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19/04/2006
Os hussardos de preto do papado, "exército de Deus alinhado para a batalha"

Henri Tincq

Do refeitório à capela para onde eles vão praticar a adoração, eles andam com uma atitude esbelta, o olhar reto, sem uma palavra. Todos trajam um elegante terno cruzado do mais belo preto, realçado por uma gola romana e uma cruz brilhante na lapela do paletó, e seguram um breviário ou um rosário na mão. Os mais jovens trajam uma batina também preta. Eles são cerca de 400 que circulam, por ondas, entre os muros de tijolos cor-de-rosa, os ciprestes, os pinheiros e as oliveiras centenárias do quartel-general mundial dos legionários do Cristo em Roma.

Eles são jovens, atléticos, sorridentes, bastante distantes da imagem
antiquada do velho padre de pulôver em meio aos seus paroquianos. Aqui, está sendo construída a Igreja de amanhã, intercontinental, mais colorida do que branca, submissa ao papa, devotada à Virgem Maria, dedicada à defesa da "verdade católica" e à "nova evangelização" do mundo.

O seminário da Legião do Cristo em Roma está imbuído de espaço, de luz, de limpeza, equilíbrio e serenidade. De luxo também, mas esta palavra incomoda. Os corredores de mármore claro, os salões de recepção, as almofadas coloridas e os canapés aveludados têm a mesma função que aquilo que era chamado no passado nas casas religiosas de "locutórios" - recintos separados por grades nos quais é permitido às pessoas recolhidas conversarem com as de fora que as visitam, com mesa e cadeiras de madeira cambaleantes.

Aqui, a mobília é de muito bom gosto e a ourivesaria resplandece. Os
convidados são recebidos com consideração. Aparadores, cobertos por bordados brancos, transbordam de confeitarias, frutas, garrafas de vinhos, licores, aperitivos. À mesa, os pratos servidos são refinados, servidos por jovens legionários de batina que parecem ter sido formados nas melhores escolas de hotelaria.

Assim como o uniforme preto, há uma "estética legionária" que também
participa do projeto do seu fundador, o padre mexicano Marcial Maciel, 84. Nada é belo demais para Deus. E a quem se mostra espantado diante de tanto esplendor, eles respondem que na Idade Média os construtores de catedrais e de mosteiros construíam também para os séculos por vir.

Nas paredes nuas, estão dependurados apenas crucifixos e as bandeiras deste novo exército do Cristo, nas cores vermelho - "assim como o sacrifício" - e branco - "assim como a pureza" -, ao lado do pavilhão amarelo e branco do Vaticano. Nos corredores se destacam os retratos do papa Bento 16º e do seu secretário de Estado, o cardeal Angelo Sodano, o número dois da Cúria (governo da Igreja católica). Mais adiante, aparecem fotos do fundador e as da fundação da Legião, no México, em 1941.

Este nascimento tem as raízes fincadas num dos episódios os mais sangrentos da história do México, a "guerra dos Cristeros", essas populações que, aos brados de "Viva o Cristo Rei!", se revoltaram no final dos anos 20 contra o anti-clericalismo militante dos dirigentes revolucionários e liberais. Os insurretos foram abandonados pelos Estados Unidos, que apoiaram o governo federal mexicano, e pelo Vaticano que exerceu pressão para que eles entregassem suas armas. Este conflito, que causou a morte de 90.000 pessoas, traumatizou o jovem Marcial Maciel. Vários dos seus tios participaram da insurreição, tais como o célebre general em chefe Jesus Degollado. E Marcial Maciel contou em muitas oportunidades como ele havia assistido, quando tinha
8 anos, à execução em mártir de José Sanchez del Rio, que desde então foi beatificado pela Igreja.

Mas por que ter reanimado as recordações das legiões romanas da Antiguidade? Quando é feita esta pergunta ritual, a resposta surge como um açoite: "Na França, vocês ainda têm a Legião de Honra, e ela não suscita escárnio". Mais seriamente, eles citam as declarações de Pio 12º (1939-1958) que foi o primeiro a reconhecer a intuição do fundador: "Vocês serão como um exército alinhado para a batalha".

