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04/01/2005
Costa da Índia se torna um oceano de desgraças

Jean-Michel Dumay
No litoral sudeste da Índia


No leste da Índia, onde o maremoto provocou a morte de um número de pessoas estimado entre 10 mil e 15 mil, o mar matou repentinamente aqueles que ele fazia viver desde sempre: os pescadores.

Na costa do sudeste da Índia, de Madras a Nagappattinam, são pescadores que se sucedem ao longo das gerações, de pai para filho e, até onde alcança a memória do bisavô, eles nunca haviam ouvido o relato que eles farão no futuro para os filhos dos seus filhos.

"Num domingo, 26 de dezembro, eu me levantei assim como todas as manhãs, às 5h30", conta Amami Balu, um pequeno pescador encontrado em Nagore (a 320 quilômetros ao sul de Madras).

"Eu me preparei, tomei meu café da manhã. Por volta das 9h, eu vi rolos se aproximando no mar. Eles subiam sem voltar a descer! Eles subiam!"

Este homem da etnia tâmil tem 40 anos, mas ele parece de fato ter uns quinze a mais. Ele traça molinetes no ar com as suas mãos, que logo acabam arrebentando por cima da sua cabeça. "Eu corri". Então, um braço de mar incerto surgiu na sua frente, na contra-corrente. "Eu fui arrastado, eu nadei". As mãos desenham um grande círculo, um turbilhão: "Talvez por mais de um quilômetro".

Enquanto Amami Balu, a sua mulher e suas quatro filhas estão vivos, o seu filho, o seu avô, a sua avó, a sua mãe, o seu irmão, a sua cunhada, assim como os seus sete filhos, morreram ou são dados como desaparecidos.

O pescador perdeu a sua casa, os seus móveis, as suas roupas. E também o dote que ele reservava para a sua filha primogênita, que estava prestes a se casar: um adereço de ouro, uma cama, uma mesa, uma televisão, um guarda-louça, "com os talheres já guardados dentro das gavetas". O valor estimado destes bens: 5 lakhs (500.000 rúpias indianas, cerca de R$ 30.117,77), oito anos de salário, de economias, incluindo um empréstimo. Tudo foi levado pela água.

E o casamento foi embora junto. Prometida para o próximo mês, a sua filha, sem dote, não serve mais para casar.

Segundo o mais recente balanço oficial, 9.450 pessoas morreram na Índia; 5.500 outras desapareceram e presume-se que elas morreram. Na sua maioria, as vítimas são pescadores e os seus familiares (na proporção de 85%).

Além disso, cerca de três quartos dentre eles morreram nas praias do único Estado do Sul, o Tamil Nadu. Com 7 mil navios motorizados e 30 mil embarcações, parcialmente, ou totalmente destruídos, e 32 mil redes inutilizáveis, a pesca não existe mais nesta região.

Além disso, 86 fazendas de criação de camarão, cuja colheita estava prevista para meados de fevereiro, desapareceram. Vai ser preciso esperar por três ou quatro meses, e até mesmo mais do que isso, até que a pesca possa ser retomada.

Por todo lado, os relatos convergem. Após ter se retirado de maneira muito profunda, o mar atacou três vezes. A segunda onda parece ter desfechado o golpe mais violento, varrendo ovelhas, vacas, barcos, muros, pontes, ferrovias, cabanas, instaladas, em certos casos, a 15 ou 20 metros da água apenas.

Durante uma boa meia-hora, a língua de mar lambeu as terras numa extensão de 300 a 500 metros, por vezes 1, e até mesmo 2 quilômetros, onde se estendem salinas. Então, ela retirou-se, evaporou-se. Calma, tão calma. Movediça, retomando o seu ritmo de antes.

O furor não foi o mesmo em todos os lugares. Em Nagappattinam, uma cidade transformada numa impressionante bagunça, o porto costeiro está devastado. As águas levaram ônibus, barcas de fibras, os tradicionais catamarãs de madeira.

Elas varreram uma fábrica de conservas que alimentava a Europa e o Japão. Atracados entre o quebra-mar e os diques, na hora em que muitos consertam as redes, cerca de cinqüenta navios de bom tamanho, e de cerca de dez metros de comprimento em média, batizados com o nome de divindades hindus que deveriam supostamente lhes trazer sorte e proteção, foram triturados.

No último domingo, dia 2 de janeiro, as 73 aldeias de pescadores do distrito da cidade (176 mil habitantes) haviam contabilizado, sozinhas, 5.819 dos 7.107 mortos recenseados no país tâmil. E a lista não pára de aumentar.

Neste últimos dias, a solidariedade nacional não esmoreceu. Várias dezenas de caminhões de ajuda humanitária, vindos de Bombaim, Madras ou Bangalore, trilharam a estreita estrada costeira: Organizações Não-Governamentais, a Cruz-Vermelha, o Exército da Salvação, empresas privadas, uma associação de advogados, partidos políticos... Para dar o exemplo, alguns deputados e ministros doaram o equivalente a um mês do seu salário.

