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14/10/2006
Al Gore: "A crise climática ameaça o próprio futuro da civilização"

Por Hervé Kempf
Le Monde
Em Paris


Um curioso paradoxo faz com que um dirigente político americano, Al Gore, 58 anos, venha pregar a boa palavra em defesa do clima apesar de o seu país ser o maior poluidor do planeta. No momento em que faltam seis meses para a eleição presidencial francesa, Gore apresentou o seu filme, "Uma Verdade que Incomoda" para cerca de 200 políticos e eleitos em Paris, na quarta-feira (11/10).

A exibição foi seguida por um debate sobre a questão essencial da mudança climática. O antigo vice-presidente dos Estados Unidos e candidato do Partido Democrata na eleição presidencial de 2000, derrotado por George W. Bush foi um dos principais negociadores do protocolo de Kyoto, concluído em 1997, mas nunca foi ratificado pelos Estados Unidos.

É verdade que a presença física de Al Gore, hoje professor na universidade de Nashville (Tennessee), a sua força de convicção, o seu talento pedagógico, estão conseguindo aquilo que ninguém logrou fazer até agora: colocar o peso de uma incontestável credibilidade política na afirmação de uma mensagem clara, a saber a urgência e a gravidade do que ele chama de "a crise climática". O trabalho de Al Gore está resumido no seu filme eficiente.

Em entrevista ao "Le Monde", o ex-vice-presidente americano explica por que a sua mensagem está acima das ideologias, dos partidos e das políticas circunstanciais dos Estados.

Le Monde - Qual é a mensagem que o senhor quer transmitir por meio do seu filme, 'Uma Verdade que Incomoda'?
Al Gore -
Nós estamos confrontados a uma crise climática que tem o
caráter de uma emergência planetária. Mesmo se essas palavras parecem
aterradoras, elas são infelizmente pertinentes para descrever a relação
radicalmente nova que se estabeleceu entre a espécie humana e a ecologia terrestre. Nada, em nossa experiência passada, nos preparou para o desafio ao qual estamos agora confrontados, mas é um desafio que nós precisamos superar.

A boa notícia é que nós temos tudo o que é necessário para resolver a crise, se agirmos rapidamente. O que falta talvez seja a vontade política. Mas, em democracia, a vontade política é um recurso renovável, e o meio para renová-lo é difundir o conhecimento desta situação junto à maior quantidade possível de pessoas.

Le Monde - O senhor considera que existe uma crise na democracia. Qual é a relação entre o fato de a democracia estar em má forma e a dificuldade para fazer com que as soluções para a crise climática sejam implementadas?

Al Gore -
A informação dentro de uma sociedade circula de um modo
conforme com um funcionamento ecológico. Eu utilizo aqui a palavra
"ecologia" como uma metáfora, mas é incontestável que a ecologia da
informação depois da revolução da impressão criou as bases para o advento das Luzes, no século 18. Os indivíduos puderam participar da discussão pública e, logo, uma seleção qualitativa das idéias acabou surgindo. O sucesso das idéias individuais começou a depender do seu interesse público. Esta ecologia da informação constituiu a base da democracia representativa, na República francesa e nos Estados Unidos.

Mas, há cinqüenta anos, a televisão tornou-se a fonte dominante de
informação. E no meu país, muito mais do que na França, a sua dominação
agora é tão esmagadora que os jornais vêm perdendo assinantes por causa
dela. Apesar da Internet, que é uma fonte de esperança para reabrir o fórum público para os indivíduos, a televisão vê a sua importância aumentar um pouco mais a cada ano. Em média, cada americano assiste à televisão quatro horas e meia por dia.

Le Monde - Portanto, a crise da democracia proviria da dominação da
televisão?

