27/09/2006
Longe atrás nas pesquisas, a oposição ao presidente Lula ainda torce por um segundo turno
Annie Gasnier
correspondente no Rio de Janeiro
Geraldo Alckmin joga sua derradeira cartada neste final de campanha eleitoral, cujo pleito está agendado para 1º de outubro. Enquanto as pesquisas lhe atribuem 30% das intenções de voto, o candidato do Partido Social-Democrata Brasileiro (PSDB, de oposição) à Presidência tenta tirar proveito de um escândalo que está atrapalhando o Partido dos Trabalhadores (PT, esquerda no poder) para reverter a tendência. Ele acredita num segundo turno, mesmo se as pesquisas seguem apontando a vitória, já no próximo domingo, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que pleiteia um segundo mandato.
Vários membros da equipe de campanha do PT foram afastados, após terem tentado comprar um dossiê que supostamente deveria comprometer o PSDB, naquilo que passou a ser chamado de "o escândalo do dossiê". Segundo Geraldo Alckmin, "a festa da democracia, que é a eleição, virou problema policial, e mal-resolvido", e, diante disso, ele desafia a coalizão de esquerda, que ele denuncia como "uma organização criminosa alojada dentro do Estado brasileiro".
Como candidato da aliança entre o PSDB e o Partido da Frente Liberal (PFL, de direita), o antigo governador do Estado de São Paulo fez da corrupção o seu alvo preferencial. "Geraldo, por um Brasil decente", proclama o seu slogan de campanha. "O problema de Alckmin é de ele denunciar a corrupção, prometendo 'um choque de gestão', os quais são termos excessivamente vagos para os mais humildes, que foram beneficiados com a política social de Lula", estima David Flecher, um professor de ciências políticas na universidade de Brasília.
Geraldo Alckmin acaba justamente de percorrer o Nordeste, a região mais pobre do país onde nasceu o presidente Lula, com o objetivo de reduzir a diferença: aqui, 16% dos eleitores se declaram a favor do social-democrata, contra 70% que apóiam o "filho do país que deu certo". Mais do que em qualquer outro lugar, o principal candidato da oposição amarga o fato de não ser desconhecido da opinião. Apesar de ter iniciado sua carreira política há trinta anos, a reputação deste médico de 53 anos não havia transposto os limites do Estado de São Paulo até esta campanha.
Eleito prefeito aos 23 anos, e depois deputado da sua cidade natal de Pindamonhangaba (a 200 km de São Paulo), Geraldo Alckmin cresceu na sombra de Mario Covas, um dos fundadores do PSDB e ex-governador de São Paulo, de quem ele se considera o herdeiro por tê-lo substituído quando este morreu, em 2001. Considerado como um bom administrador do Estado o mais rico do Brasil, Alckmin seduziu um terço do eleitorado. As pesquisas mostram que a maioria dos paulistas (oriundos de São Paulo) e os meios de negócios votarão em peso nele.
"Guerra dos chefes"
Mas, para desafiar o carisma do presidente em final de mandato, que se viu fortalecido pela estabilidade econômica e os avanços sociais, Geraldo Alckmin carece de eloqüência, de uma personalidade mais calorosa, e de propostas. Após ter criticado com freqüência o programa "Bolsa Família", uma ajuda de custos alocada pelo governo a 11,1 milhões de lares pobres, ele prometeu manter o programa social o mais importante do governo Lula, ainda que "melhorando-o".
Alckmin também se viu obrigado a justificar longamente sua visão da segurança pública, enquanto o crime organizado começava a investir contra São Paulo a partir do mês de maio.
Além disso, a sua coalizão tem se mostrado muito pouco unida para apoiá-lo. O PSDB vive uma verdadeira "guerra dos chefes", que foi atiçada por uma carta-aberta do antigo presidente Fernando Henrique Cardoso (1994-2002), na qual este criticou uma campanha à qual ele não foi associado. No PFL, onde algumas lideranças qualificaram a designação de Geraldo Alckmin de "suicídio político", a mobilização revelou-se bastante reduzida.
Este homem, que leva a fama de estar ligado à Opus Dei, é apresentado pela imprensa como um "bom moço" e ganhou o apelido de picolé de "chuchu", nome de um legume tropical sem cheiro nem sabor. Ele foi forçado a prescindir da ajuda da sua elegante mulher, Maria Lucia, acusada por um estilista de moda de nunca ter devolvido as roupas que lhe foram emprestadas.
Os dois candidatos dissidentes do PT, Heloísa Helena e Cristovam Buarque, respectivamente creditados de 8% e 2% das intenções de voto, não parecem reunir as condições necessárias para provocar um segundo turno. Geraldo Alckmin vai precisar de reação considerável dos eleitores para contrariar os prognósticos.
Tradução: Jean-Yves de Neufville
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