Em Nagappattinam, nos arredores do porto atingido, todo mundo anda com uma máscara, por medo de epidemias. Entre os locais que foram castigados mais severamente estão as praias de Akarappettai e de Keechankuppam, onde duas aldeias que estavam oferecidas ao mar, sem qualquer proteção, foram transformadas em cemitérios.

Os corpos são enterrados dentro de valas comuns. Ao caminhar nesses locais, é fácil pisar sobre os restos calcinados daqueles que as suas famílias puderam identificar e recuperar: eles foram queimados, conforme manda a tradição hindu, ao ar livre, lá onde eles foram encontrados, no chão.

De palhoças em cabanas, com ajuda de uma escavadeira, os soldados progridem em meio a um emaranhado de bambus, de palmeiras e de coqueiros. Aqui, o corpo de um menininho foi localizado debaixo de um pedaço de muro de tijolo.

Quase sem se mover, a escavadeira alveja um canto de areia, com menos entulho, e cava para que a criança possa ser enterrada ali, imediatamente. Cinco mulheres trajando sáris (vestido tradicional indiano) surgem do nada, em prantos. Uma delas conta para a sua vizinha, sem dúvida pela enésima vez, de que maneira fulano por pouco não foi decapitado por uma embarcação, ou em quais circunstâncias beltrano não conseguiu resistir à corrente.

No dia do Ano Novo, seis dias depois do drama, uma centena de corpos ainda foi encontrada.

Algumas pessoas vagueiam, sem rumo, pelas aldeias desertas. Na praia de Akarappettai, um menino de 12 anos explica que ele perdeu várias irmãs. Um dos seus colegas, mais novo, o consola, esfregando-lhe o braço. Mais adiante, uma mulher segura a mão de um menininho e sacode a cabeça. Segundo o seu marido, já faz três dias que ela está sem comer nada. Quatro dos seus filhos morreram. Ele ainda está traumatizado por ter encarado "as ondas" em pleno mar, antes de retornar até a praia e constatar a desolação.

Com o filho sobrevivente caminhando entre os dois, o homem e a mulher aceleram o passo. As autoridades pediram aos pescadores para não deixarem os campos onde eles estão hospedados. Assim, 88 locais foram montados para este fim no distrito, do mesmo modo que em outros lugares, em escolas, nas salas de casamento das prefeituras, em certos hotéis, e às vezes ao ar livre.

Em Nagappattinam, as ruas estão marcadas por um pó branco. Um desinfetante foi polvilhado nos acostamentos, na frente das quitandas. Por todo canto, os caminhões de resgate estacionam, desovando a água de suas pipas ou distribuindo-a sob a forma de garrafas de plástico individuais. As mulheres, as crianças correm atrás deles, provocando ajuntamentos febris. Na rua principal, onde se amontoam, tentando evitar uns aos outros, pedestres, vacas, ovelhas, cães, bicicletas, motos e carros, vários caminhões oferecem sacolas com roupas.

Aqui, a ajuda é o que não falta, mas, por causa de uma completa desorganização, as roupas estão chegando em quantidade excessiva. Por assim dizer, há montanhas de vestuário, espalhadas, que cobrem o chão.

Nesse sentido, os apelos se multiplicaram nestes últimos dias, na imprensa, pedindo para que essas doações sejam menos numerosas. As ferroviárias, por exemplo, não aceitam mais os pacotes com roupas que elas transportavam gratuitamente nos dias precedentes, e que acabaram se amontoando nas estações de trens.

Nenhum deus

Nas encruzilhadas, equipes médicas administram injeções, principalmente de vacina contra a cólera. Na sexta-feira, 31 de dezembro, as autoridades locais ainda não haviam recenseado qualquer problema sanitário mais sério --alguns casos de diarréia, de febre, e seis de malária-- e tentavam fazer com que as pessoas atingidas entendam que "os vivos eram mais perigosos que os mortos".

Um grande número de atendimentos psicológicos já foi efetuado por médicos especializados: cerca de seis mil no total. "Nós nos deparamos com muitos casos de estresse pós-traumático", indica Olivier Bruant, da seção belga da organização Médicos sem fronteiras (MSF). Ele conta ter efetuado uma missão de avaliação logo no dia que se seguiu ao maremoto.

"A maior parte é de mães de família, sobretudo, que não conseguiram segurar os seus filhos, vendo-os desaparecerem na sua frente". A organização estava estudando a implantação de estruturas para garantir o seu acompanhamento.

Mal o choque da catástrofe havia sido ressentido, muitas pessoas já estavam se manifestando para criticar os poderes públicos pela sua incapacidade de controlar a urbanização da orla. Uma coalizão de militantes ecologistas indicou que, em Nagappattinam, onde o balanço é o mais pesado, as dunas naturais, à beira da praia, haviam sido niveladas "para torná-las mais bonitas".