Al Gore -
A televisão é uma mídia de mão única, diferentemente da
imprensa escrita. Ela é pilotada pelos anunciantes, que a utilizam para
vender produtos e capturar a audiência a mais ampla possível, com o
denominador comum o mais baixo. No meu país, o diálogo político passou a ser conduzido, na sua maior parte, por meio de anúncios televisivos de trinta segundos. A influência perigosa do dinheiro em política deve-se amplamente à necessidade para os homens políticos de reunirem dinheiro em quantidade suficiente para financiar esses anúncios. Nós vamos ter eleições dentro de mais ou menos um mês. Ocorre que 80% dos fundos do orçamento dos candidatos são utilizados para comprar chamadas televisivas de trinta segundos. E essas chamadas não se parecem nem um pouco com os textos de Voltaire ou de Thomas Paine! [risos].

Le Monde - Elas devem seguir o modelo "Compre Coca-Cola!"

Al Gore -
Sim, ou das imagens de Bin Laden, ou de Saddam Hussein, ou coisas do tipo. O espaço necessário em democracia para trocar idéias
complexas e informações abundantes foi reduzido a uma área muito pequena. Às vésperas do dia em que o Senado votou a aprovação da guerra no Iraque, foi realizada uma pesquisa de opinião, que mostrou que 77% dos americanos acreditavam que Saddam Hussein estivesse na origem dos atentados de 11 de setembro. O senador de Virgínia do Oeste, Robert Byrde, tomou a palavra no Senado: "Por que essa sala estará vazia?", indagou; "por que essa casa estará tão silenciosa?" O recinto estava vazio porque os senadores estavam participando de pequenas reuniões destinadas a levantar fundos para comprar anúncios na televisão.

E a Casa estava vazia também porque o que se diz no Senado acabou perdendo em importância e se tornou amplamente secundário: os eleitos acham que o importante é o que é dito nas chamadas de trinta segundos. Então, imagine qual será a sua atitude em relação a questões tão complexas quanto a da crise climática, que é difícil de abordar... É por essa razão que eu decidi ir até pessoas, valendo-me deste filme, de modo a mudar o estado de espírito da massa, de modo que a crise climática se torne um assunto de interesse público e que os cidadãos façam pressão sobre os seus representantes políticos.

Le Monde - Mas qual é a relação entre a Internet e a ecologia? A Internet permitiria um verdadeiro debate entre as pessoas?

Al Gore -
Sim, é claro. Da mesma maneira que a imprensa quebrou o
monopólio da informação que a Igreja católica detinha, e que a televisão tornou-se dominante em meados do século 20, a Internet será finalmente a mídia dominante. Junto aos jovens, ela já é a mídia dominante. Mas os três quartos das pessoas que se conectam à Internet assistem ao mesmo tempo à televisão, que tem uma qualidade que a Internet não tem. A imagem animada ao vivo exerce um efeito quase hipnótico sobre as pessoas. Os especialistas em
neurociência chamam este efeito de "reflexo estabelecido", que acontece
quando um movimento se produz dentro do nosso campo de visão. Os nossos
predecessores na savana africana, há centenas de milhares ou milhões de
anos, estavam sentados, e aqueles que não olhavam para os movimentos das folhas não eram os nossos ancestrais [risos]. A televisão ativa este reflexo que todos nós temos, em média a cada dois segundos. As pessoas que assistem à televisão não participam da democracia se elas ficam na frente dela de quatro a cinco horas por dia.

A primeira versão da Internet foi criada no início dos anos 60, de modo a garantir a perenidade das comunicações em caso de guerra nuclear. Isso funciona conforme o princípio da comutação de pacotes: toda mensagem é quebrada em pequenos pedaços que viajam seguindo caminhos diferentes e se combinam na chegada. Isso faz com que seja impossível utilizar a Internet para uma difusão de massa ao vivo. Pode-se enviar as informações apenas para uma pessoa ou um grupo.

