09/11/2006
Nos Estados Unidos, uma sanção eleitoral para Bush
Corine Lesnes
correspondente em Washington
Os americanos afirmaram um forte desejo por mudanças, por ocasião das eleições gerais de meados de mandato. Eles proporcionaram uma maioria para o Partido democrata na Câmara dos representantes. E infligiram ao presidente George W. Bush a sua primeira derrota em seis anos.
Já durante a parte da tarde, apareceu claramente que os republicanos iriam perder a dominação que eles exercem desde 1994 na Câmara dos representantes. A amplidão da vitória democrata ainda não estava confirmada no meio da noite, mas as estimativas atribuíam à oposição uma dianteira de mais de 25 assentos, enquanto 15 eram suficientes para que eles consigam alcançar a maioria.
No Senado, a situação adquiria uma feitura extraordinária. Os democratas, que controlam atualmente 44 assentos, precisavam de seis vitórias para obter a maioria. Na publicação dos primeiros resultados, os republicanos perderam de cara os três assentos que eles sabiam estarem a perigo (Ohio, Pensilvânia, Rhode Island).
No final da noite, restavam duas batalhas extremamente disputadas, no Missouri e em Montana. Então foi confirmado que a democrata Claire McCaskill havia triunfado no Missouri e que o democrata Jon Tester iria provavelmente fazer o mesmo em Montana.
O pleito ficou então em suspenso, por causa de um caso particular, uma dessas anomalias com as quais os americanos tiveram de se acostumar desde a eleição presidencial de 2000: seria preciso proceder a uma recontagem dos votos, dessa vez na Virgínia.
Depois de uma contagem envolvendo cerca de 2,5 milhões de votos, o candidato à reeleição George Allen e o democrata Jim Webb estão separados por uma diferença de cerca de 2.400 votos apenas, ou seja, uma margem diminuta o suficiente para que o candidato que ficou no segundo lugar - no caso o republicano - tenha o direito de pedir uma verificação. Um batalhão de juristas já estava sendo aguardado, na noite de terça-feira (7/11), na Virgínia.
No final de um pleito que mobilizou mais de 80 milhões de votantes, o controle do Senado está suspenso, portanto, a menos de 3.000 votos. A incerteza poderia se prolongar, caso a recontagem for objeto de contestações na justiça.
Assim, o Senado também pode ser conquistado pelos democratas, e, se isso vier a ser confirmado, a oposição controlaria todo o aparelho legislativo e se veria na situação de encarar o desafio de ter de corresponder às expectativas dos eleitores, principalmente no que diz respeito ao Iraque, e ainda, preservando ao mesmo tempo as suas chances de conquistar a presidência em 2008. Se o Senado permanecesse sob o controle dos republicanos, George Allen, após ter conduzido uma campanha desastrosa, teria preservado a maioria do seu partido...
O presidente Bush não apareceu. Ele tomou conhecimento dos resultados na Casa Branca, e então se retirou para uma noite de sono sem saber quem iria controlar o Senado. "O presidente não é o tipo de pessoa que costuma ficar abalado", disse o seu porta-voz Tony Snow. "Mas as coisas não evoluíram do jeito que ele queria". Conformemente à tradição, o presidente Bush ligou para Nancy Pelosi, a líder dos democratas, na manhã de quarta-feira (8). Ele também agendou uma coletiva de imprensa para a parte da tarde.
Segundo Tony Snow, o presidente Bush estimou que cabe agora aos democratas ajudá-lo na luta contra o terrorismo. Ele também se declarou incentivado pelas declarações que foram feitas depois da vitória pelos democratas. Nenhum deles chegou a propor cortar os créditos de financiamento da guerra no Iraque. "Nós vamos ter de nos superar para trabalharmos juntos", disse o líder dos democratas no Senado, Harry Reid.
Além das declarações consensuais que foram feitas por representantes dos dois lados, os comentaristas não perderam a oportunidade de fazer ironia do espetáculo que dará em janeiro próximo o presidente Bush, ao pronunciar o tradicional discurso sobre o Estado da União numa tribuna acima da qual estará pairando Nancy Pelosi, a primeira mulher a tornar-se "speaker" (presidente) da Câmara dos representantes, conhecida pelas suas posições muito à esquerda e pelas "gentilezas" que ela dirige regularmente ao presidente e à sua administração "incompetente".
Os comentaristas insistiram no caráter multiforme da mensagem de descontentamento que os eleitores transmitiram - desde o Iraque até o furacão Katrina, passando pelos escândalos de corrupção - mas as discussões abordaram principalmente as questões da guerra e das conseqüências de uma mudança de maioria.
"A guerra exerceu o papel de uma metáfora para tudo o que, na opinião do país, não está funcionando em Washington", avaliou o ex-apresentador da NBC, Tom Brokaw.
"Caminho catastrófico"
Durante a campanha, os democratas não assumiram nenhuma posição realmente clara em relação ao Iraque. A ampla vitória que eles conquistaram nesta eleição pode dificilmente ser interpretada como um mandato visando a uma solução precisa. Mas o consenso, daqui para frente, ganhou força o bastante para que os democratas possam mudar de estratégia.
O chefe do Partido democrata, Howard Dean, refutou que os democratas estivessem exigindo uma retirada pura e simples. "Em primeiro lugar, a nossa posição é de que nós não deveríamos estar no Iraque. Agora, nós precisamos encontrar um meio para sair de lá", disse. "A missão não é de manter o rumo. A missão é antes de encontrar formas de sair de uma péssima situação".
Entre as suas propostas, os democratas da Câmara propuseram uma redistribuição das tropas e uma redução gradativa da presença das forças americanas. Para isso, eles pretendem obter o apoio de republicanos moderados. "Nós não podemos prosseguir neste caminho catastrófico", declarou Nancy Pelosi.
Tradução: Jean-Yves de Neufville
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