15/03/2006
"A Argentina registra um desempenho inédito", diz Roberto Lavagna
Paulo A. Paranaguá
Numa palestra que ele pronunciou em Paris, o ex-ministro argentino da economia elogiou a recuperação do seu país, mas expôs divergências em Convidado dias atrás pela cátedra dedicada a Mercosul de Sciences Po (Instituto de Ciências Políticas de Paris), Roberto Lavagna estava encantado por participar de um colóquio na capital francesa, sem, contudo, abandonar a reserva de um grande funcionário de Estado. Na qualidade de antigo ministro da economia de dois presidentes peronistas que se detestam "cordialmente", Eduardo Duhalde e Nestor Kirchner, ele foi o principal artesão da recuperação da economia argentina, depois do desmoronamento financeiro de 2001 e da moratória da dívida externa que ele provocou.
"Já faz três anos e meio, a Argentina vem registrando resultados macro-econômicos que não se verificavam há cinco décadas", afirma Lavagna. "Em primeiro lugar, nós aumentamos o excedente fiscal para 4%, após termos partido de um déficit de 2%. Em segundo lugar, nós registramos simultaneamente um forte crescimento acompanhado de um crescimento de 9% do produto interno bruto (PIB), e de um superávit das contas-correntes e da balança comercial".
Ao assumir o comando da economia em 2002, Roberto Lavagna encontrou as reservas reduzidas a US$ 9 bilhões (R$ 19,13 bilhões). "Foi quando nós conseguimos aumentá-las para US$ 42 bilhões [R$ 89,3 bilhões] que pudemos então reembolsar uma dívida de US$ 15 bilhões [R$ 31,89 bilhões] ao Fundo Monetário Internacional, após termos renegociado, em 2005, os três quartos da dívida privada", explica. Os indicadores sociais seguem preocupantes, mas "a tendência é positiva": 2,4 milhões de postos de trabalho foram criados, o que reduziu o desemprego de 24% para 10,2% da população ativa.
Roberto Lavagna reconhece que a taxa de investimentos - 21,6% do PIB - é insuficiente, mesmo se ela supera a taxa média dos anos 90. De fato, os argentinos têm o deplorável costume de não investir em seu próprio país, diferentemente dos brasileiros, dos mexicanos ou dos colombianos. Assim, a soma dos capitais argentinos aplicados no exterior é igual ao montante da dívida externa ou do PIB.
Será que a saída da Suez (grupo francês de produção e distribuição de energia) da Argentina e o controle dos preços por parte do governo não comprometem o ambiente dos negócios?
Deixando transparecer um arroubo de ironia para com a recente fusão deste grupo com a Gaz de France (num acordo franco-francês que irritou parceiros italianos e espanhóis), Roberto Lavagna garante que "o mundo não se resume a Suez", uma vez que firmas tais como Peugeot, Total e Alstom, assim como grupos canadenses, americanos ou sul-africanos, aproveitam hoje oportunidades oferecidas pela Argentina.
A despeito do congelamento das tarifas públicas, a inflação alcançou 12%. As previsões para 2006 apostam numa alta dos preços entre 8% e 11%. "Os contratos que foram assinados por ocasião das privatizações previam tarifas em dólares, indexadas na inflação americana, o que era insustentável", lembra Roberto Lavagna.
"O controle da inflação não deveria se basear apenas naquilo que os argentinos chamam de "mecanismo Sarkozy [Nicolas Sarkozy, atual ministro francês do Interior, ex-ministro das finanças]", isto é, no controle dos preços na grande distribuição, mas também em medidas fiscais e monetárias e numa política da rede que incorpore também os salários e a produtividade", prossegue o ex-ministro.
Um crescimento de 6% reduziria a pressão inflacionária. A sua manutenção num patamar de 8% a 9% a aumentaria. O ministro preconizava a primeira opção, enquanto o presidente Kirchner aposta na segunda. Contudo, não foi esta divergência que teria conduzido o chefe do Estado a pedir a demissão de Roberto Lavagna. Motivado pelo sucesso dos seus candidatos nas legislativas de outubro de 2005, Nestor Kirchner preferiu cercar-se de ministros mais dóceis, estimam os observadores em Buenos Aires.
O reajuste das tarifas públicas, que vêm sendo mantidas artificialmente num patamar baixo por razões eleitorais, é inevitável no curto prazo. Este momento da verdade poderia estimular a inflação e provocar tensões sociais. Daí a tentação de Kirchner de recorrer a eleições antecipadas, de modo a continuar cumulando os benefícios políticos do crescimento, antes de uma reviravolta da conjuntura.
Enquanto isso, Roberto Lavagna se abstém de comentar as pesquisas que lhe atribuem um belo futuro político.
Tradução: Jean-Yves de Neufville
UOL Busca - Veja o que já foi publicado com a(s) palavra(s)
|
|