Neste momento, a televisão e a Internet estão começando a se imbricar, a se misturar; é possível fazer o download de um programa e assistir a ele mais tarde - mas isso não impede que a televisão continue sendo a mídia dominante. O resultado disso é que o dinamismo do diálogo intelectual, que é fantástico na Internet, ainda não exerce influência sobre a política, o resultado das eleições ou as votações do Congresso relativas a questões importantes. Isso acabará acontecendo. Mas nós estamos num período de vulnerabilidade, no qual a democracia é frágil. E não só nos Estados Unidos: a Rússia controla completamente a televisão e agora vem intimidando os repórteres da imprensa escrita. Algumas democracias recém-nascidas, tais como a África do Sul, controlam a televisão. Na Itália...

Le Monde - Com Berlusconi...

Al Gore -
Este é o exemplo perfeito da maneira como essas coisas podem acontecer. Além disso, a propriedade dos canais de televisão foi concentrada nas mãos de alguns conglomerados. No meu país, eles têm muitas atividades ligadas direta ou indiretamente ao governo. Tudo isso é complexo, mas o fato é que a televisão exerceu um efeito de supressão sobre o debate democrático. E caberá à Internet trazê-lo de volta para o primeiro plano.

Le Monde - E contribuir para destacar a questão da mudança climática na cena pública...

Al Gore -
Sim, é só lembrar do que aconteceu na época das Luzes: os
indivíduos puderam finalmente utilizar o conhecimento para participar da decisão. Se alguém soubesse ler e escrever e tivesse talento para a
comunicação, somado ao instinto da verdade, e fosse capaz de convencer os outros das suas idéias, isso se tornava então uma fonte de poder, e tornava possível a democracia. Isso conduziu a tomar as decisões coletivas com base na razão. Nós substituímos os soberanos pelo reinado da razão, que era embasado na ecologia da informação à qual eu me referia há pouco.

Hoje, a razão não exerce um papel tão importante. Quando a razão se retira, cria-se um vazio dentro do qual se precipitam o fundamentalismo religioso, a ideologia e a manipulação da opinião pelo medo. Na Alemanha, quando ficou claro que o rádio e a propaganda eram as principais ferramentas de Hitler, um filósofo alemão escreveu que "todas as questões de fato se tornaram questões de poder". Aquela não era a primeira vez: os fatos estabelecidos por Galileu haviam se tornado uma questão de poder. Mas, quando o espaço público foi aberto para os indivíduos de modo que eles possam se expressar claramente, então os fatos adquiriram a sua importância intrínseca. Hoje
eles perderam parte dessa importância. No fim das contas, eles recuperarão o seu lugar, porque existe uma coisa chamada realidade, e as políticas baseadas na ilusão entrarão em colisão com a realidade.

Le Monde - O presidente Bush focalizou a atenção para o terrorismo. Qual será o problema principal: o terrorismo ou a mudança climática?

Al Gore -
É um erro forçar a escolha entre os dois. Isso equivale a
comparar as maçãs com as laranjas: elas são diferentes. Quando estou
apontando para o caráter único do perigo, a urgência da crise climática, eu não quero que pensem que eu estou minorando a importância do terrorismo. Eu não estou contradizendo que nós devemos combater e vencer o terrorismo. Mas, dito isso, é indiscutível que a crise a mais séria que nós já tenhamos enfrentado é a crise climática. Ela ameaça o próprio futuro da civilização humana.

Le Monde - O senhor está dizendo que existem soluções. Será possível
combater a mudança climática sem diminuir o consumo nos países ricos?

Al Gore -
O sucesso desse combate implicará em diminuir os hábitos de desperdício. Contudo, a qualidade de vida poderá continuar a aumentar. Por definição, a poluição é um desperdício. À medida que avançarmos rumo a uma sociedade da informação, cujos valores dominantes serão as idéias, a inovação, a engenhosidade, utilizaremos menos a madeira, o plástico, o aço, a borracha. Isso faz parte do caminho que nós temos de seguir.