Reconhecida como uma instituição de direito pontifical em 1965, esta nova congregação religiosa tornou-se a "menina dos olhos" de João Paulo 2º, que foi seduzido pela sua eficiência logo durante a sua primeiríssima viagem ao México, em janeiro de 1979. O Padre Maciel entendeu logo a importância da eleição de Karol Wojtyla, em 1978, e convenceu suas tropas de que este papa vindo da Polônia, com o seu espírito missionário e as suas idéias bem encampadas, era o "seu" papa. A Legião quer romper com "a Igreja do soterramento" dos anos 60 e 70 e defende um cristianismo que ousa afirmar-se.

Dotada de meios poderosos, ela não pára de espalhar sua teia pela América Latina, a qual se encontra devorada pelas seitas e a pobreza; nos Estados Unidos, aonde o catolicismo vem sendo lavrado pelas correntes liberais e lida com a ameaça da concorrência dos evangélicos; na Europa que se descristianiza, na Irlanda, na Espanha, na Alemanha, na Itália. Já, na França, ela começou a marcar sua presença.

Uma dezena de padres americanos do Norte e do Sul já implantaram seu
quartel-general na Mansão Molitor em Paris, no 16º distrito, e tentam
ressuscitar os patronatos de jovens tais como eles existiam no passado. Eles oferecem seus serviços aos bispos, organizam acampamentos, períodos de retiro espiritual ou "jantares de evangelização".

A Legião já conta 500 padres, 2.500 noviços e seminaristas, 60.000 laicos, os quais são reunidos dentro de uma espécie de "terceira ordem" chamada de Regnum Christi (o Reinado do Cristo). Ela dispõe de inúmeros pequenos seminários cujas recrutas podem ter até mesmo idades de 12 a 13 anos, e de noviciados em Monterrey (México), Cheshire (Connecticut), na Itália, no Brasil, na Colômbia, e de "centros de humanidade" e grandes seminários perto de Nova York, em Salamanca (Espanha), em Roma. Quatorze anos de formação são requeridos do legionário, um membro de uma elite clerical que é recrutada muito jovem, e formada na teologia a mais tradicional e à disciplina: despertar às 5h; uma hora de meditação na cela ou na capela; missa e, somente depois, café da manhã; limpeza dos quartos; estudos e aulas; primeiro exame de consciência. Ângelus (oração, em latim, de saudação e prece à Virgem Maria) ao meio-dia, meditação solitária, estudos, preces diante da eucaristia... E por aí vai, até o apagar das luzes.

"É duro, mas se você quiser ser padre, seja um bom padre. Não o faça pela metade", diz um seminarista, citando seu fundador. A jornada é cronometrada. Nenhuma perda de tempo é tolerada. "Comprimir o tempo" é a obsessão do fundador mexicano. No seminário de Roma, o único momento de lazer são vinte minutos de televisão para assistir às notícias - selecionadas - das redes americanas ou espanholas. O esporte também é praticado, dentro de um "espírito cristão".

Do alto dos seus 2,11 m, Lorenzo Curbis, um antigo jogador da NBA americana, alistou-se na Legião para se colocar "a serviço de Deus". "Em nossas partidas de futebol, não há nenhum árbitro", explica o italiano Pier Luca Bancale, um antigo advogado. "Os confrontos entre Itália e Espanha costumam ser evitados, mas cabe a aquele que comete uma falta reconhecê-la. É o que nós chamamos de formação de consciência. O esporte dela participa".

Esta disciplina militar espalhou, no rastro da Legião, odores de seita. "É falso", responde Gonzalo Miranda. "A frase que eu mais ouvi durante o meu noviciado é: 'A porta está aberta'".

Um antigo professor mostra-se mais cético: "Eu reencontro na Legião o
ambiente dos seminários do passado, que pregavam a dureza", diz. Ele admite que "os rapazes são abertos e sinceros", mas ele acrescenta que reina um severo espírito de controle: "Quando os legionários vinham me buscar, eles nunca se deslocavam sozinhos, sempre em dois ou três".

O serviço da Igreja do papa e do Cristo exige atletas completos da fé. Os legionários fazem cinco votos antes de se engajar: castidade, obediência, pobreza, caridade, humildade. "Nós somos os missionários da verdadeira fé e da moral católica", diz Rafael Laroca, um legionário argentino, "contra as seitas evangélicas, contra a lógica ultra-liberal, contra a New Age, os mórmons ou as Testemunhas de Jeová".

