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30/08/2006
Os Sex Pistols ultrajam a rainha

Stéphane Davet

Somente punks poderiam transformar o "God Save the Queen" num crime de lesa-majestade. Hoje um clássico da história do rock, esta música dos Sex Pistols arrebentou por meio da sua brutal eficiência, pelo veneno do seu canto e pelo impacto provocador de um título, transformando o hino nacional britânico a ponto de fazer dele um torpedo anti-monarquista, no mesmo ano em que a rainha Elizabeth II comemora 25 anos de reinado. Na voz do cantor Johnny Rotten, a soberana "não é um ser humano" e encarna "um regime fascista" debilitante. Um julgamento em forma de heresia "no future", que soa como o topo de uma arte do escândalo.

1977: o Reino-Unido conta com o Jubileu de prata da rainha para exaltar o orgulho nacional. O consenso parece se formar e os vendedores de suvenires esfregam as mãos. Do outro lado desta fachada, o país está ameaçado de decrepitude. O governo trabalhista de James Callaghan enfrenta a inflação e o desemprego. As flutuações dos preços do petróleo desestabilizam uma indústria em processo de envelhecimento. Tensões raciais causam alvoroço em certos bairros de Londres. O IRA (Exército Republicano Irlandês) exporta para a Inglaterra o conflito norte-irlandês.

"O ambiente era sinistro", recorda-se o jornalista e escritor Jon Savage, criador em 1976 de um dos primeiros fanzines punks, "London's Outrage" ("Ultraje de Londres"), e autor de um livro de referência sobre esse movimento ("England's Dreaming : os Sex Pistols e o punk", publicado na França pela editora Allia, 1991). Ele explica: "Havia bairros inteiros de Londres mergulhados numa pobreza extrema, lugares que ainda estavam marcados pelos bombardeios da Segunda Guerra mundial. O contexto social ia se degradando, a vida cultural estava no ponto morto. A época estava madura para os Sex Pistols".

Os ingleses, na sua ilha, há muito já desenvolveram um antídoto batizado de dandismo ou excentricidade. O rock local beneficiou deste particularismo, explorando melhor de que em outros lugares um senso aguçado do estilo. Não é um acaso se a história dos Sex Pistols tem início, em Londres, nas dependências da Sex, uma boutique de vestuário descolado da King's Road, gerenciada por Vivienne Westwood e Malcolm McLaren. Um antigo aluno de escola de arte, apaixonado pelos situacionistas, este último é também um fã de rock, que se desespera por não conseguir reencontrar a excitação corrosiva desta música. Em Nova York, ele observou a eclosão de uma nova cena - os New York Dolls (dos quais ele será por um tempo o empresário), Patti Smith, os Ramones, Richard Hell (o primeiro a aparecer com uma cabeleira hirsuta, camisetas detonadas remendadas e alfinetes de
segurança) - que dinamita a seriedade do rock dos anos 70.

Muito inspirado na escola dos empresários manipuladores do pop britânico (a de Brian Epstein ou de Andrew "Loog" Oldham, agentes, respectivamente, dos Beatles e dos Rolling Stones), McLaren se servirá dos músicos de passagem na sua loja para recrutar um grupo - que ele batizará de Sex Pistols - em sintonia com as suas fantasias. Ele recruta dois delinqüentes juvenis - Steve Jones na guitarra, Paul Cook na bateria - e um baixista musicalmente qualificado - Glen Matlock.

Malcolm McLaren tem a sorte, sobretudo, de encontrar John Lydon, que logo recebe o apelido de Johnny Rotten (Joãozinho Podre), cujo ódio pelo establishment só será igualado pela sua verve sarcástica de letrista e de cantor. Desde os seus primórdios, no final de 1975, o grupo aposta na provocação e avança na contracorrente dos ideais agonizantes da geração hippie. Reivindicando a alcunha de "punk" (patife, vagabundo, reles), o quarteto cuspia vitríolo enquanto outros arremessavam flores. Brigas são deflagradas no meio da platéia logo nos primeiros shows. McLaren faz mais alarde ainda em torno desses incidentes. Num primeiro compacto, "Anarchy in the UK", Rotten urra com um ar demente: "Eu sou um anticristo, eu sou um anarquista, / Eu não sei o que eu quero, mas eu sei como obtê-lo, / Eu quero destruir os passantes".

O choque elétrico adquire uma dimensão nacional quando grupo, convidado para participar de um programa de televisão, em 1º de dezembro de 1976, se diverte insultando, na hora do chá, o apresentador Bill Grundy. No dia seguinte, os tablóides dedicam suas manchetes ao espetáculo de "lixo e furor" que irrompeu nos lares britânicos. A partir de então, os jornais sensacionalistas cobrirão a crônica cotidiana de uma sucessão de casos: o cancelamento de uma turnê por causa de proibições municipais, o saqueio de um hotel ou de uma sala de espera de aeroporto, a ruptura pela gravadora EMI do seu contrato fonográfico (o grupo conservando as 40.000 libras que ele havia recebido como adiantamento), a substituição de Glen Matlock pelo "destroy" Sid Vicious.

