mais uma bateria - a seção rítmica - integrada por cerca de duzentos tocadores de tamburins, entre outros instrumentos de percussão), são reservados à cidade de Rio de Janeiro, a antiga capital imperial.

É preciso comprar o seu lugar no Sambódromo, nas arquibancadas que beiram a Avenida Marquês de Sapucaí, no centro da cidade. Uma semana antes do início das festividades, todo mundo participa dos ensaios gerais, nos quais o ambiente costuma ser superaquecido. Estes não deixam de ser uma boa pedida, contudo, pois eles constituem uma excelente oportunidade para ver de perto alguns formidáveis dançarinos de samba, às vezes trajando pouca roupa, e sempre dignos, risonhos e muito competentes.

Em Salvador da Bahia, são os trios elétricos, montados em enormes caminhões lotados de orquestras, que conduzem as festividades, isto é, a multidão que dança em volta deles. Centenas de milhares de foliões acompanham as performances das estrelas da música popular, incansáveis, desde Gilberto Gil, o ministro da Cultura de Lula, até Ivete Sangalo ou Daniela Mercury, rainhas incontestadas da "axé music" (música popular da Bahia, muito dançante), empoleiradas sobre essas máquinas de 15 toneladas cobertas com propagandas.

No Rio, os estrangeiros podem adquirir um pacote, o qual lhes dá direito a entrar nos barracões e a usar fantasias na Mangueira ou na Portela por exemplo, duas escolas de samba entre mais importantes do carnaval carioca. Eles podem também, por que não, imitar o artista plástico Matthew Barney, o marido de Björk, que resolveu criar um trio elétrico conceitual para o carnaval de 2003, o qual foi animado pelo seu amigo, o guitarrista e cantor nova-iorquino Arto Lindsay, enquanto a senhora Barney permaneceu no ar-condicionado de um camarim.

No Recife, mais ao norte, tudo está misturado, e tudo permanece muito informal. Não há nenhum cordão de segurança em volta do Galo da Madrugada. Quando este boneco alegórico mostra a ponta do seu bico, por volta de meio-dia, sob um sol de rachar, um milhão de apreciadores de banhos de multidão, no sentido próprio, cercam-no cantando.

Há alguns lugares que podem ser alugados nos camarotes (cobertos ou ao ar livre, em cabines ou nas arquibancadas, no calor e no frio - sol na frente, ar-condicionado atrás). Por todo lugar, o carnaval começa na sexta-feira e acaba, em princípio, na Quarta-feira de Cinzas. Contudo, os garçons de café, os policiais, e todas essas pessoas que ficaram trabalhando durante as festividades, e que se sentiram frustradas por não poder aproveitar delas, criaram blocos (grupos que desfilam) que saem na quarta e na quinta-feira, o que acaba mantendo uma seqüência festiva que se estende até o fim de semana, de modo a todos estarem prontos para a quaresma, depois de uma semana de folia.

A alguns quilômetros de Recife, a cidade colonial de Olinda, empoleirada sobre um morro frente ao mar, não permite a passagem dos trios elétricos em questão. O caráter histórico do local, com as suas vielas e seus becos, o seu clima todo peculiar, tudo leva a andar a pé, seguindo, à medida que elas vão saindo, as orquestras de frevo - bandas ou fanfarras - e bonecos alegóricos gigantes, que são uma especialidade da região. Olinda continua sendo um dos carnavais mais cotados do Brasil.

Na campanha nordestina próxima da orla, os cortadores de cana de açúcar não ficam para trás, e os engenhos, ou seja, os domínios açucareiros, vibram com grande emoção enquanto estão sendo feitos mil e um preparativos, que incluem a confecção de fantasias reais, ou a sua reforma quando são tirados dos baús, da mesma forma que nos subúrbios do Rio. Aqui, assim como em Trinidad, em Havana, em Fort-de-France, no Haiti ou em Nova Orleans, o carnaval é uma oportunidade de desvendar os mecanismos animistas que presidiram à celebração pagã deste rito nascido na cristandade. Para a Terça-feira Gorda, os escravos estavam autorizados a tocar tambores, a desfilar, e eles tiravam proveito disso, fantasiados, para reconstruir a ordem social africana, com os seus reis, rainhas, dançarinos e feiticeiros.

No Brasil, que é o país da madeira de brasa ou madeira de Pernambuco, viviam índios. Chegaram portugueses, judeus - a primeira sinagoga latino-americana está instalada no Recife -, holandeses, africanos. Dança, ritual, ritmo muito sincopado e rápido: o maracatu nordestino nasceu destas misturas. Assim, o maracatu nação celebra a coroação dos reis do Congo, enquanto o maracatu rural segue nas trilhas indígenas.

De Alagoas (cuja capital é Maceió) até o Ceará (Fortaleza) e o Maranhão (São Luís), o carnaval revela o mundo à parte que formam os caboclos - os mestiços de índios e de negros -, os quais desempenham um papel importante no candomblé, sob o nome de caboclinhos. Estes são pequenos gênios e divindades múltiplas que vêm enriquecer ou perturbar o universo sincrético do vodu brasileiro.

