06/06/2006
A "cultura pop" coreana arrebenta sobre a Ásia
Philippe Pons
Da usina ao laboratório, da ditadura a uma das democracias as mais dinâmicas da região, a Coréia do Sul está superando o Japão em termos de rapidez de desenvolvimento e, possivelmente, também de influência: enquanto o arquipélago nipônico precisou de um século e meio para se tornar a segunda economia do mundo e um pólo de cultura popular, a Coréia do Sul, depois de uma evolução que durou menos de duas décadas, está prestes a passar na sua frente.
Além de possuir empresas que se viram atribuir a "faixa azul" (selo de excelência internacional) no setor das altas tecnologias, a Coréia do Sul está se tornando uma fonte de inovação e de exportação de cultura de massa junto aos seus vizinhos, entre os quais - garantia de sucesso - o Japão, o principal mercado jovem do planeta, onde as suas séries televisivas, seus talentos e seus videogames fazem furor. A invasão da pop coreana, chamada de "hallyu" ("a onda coreana"), estende-se desde o cinema até a culinária, passando pelos cosméticos. Ela é reveladora da nova importância de um país que desponta como o símbolo de uma modernidade enraizada numa identidade asiática.
Durante os anos 1960-1980, a Coréia do Sul lutava para sair da pobreza, sob o comando implacável de regimes militares. Em 1988, Seul, que era então a sede dos Jogos Olímpicos, era uma cidade sem grande caráter, que havia sido reconstruída às pressas depois de ter sido devastada pela guerra fratricida de 1950-1953. Hoje, apareceram gramados na Praça da Prefeitura, onde flutuavam, quinze anos atrás, eflúvios de bombas de gás lacrimogêneo. Até pouco tempo atrás uma megalópole cinza de 10 milhões de habitantes, coração de um bolsão urbano que reúne um total de 23 milhões de moradores, hoje Seul se quer mais sorridente, reflexo da imagem de um país que está passando do labor para a inventividade.
A Coréia industriosa das pequenas oficinas onde muitos seguem trabalhando até altas horas da noite, das feiras que esbanjam uma vitalidade febril e dos botecos onde os fregueses se embebedam com "soju" (aguardente à base de batata-doce), coteja daqui para frente uma outra Coréia, tão dinâmica quanto, porém cosmopolita: a das extravagâncias do luxo, das grifes, dos restaurantes italianos ou franceses e dos trens de alta velocidade.
Até hoje, a décima economia do planeta permanece baseada na sua indústria, do automóvel à siderurgia passando pelos estaleiros navais. Mas os coreanos tiraram os ensinamentos da crise financeira de 1997, que deixou o país de joelhos: não basta produzir e exportar, permanecendo na dependência das tecnologias americanas ou nipônicas. Pressionado pela China no plano competitivo, o país precisa de um novo motor de crescimento: a inovação. Ele tem condições para alcançar este novo patamar, com um nível de educação equivalente ao do Japão, e com investimentos importantes voltados para as pesquisas, consentidos por grupos tais como Samsung.
Mas a Coréia não se limita a inventar. Ela aplica suas inovações à sociedade: é o país o mais "conectado" do planeta (três quartos das famílias dispõem de uma conexão com a Internet), enquanto ela transformou alguns portais em centros difusores da democracia. Não é mais lendo os jornais, e sim consultando os portais na Internet, com as suas "guerrilhas de notícias", que se pode sentir o pulso da sociedade.
O sucesso o mais espantoso é o do brilho cultural deste pequeno país de 48 milhões de habitantes, preso assim como num torno entre os seus gigantes vizinhos, chinês e nipônico: da Malásia ao Japão, passando pela China e o Vietnã, milhões de asiáticos se divertem com videogames ou assistem toda noite a séries televisivas produzidas na Coréia.
No Japão, onde a minoria coreana esteve por muito tempo vítima de discriminações, alguns "Korea towns" (bairros coreanos) tais como o bairro de Okubo, em Tóquio, se tornaram pólos de atração para os jovens nipônicos. Este boom foi desencadeado pela voga da série televisiva "Sonata de Inverno" (2004), cujo ator principal, Bae Yong-joon, é a coqueluche das japonesas.
A que se deve esta verdadeira paixão? A forte identidade coreana, que foi cimentada em meio à adversidade, seduz numa região que passou a se mostrar reticente àquilo que ela percebe como uma "americanização". A Coréia oferece "algo a mais": um toque asiático pronunciado. A sua cultura de massa é vista como não sendo nem americana, nem japonesa, em países emergentes onde a cultura local não dispõe dos meios para satisfazer quantitativamente a novas demandas.
É uma "culture fusion" (fusão de culturas): expressão "cult" nesta região, que remete a uma modernidade ao mesmo tempo cosmopolita e "asiatizada". Uma cultura de massa da qual a China (ainda) não pode ser a matriz em razão dos vestígios do socialismo. Desta cultura o Japão continua sendo a fonte principal, mas a sua imagem vem sendo prejudicada pela sua associação com a América, da qual ele aparece como seguidor e discípulo.
A Coréia, que inventou a imprensa antes de Gutenberg, possui uma cultura várias vezes milenar. Além disso, ela veicula nas suas séries televisivas valores nos quais os seus vizinhos podem se reconhecer (tais como o senso da família), sem, contudo, deixar de criticar ou satirizar os atritos que ocorrem entre gerações cujos modos de vida são diferentes.