Em 9 de março de 1977, os Sex Pistols assinam um novo contrato com a gravadora A & M, na frente do palácio real de Buckingham e anunciam o lançamento do seu próximo compacto, "God Save the Queen". Em 16 de março, a A & M é tomada pelo pânico e rompe o contrato (o grupo conservando suas 50.000 libras de adiantamento). Os Sex Pistols assinam então com a Virgin. O lançamento do disco é adiado para 27 de maio, poucos dias antes do início das cerimônias de celebração do Jubileu. O timing é perfeito. Rotten escreveu a letra da música no outono de 1976 - "Pensei nela durante semanas", explicará mais tarde o cantor, "e então ela surgiu de uma só vez, dentro da cozinha de um 'squat' [apartamento sem dono ocupado ilegalmente]". O cantor intitula primeiro a música "No Future", e então a rebatiza de "God Save the Queen" por insistência do seu empresário.

Uma obra-prima de irreverência, este rock açoita pela sua lucidez e as suas imagens: "There's no future in England's dreaming" ("o sonho da Inglaterra não tem futuro"), "We're the flowers in the dustbin/We're the poison in the human machine/We're the future, your future" ("Nós somos as flores dentro do lixo/Nós somos o veneno dentro da máquina humana/Nós somos o futuro, o seu futuro"). "No momento do Jubileu, nem mesmo os partidos de esquerda ousariam destruir o tabu da figura real", lembra Jon Savage. "A força daquele disco era de questionar e atacar este consenso e de quebrar o mito de uma Inglaterra grande vencedora da Segunda Guerra mundial".

O peso da música e das palavras é redobrado pelo das imagens. O artista gráfico Jamie Reid vai confeccionando cartazes e capas de discos. Nas primeiras criações, a rainha, fotografada por Cecil Beaton, é vestida de modo ridículo, com um alfinete de segurança dentro do nariz (uma suástica será retirada do seu olho). Na capa do disco, com um fundo azul e prata (as cores oficiais do Jubileu), a mesma foto é coberta no nível dos olhos e da boca pelo título da música e o nome do grupo, escritos com letras recortadas à maneira das cartas anônimas.

As reações não demoram a ocorrer. Os empregados da fábrica de prensagem recusam-se num primeiro momento de gravar o vinil. A BBC e as rádios comerciais não querem tocar o disco, enquanto a maior parte das grandes cadeias de lojas não aceita colocá-lo à venda. Apesar desta censura, 150.000 exemplares do compacto são vendidos em cinco dias. O disco só não alcança o primeiro lugar da parada de sucessos (ele fica em segundo lugar) por causa de uma manipulação do British Phonographic Institute.

Mas a imprensa musical e os lojistas de discos independentes se apaixonaram e tomaram a defesa desses punks que vem devolver brilho ao rock da Inglaterra. Sobretudo, uma grande parte da juventude se identifica com Rotten e sua banda, e dezenas de grupos passam a surgir toda semana no Reino Unido, inspirados por essa excitação.

Consciente do efeito publicitário desta repressão, McLaren aumenta mais um pouquinho a dose. Em 7 de junho, para a primeira noite do Jubileu, ele organiza um show privado do grupo no rio Tamisa, a bordo do Queen Elizabeth. "O ambiente era muito paranóico", conta Jon Savage, que participou da excursão. "O grupo tocou 'Anarchy in the UK' na frente do Parlamento. Eu tive a impressão de estar vivendo um momento histórico".

Depois de o grupo executar algumas músicas, o navio é abordado por seis lanchas da polícia. "O grupo conseguiu escapar, mas vários espectadores lutaram com a polícia. McLaren e Vivienne Westwood foram presos". Depois deste episódio, os membros e o entourage dos Sex Pistols serão regularmente vítimas de operações punitivas. Jamie Reid terá uma perna quebrada, John Lydon terá dois tendões da mão cortados, Paul Cook será espancado até perder os sentidos...

O grupo tentará mudar de ar, depois do lançamento, em novembro de 1977, do seu primeiro álbum (número um durante cinco semanas na Inglaterra), "Never Mind the Bollocks, Here's the Sex Pistols". Ele parte em turnê nos Estados Unidos, aonde as relações entre os músicos e o empresário irão de mal a pior, a ponto de o cantor deixar o grupo depois de um último show em San Francisco. Durante alguns meses, McLaren e o trio remanescente tentarão sobreviver. A história se concluirá com um drama, quando, em outubro de 1978, Sid Vicious apunhala sua noiva, Nancy Spungen, até a sua morte, antes de morrer ele mesmo, três meses mais tarde, de uma overdose de heroína.

O percurso fulgurante dos Sex Pistols (que voltaram a se reunir brevemente em 1996) terá disparado um dos movimentos musicais os mais radicais e influentes da história. O seu impacto pode ser sentido até hoje na relação que nós temos com os sons, a moda, as imagens. Ao promover a insurreição, sem deixar de demonstrar ao mesmo tempo as molas comerciais desta rebelião, o grupo deu mais uma vez à luz a inocência do rock, desfechando simultaneamente contra ele um golpe possivelmente fatal. Os Windsor, por sua vez, sobreviveram aos Sex Pistols e a alguns outro escândalos.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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