Trajando plumas, roupas bordadas, carregando arcos e flechas, os caboclos encarnam divindades panteístas, as quais também constituem uma herança da tradição tupi-guarani. Na Terça-feira Gorda, Olinda é o palco da mais importante concentração desses grupos de caboclos, os quais saíram na primeira hora do dia de suas casas nas plantações e nas pequenas aglomerações agrícolas, e se reuniram frente à casa de Mestre Salustiano, que é um tocador de rabeca (espécie de violino básico) e uma sumidade em matéria de rituais do maracatu rural.

Estes representantes da mestiçagem indígena circulam em ônibus alugados, os quais, contudo, são caros para o seu poder aquisitivo. Eles percorrem até a noite a campanha por toda a região, descendo nas menores localidades para nelas dançar, num ritmo bastante guerreiro - os primeiros sinais da existência dos caboclos datam de meados do século 18; as primeiras pesquisas dos folcloristas seriam realizadas um século mais tarde.

Após ter passado algumas horas, na segunda-feira de carnaval, bebendo cerveja e comendo churrasco e guisado de cabrito no pátio de Salustiano, em Cidade Tabajara, e após ter colhido as devidas informações a respeito do seu itinerário, o negócio é segui-los de carro e ficar atento para os sons dos "gonguês", os grandes sinos metálicos, dos apitos e das maracas talhadas na casca do coco, ao lado de um canavial. Sem pressa nem multidão.

E eles são magníficos, iluminados, esses caboclos de lança, com as suas lanças de dois metros de comprimento, os seus chapéus repletos de ráfia, de fitas multicoloridas de celofane, as suas bandeiras bordadas de ouro, as suas fantasias costuradas com pérolas e lentejoulas - espécie de moedinhas de ouro, sendo que uma só fantasia pode reunir até 20 mil delas. Eles são maquiados, pintados à maneira de selvagens, exibem flechas, machados de madeira ou de papelão que eles erguem, executando simulacros elaborados de batalhas com o inimigo. Os outros, os caboclos de pena, trajam toucas de tamanho descomunal, feitas com penas de pavão. Há também damas de vestido, moças fantasiadas de cipó, e até mesmo, caciques autoritários.

Leão do Norte, Piaba de Ouro, Estrela de Ouro, são estas as comunidades de camponeses que saíram cedo de manhã. Os seus integrantes são místicos, pobres, e estão envolvidos numa maratona na qual cada um deles deve brilhar. Diante da necessidade de carregar os seus pesados acessórios, os eleitos têm as suas forças multiplicadas por alguma bebida (em geral é cachaça, o álcool de cana, misturada com ervas e com um misterioso pó, chamado azougue). Quase sempre, eles podem ser reconhecidos graças aos seus óculos escuros, que eles utilizam para esconder os seus olhos injetados de sangue. No decorrer de uma dessas rondas, alguns desses dançarinos podem ser vistos com uma flor ou um pedaço de pano enfiado na boca: ao engolir isso, o dançarino terá recebido dentro dele a divindade. Ela só deve sair no dia seguinte, o que obriga o seu servidor a tapar a boca.

Nesta mais completa confusão ritmada, passeiam os bumbas-meu-boi, e os cavalos-marinhos, que constituem formas locais de representação do boi expiatório Apis. As casas são baixas, as ruas pavimentadas, a gentileza natural: as cidades do interior brasileiro se caracterizam por serem bastante diferentes do ambiente mais rude da violência urbana. A paisagem desta grande área conhecida como zona da mata, que foi cortada em proveito das grandes plantações de cana de açúcar, é ampla e brilhante, nela predominando uma paleta de verdes de diferentes matizes: as canas de açúcar, as mangueiras, os cajueiros, os quinhões de mandioca... O fato de, no meio dessa paisagem, acompanhar as evoluções de um travesti de carnaval, quase sem roupas e usando botas vermelhas, com três tambores na frente e dez seguidores que perderam seu caminho, é uma visão totalmente onírica.

Outra fonte de ótimo divertimento é o espetáculo dos desfiles de papangus, esses jovens mascarados e fantasiados dos pés à cabeça, que saem na primeira hora do dia, em meio aos odores de pão fresco, de café e de queijo derretido. Aqui, o carnaval é vinculado à terra; ele escapou da sua urbanidade turbulenta, historicamente contraditória. Nestes campos de um verde açucarado, os cortadores de cana reduzidos à obediência convocam os deuses das águas, do trovão, de relâmpago, Deus e o Diabo, recorrendo às suas penas de pavão que eles usam como antenas, e os seus sinos iorubas, vindos do golfo do Benin, que representam as suas raízes.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

ÍNDICE DE NOTÍCIAS  IMPRIMIR  ENVIE POR E-MAIL

Folha Online
Flip: Bom escritor deve ver Garrincha jogando, diz Lobo Antunes
UOL Esporte
Após fiasco de público, CBF reduz preços de ingressos para partida
UOL Economia
Bovespa reduz ritmo de perdas
perto do fim dos negócios

UOL Tecnologia
Fãs do iPhone promovem encontro no Brasil; veja mais
UOL Notícias
Honduras deve ser suspensa
da OEA, diz secretário-geral

UOL Vestibular
Cotista tem nota parecida com de não-cotista aponta Unifesp
UOL Televisão
Nova novela da Record terá máfia e Gabriel Braga Nunes como protagonista
UOL Música
Radiohead entra em estúdio para trabalhar em disco novo
UOL Diversão & Arte
Escritor indiano Aravind Adiga ganha o Booker Prize
UOL Cinema
Novo filme dos irmãos
Coen tem maior bilheteria nos EUA