Em Cuddalore, a 20 quilômetros ao sul de Pondichery, essas dunas parecem ter protegido melhor a aldeia, escondida em meio às palmeiras. No entanto, aqui também as vítimas são contadas por centenas, sobretudo crianças, que foram atraídas pelo primeiro refluxo do mar, o qual deixou um grande número de peixes --pesca milagrosa-- que só precisavam ser apanhados na praia.

No início da noite, a reportagem de Le Monde encontrou nesta localidade Ganka, uma jovem mulher cuja pequena casa foi submersa por 2 metros d´água e não conheceu a sorte feliz daquela do seu vizinho, situada num nível um pouco mais elevado, e que foi poupada.

Sobraram apenas duas paredes internas, em ruínas, na casa de Ganka. Mesmo assim, ela conseguiu retirar dos escombros os seus "tongs" (baús pequenos de bambu) que ela colocou sobre a esteira, na entrada, para neles juntar roupas encharcadas.

O seu cunhado, que deplora a quebra de dois navios, mostra várias feridas na sua perna direita.

"Nenhum deus", diz, "nem hindu, nem muçulmano, nem cristão, pode nos ajudar".

Na aldeia, que está sem eletricidade, uma reunião foi organizada na penumbra durante a qual foram apresentadas as grandes linhas da política do governo: 100.000 rúpias (R$ 6.566,14, ou seja, o preço de uma embarcação sem motor) serão atribuídas por cada pessoa morta, e mais 5.000 rúpias (R$ 309,58, ou seja, um mês de salário médio para um pescador) para que cada família que teve a sua casa destruída possa reconstruí-la.

Além disso, três orfanatos serão implantados localmente e contarão com verbas do Estado. Nem todos beneficiarão de indenizações.

Virgem Maria

Elangilly Kuppusamy, dono de uma loja em Velanganni --a "Lourdes" da orla nesta região, para onde afluem para rezar milhares de fiéis de todas obediências, cristãos ou hindus-- perdeu o equivalente a 500.000 rúpias (R$ 30.958,79) em mercadorias.

Nesta cidade devotada à Virgem Maria, uma parede de água de 7 metros avançou na Avenida da Praia em grande velocidade rumo à igreja Nossa Senhora da Boa Saúde. Um dia depois do Natal, quando a afluência é muito grande, 800 peregrinos ao menos foram bloqueados na areia, onde eles foram encontrados mortos depois do drama, e enterrados no mesmo local.

Uma centena de quitandas e bares desapareceu. Deixados no chão, misturam-se estatuetas da Virgem, os mais variados objetos de culto e brinquedos de crianças. A loja de Elangilly Kuppusamy, construída com material sólido, resistiu.

O comerciante teve tempo suficiente para subir até o terraço sobre o teto, com a sua família. Usando uma máscara de proteção sobre o rosto, ele nos faz visitar o que restou de sua birosca e, na parte de trás, os restos da sua casa, que se encontra no mais completo caos. Então, ele empurra a porta do jardim, que ele ainda não havia aberto. Mais adiante, uma mão pode ser vista no meio dos escombros; ela está ligeiramente aberta, como se ela estivesse erguida para o céu. Um morto a mais neste oceano de desgraça.

Num edifício que fica ao lado da basílica, muitas mulheres tentam descobrir o paradeiro de um familiar, olhando para um painel de fotografias de defuntos. Dezenas de pessoas esperam pacientemente para se encontrar com o bispo de Tanjhore, Devadass Ambrose, que atende no seu pequeno escritório.

"Nós precisamos de alimentos", anuncia o religioso, "de cobertores, de materiais de construção, de utensílios de cozinha. Nós não estamos dando dinheiro".

Em Nagore, Amami Balu, o pequeno pescador que perdeu tudo, ao menos encontrou roupas para vestir: em meio a um dos montes de vestuário depositados na cidade, ele achou uma camisa branca, um chale de cores chamativas e um "kaili" listado (parecido com uma túnica, que é usado longo ou levantado) para cobrir as suas pernas.

Ele diz que utensílios foram distribuídos no campo para que as pessoas atingidas possam preparar finalmente sozinhas as suas refeições. Poucos eram aqueles que gostavam da comida pré-aquecida que lhes era distribuída por porções. "Nós temos o arroz", precisa. "Falta apenas o gás para cozinhar".

Ele acrescenta que as autoridades não querem mais que os pescadores se instalem à beira da água. Estão lhe oferecendo uma parcela de terra, a 5 quilômetros. Mas ele não sabe o que pensar, nem em relação a isso, nem sobre o seu futuro, nem sobre o da região.

O maremoto mudou tudo. A começar, possivelmente, pelos seus sentimentos no que diz respeito ao mar. O intérprete diz perceber uma intensa emoção nas palavras simples deste homem de pele negra: "Eu não voltarei para o mar para pescar antes de dois anos. Os outros, talvez, mais eu não".

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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