O plano de reconquista do mundo católico passa pela formação. Em Roma, a Legião acabar de inaugurar uma Universidade européia (direito, história, psicologia), a qual vem se acrescentar a uma Universidade pontifical que, desde 1993, ensina a teologia e a filosofia (3.000 estudantes). Nada é belo demais para uma ordem que almeja a elite intelectual ou econômica que foi "afastada da Igreja pelo discurso progressista dos anos 60-70". E que explora setores de ponta.

Um decano da primeira faculdade no mundo de bio-ética, o espanhol Gonzalo Miranda explica: "Nos debates sobre o aborto ou sobre as células-tronco, não se pode ignorar as posições da Igreja". Um Instituto da mulher abriu suas portas para transmitir "uma autêntica mensagem sobre a condição feminina". A Legião comprou uma agência de notícias internacional, a Zenit, e rumores lhe atribuem a intenção de adquirir o canal de televisão francês KTO, amplamente deficitário.

Só se empresta para os ricos. Os legionários são acusados de megalomania e de práticas de lobby. Eles estão presentes em todas as viagens pontificais, em todas as cerimônias em Roma, cercam de atenções delicadas os cardeais da Cúria e a "família" do papa: ontem Stanislaw Dziwisz, o secretário particular de João Paulo 2º, hoje Georg Gaenswein, o assistente mais próximo de Bento 16º. O cardeal Sodano é o seu anfitrião e, diferentemente de todos os costumes, os cita em suas intervenções. Contudo, a Legião nega nutrir qualquer vontade de potência, mas ela atua em concorrência direta com os seus "irmãos" da Opus Dei e da Companhia de Jesus.

Obedecendo cegamente a toda e qualquer ordem do papa, exigindo dos seus
membros a formação a mais avançada possível, fazendo do enquadramento das elites seu alvo favorito, os legionários são de fato os jesuítas do século 21. Até mesmo nas campanhas denigritórias. Isso porque o vento está mudando para eles. Processos foram intentados dez anos atrás contra o fundador, Marcial Maciel, em conseqüência das queixas por abusos sexuais que foram feitas formalmente contra ele por antigos membros da sua congregação. Um dossiê explosivo teria sido entregue na Congregação da fé no Vaticano, mas este vem sendo mantido em sigilo. "É impossível", exclama o Padre Rafael, "o nosso fundador é um homem de Deus, um santo cujo olhar, repleto de entusiasmo e de bondade, irradia".

É um absurdo, confirmam em Roma Pedro Barrajon e Thomas Williams: "Desde os anos 50, 18 acusações, que incluíam o consumo de drogas, já haviam sido feitas contra ele, mas nenhuma delas dizia respeito a abusos sexuais. E estariam descobrindo isso só agora?" Quatro "visitantes" do Vaticano haviam então realizado inquéritos e inocentado o fundador. Diante da retomada dos ataques, a Legião mantém-se calada. "Nós não respondemos. Nós rezamos por aqueles que proferem tais acusações", repete o fundador, que deixou seu posto de superior-geral a um outro mexicano, Alvaro Corcuera, 48.

As fontes de enriquecimento da Legião também são alvos de desconfiança.
Foram "doadores", respondem os dirigentes em Roma. Grandes fortunas
mexicanas e americanas contribuem financeiramente para a Legião. Mas, "para 1 euro que nós recebemos, investimos 2", insiste Pedro Barrajon. Todo colégio construído num bairro elegante do México, do Chile ou da Irlanda é objeto de um investimento idêntico em bairros mais pobres e populares. Este é o sentido dos programas de bolsas e de apadrinhamentos, chamados de "Mano Amiga" (a Mão amiga). No México, 200.000 crianças de favelas são ajudadas pela rede as escolas de legionários e beneficiam dos mesmos programas que as crianças de ricos.

Vai ser preciso de muito mais que essas campanhas de descrédito para minar o entusiasmo dos legionários. Piamente, estes celebram todo dia a memória dos grandes fundadores de ordens - Francisco de Assis, Ignácio de Loyola, Padre Pio, Don Bosco - que também haviam sido vítimas dessas campanhas em seu tempo. E que se tornaram, com isso, grandes santos.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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