Ela encena também um valor essencial na Ásia: a resistência. Não raro transformada em obstinação no caso dos coreanos, esta virtude adquiriu a dimensão de um traço decisivo do temperamento nacional. O "han", uma palavra sino-coreana, designa este sentimento amargo no qual se misturam a pena e a amargura provocadas pelos esforços não recompensados e as expectativas frustradas. O han, que "toma conta das tripas e do coração" e do qual os coreanos (tanto os do Sul como os do Norte) tendem a pensar que ele é uma característica única do seu povo, alimenta uma dramatização muito "latina" das emoções, as quais são veiculadas incansavelmente por canções populares, romances e pelo cinema.
Além disso, uma das séries televisivas de maior audiência nesta região, intitulada "A Jóia do Palácio" (história de amor ambientada na Coréia do século 16), enfatiza uma outra dimensão da "coreidade": a argola de ferro do confucianismo - Designação atribuída no Ocidente às doutrinas e ao sistema de pensamento elaborado pelo filósofo e teórico político chinês K'ung ch'iu (também dito Khong-Fon-Tseu, K'ung-fu-tzu, K'ung-tzu) ou, no Ocidente, Confúcio (551 a.C.- 479 a.C.) e por seus seguidores (foi doutrina política, religião e código de ética oficial do império chinês de 136 a.C. até 1912.)
A Coréia é o país da região que foi o mais profundamente marcado por esta ética. A tensão perpétua da alma coreana, presa numa armadilha entre a paixão e as obrigações herdadas da ordem confuciana, alimenta o dinamismo de um país que passou, sem implodir, no espaço de uma geração, da pobreza para uma renda per capita equivalente à da média européia.
Até o final dos anos 80, a sociedade foi duramente machucada pelas ditaduras. Hoje, democratizada e extremamente receptiva às novas formas de consumo, ela permanece inervada por certos princípios de vida: uma forte identidade nacional, um senso comunitário que alimenta o civismo, o respeito pelo saber e uma feroz ambição de ser coreano.
Na província de Kyongsang do Norte, no centro oriental da península, a cidade de Andong reivindica o status de "capital espiritual do país". Berço da aristocracia e dos pensadores confucianos, ela goza até hoje de um ascendente moral: a sua universidade tem o raro privilégio de ter uma disciplina específica: os "estudos sobre Andong", no termo dos quais se obtém um diploma. Para a nova geração, este baluarte do conservadorismo político é portador de "uma mentalidade demasiadamente fechada". Mas a maioria dos jovens também reconhece que o sistema de valores de raiz confuciana constitui a armadura mental da maior parte da população - inclusive deles mesmos.
O neo-confucianismo, que se tornou uma moral de Estado na Coréia, no final do século 14, moldou os comportamentos. Assim, para a festa das colheitas (Chusok), no início do outono, raros são aqueles que se furtam à obrigação moral de ir honrar o túmulo dos ancestrais, mesmo se para tanto eles devem enfrentar enormes engarrafamentos durante horas. A sua herança é ambivalente. Uma doutrina da elite masculina que regula as relações sociais e legitima o poder, o neo-confucianismo se resume a um conjunto de valores éticos e de regras de conduta (respeito pela família e os mais idosos). Esses valores formam a base de uma etiqueta que é em muitos casos e até hoje a "chave" do sucesso social e da reputação.
Numa sociedade democratizada, a autoridade patriarcal e a primazia masculina entrem em conflito com o individualismo e a igualdade dos sexos. Mas a herança confuciana é também portadora de valores seguros de identidade: este foi o caso na época da colonização japonesa e voltou a sê-lo com a confusões causadas pela crise econômica de 1997-1998.
Após ter passado em algumas décadas da ordem confuciana para o consumismo, a sociedade contemporânea é hoje movimentada por duas correntes divergentes: a primeira tende a esquivar-se das obrigações, enquanto a outra adere, não sem frustração, ao formalismo tradicional, sinônimo de status social. A esquiva manifesta-se, por exemplo, por meio do desmoronamento da natalidade: as coreanas, emancipadas, furtam-se às obrigações importas pela ordem patriarcal. O seu "passo de lado" consiste em atrasar o nascimento do primeiro filho (a taxa de fecundidade caiu para 1,2 filho em dez anos) e em divorciar: 46% dos casais se separam no decorrer dos três primeiros anos de casamento.
Mas, inversamente, proliferam as escolas de etiqueta nas quais as futuras esposas aprendem a se comportar socialmente. Nelas, ensina-se como andar em silêncio, a se inclinar em função das circunstâncias e dos interlocutores, como se comportar por ocasião de funerais, como arrumar maços de flores ou trajar um vestido tradicional, assim como o valor simbólico de iguarias servidas em certas ocasiões. Essas escolas, que são mais de mil, propõem também às suas alunas conhecerem eventuais maridos.
Anacrônicas, elas são reveladoras das ambivalências da modernização. Da mesma forma, os filmes e as séries televisivas produzidos na Coréia veiculam a experiência de uma cultura presa numa armadilha pela modernidade, tratando no registro da "soap opera" (novela popular) de temas ignorados das séries produzidas em Hollywood e ultrapassados no Japão, mas que obcecam os outros países da região.
Tradução: Jean-Yves de Neufville
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