Nós precisamos de melhores arquiteturas, de melhores designs, de melhores sistemas, de fontes de energia renovável, e, sobretudo, nós precisamos controlar os resíduos produzidos por tecnologias que datam de uma centena de anos. Por exemplo, o motor de explosão. Se você analisar quanta energia é utilizada em um litro de petróleo para deslocar uma pessoa de carro de um ponto A até um ponto B, descobrirá que não passa de 1%. 90% são desperdiçados, 9% servem para deslocar o próprio veículo. Dá para fazer melhor do que isso. Nós precisamos rever e conceber novamente todos os sistemas que desperdiçam a energia. Isso é possível, está ao nosso alcance. Nós temos de fazê-lo, não há escolha.

Le Monde - A França e a Grã-Bretanha adotaram o objetivo de dividir por quatro as suas emissões de gases de efeito estufa até 2050. Isso seria possível para os Estados Unidos?

Al Gore -
Sim.

Le Monde - Em sua opinião, o protocolo de Kyoto continua sendo uma boa ferramenta?

Al Gore -
Ele continua sendo um bom ponto de partida. Ele precisa ser reforçado consideravelmente, ter as suas exigências aumentadas, as reduções precisam ser mais severas, e o processo de negociação que está em curso visa a reforçá-lo. Os Estados Unidos se juntarão ao processo tão logo Bush terá deixado o lugar, e, quem sabe, até mesmo antes da saída de Bush. Isso porque muitos dos seus simpatizantes mudaram de opinião e o estão pressionando para que ele mesmo mude de opinião. A Califórnia, o maior Estado, acaba de aprovar uma lei que restringe as emissões de CO2. O governador, Schwarzenegger, assistiu ao meu filme em junho. Ele me disse: "Eu vou vender o meu Hummer".

Le Monde - E ele o vendeu mesmo?

Al Gore -
Foi o que ele fez. Trezentas cidades adotaram o objetivo de redução fixado pelo protocolo de Kyoto. Muitos homens de negócios têm esta mesma visão. A mudança está definitivamente em andamento. O processo de Kyoto continua sendo a principal ferramenta por meio da qual o mundo juntará forças para reduzir as emissões de CO2.

Le Monde - Será que a China e a Índia seguirão o movimento?

Al Gore -
Sim. O meio para fazer com que países como esses se juntem ao processo é que a iniciativa seja tomada em primeiro lugar pelos países ricos. Desde a Segunda Guerra mundial, todos os tratados seguiram a mesma arquitetura: os países ricos os aplicam primeiro, e então os países que têm uma renda per capita mais baixam seguem. Não existe outro meio para fazer funcionar um tratado, no mundo dividido no qual vivemos.

Le Monde - Será procedente a informação de que o senhor apresentou o seu filme ao presidente Chirac, há algumas semanas?

Al Gore -
Dei-lhe uma cópia pessoalmente, sim. Eu já lhe tinha
apresentado a minha conferência, quatro anos atrás. Ele foi um dos heróis da questão da mudança climática, geralmente de maneira discreta, nos bastidores, mas toda vez que foi necessário influenciar a negociação sobre o clima na direção certa, o presidente Chirac sempre teve a vontade de ir em frente. Uma grande parte do que ele fez para fazer avançar o mundo na boa direção não é conhecida nem apreciada, porque tudo isso aconteceu nos bastidores.

Le Monde - Ele talvez lhe disse que ele foi candidato várias vezes antes de se tornar presidente.

Al Gore -
Ele não me disse, mas sei disso. Onde você está querendo
chegar com isso? [risos]

Le Monde - O senhor quer ser o primeiro presidente ecologista dos Estados Unidos?

Al Gore -
Eu não planejo voltar a me candidatar. Ainda não excluí
totalmente essa possibilidade, mas eu não estou cogitando tal coisa
atualmente. Em parte porque eu penso que o sistema político se tornou tóxico para o tipo de propostas pelas quais eu luto de modo tão apaixonado, e penso que o meio de realizá-las é mudando a mente das pessoas na base. Eu me concentro neste trabalho que consiste em mudar a opinião das pessoas nos Estados Unidos e em outros lugares, de maneira que os candidatos sejam confrontados a uma demanda muito forte para que eles conduzam as ações necessárias.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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