12/12/2006
A América Latina dá uma guinada completa, ou quase, para a esquerda
Paulo A. Paranaguá
Dentro do contexto de um período eleitoral muito intenso (17 pleitos desde dezembro de 2005, se incluirmos o referendo sobre a ampliação do Canal de Panamá), a América Latina deu uma guinada praticamente completa à esquerda. Uma guinada que só veio a ser freada pelo fracasso, por muito pouco, do candidato socialista no México.
Fora algumas raras exceções, os "latinos" compareceram maciçamente para votar. Por todo lugar, os pleitos foram vivenciados como verdadeiras disputas, embora não faltasse quem dissesse que os eleitores estavam decepcionados com a democracia representativa.
Trata-se de um forte avanço, não de um maremoto. O novo mapa político confirma a opção global do eleitorado pela esquerda ou o centro-esquerda. No entanto, nem por isso a direita saiu totalmente laminada. Contrariando todas as previsões, no México, o maior país do subcontinente depois do Brasil, o candidato da esquerda à presidência, Andrés Manuel Lopez Obrador, perdeu por uma diferença ínfima.
Contudo, os mexicanos fizeram do seu Partido da Revolução Democrática (PRD) a segunda força no Congresso depois do Partido de Ação Nacional (PAN, de direita), relegando para o último lugar o Partido Revolucionário Institucional (PRI, de centro), que esteve no poder durante 71 anos (1929-2000).
Além de manter a dianteira no México, a direita permaneceu no poder no Salvador e na Colômbia. Em contrapartida, a alternância ocorreu na Bolívia, na Costa Rica, no Haiti, no Peru, na Nicarágua e em Equador. Além disso, a esquerda foi reconduzida com ampla folga no Chile, no Brasil e na Venezuela. O presidente panamenho, Martin Torrijos, por sua vez, venceu o referendo que ele organizou sobre o canal.
A guinada à esquerda remonta a quatro anos atrás, ou até mesmo oito, conforme for escolhido como ponto de partida o advento emblemático do antigo sindicalista metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva (2002) no Brasil ou aquele do irrequieto tenente-coronel Hugo Chávez (1998) na Venezuela.
Esta tendência deveria prosseguir em 2007. O presidente argentino, Nestor Kirchner, um antigo peronista de esquerda, parece reunir as condições para garantir a sua reeleição - ou a sua sucessão no caso em que ele cederia o lugar para a sua mulher, a senadora Cristina Kirchner.
As razões que explicam o sucesso nem sempre são as mesmas, quando estamos diante do caso de uma reeleição e naquele de uma primeira vitória. Os programas sociais que foram implementados pela esquerda motivaram os eleitores chilenos, os brasileiros e os venezuelanos. Após ter passado 16 anos com um governo de centro-esquerda, o Chile detém o recorde do subcontinente em matéria de redução da pobreza. No Brasil, depois de quatro anos, o programa de ajuda "Bolsa Família", que beneficiou a 11,5 milhões de famílias, permitiu afastar o fantasma da fome.
No poder já faz oito anos, Hugo Chávez não conseguiu nem reduzir a pobreza, nem eliminar a desnutrição, enquanto o preço do petróleo passou de US$ 10 o barril para mais de US$ 60. Contudo, as 18 "missões" (programas sociais) que foram implantadas pelo seu governo, apesar das fraudes, da desordem administrativa, da corrupção e do clientelismo, permitiram redistribuir uma parte da riqueza decorrente do petróleo.
Na Bolívia e no Equador, a esquerda conseguiu encarnar uma alternativa em função da perda de dinamismo dos partidos tradicionais. Ao passo que não se pode dizer o mesmo a respeito da Costa Rica, do Peru e da Nicarágua, onde se assistiu ao retorno de três "macacos velhos" da esquerda nas suas múltiplas facetas: os antigos presidentes Oscar Arias, Alan Garcia e Daniel Ortega, respectivamente.
O traço comum que caracteriza esses diferentes pleitos é a participação de novas camadas sociais e étnicas, que se reconhecem em figuras que não se enquadram na tradição, tais como a presidente chilena Michelle Bachelet ou o seu homólogo boliviano, Evo Morales.
Ao contrário do que anunciavam as previsões de um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) sobre a democracia na América Latina, que estimava, em 2004, que os latino-americanos estavam se preparando para novas aventuras autoritárias, nesses países a inclusão da cidadania precedeu a inclusão social. Conforme mostra a pesquisa realizada pelo instituto Latinobarometro 2006, a cédula na urna apareceu como uma ferramenta adequada para melhorar as condições da maior parte da população ou de minorias que por muito tempo haviam sido deixadas de lado.
Será possível afirmar que surgiram duas esquerdas, ou mais ainda? O antigo guerrilheiro comunista Teodoro Petkoff, fundador do Movimento para o Socialismo (MAS, social-democrata), depois ministro do planejamento da Venezuela e, por fim, diretor do diário de oposição "Tal Cual", foi um dos primeiros a descrever as "duas esquerdas" (título de um livro publicado em Caracas em 2005). Ele distingue "uma esquerda arcaica, conservadora, falsamente radical, autoritária e messiânica", de "uma esquerda moderna", capaz de combinar "o reformismo avançado, a sensibilidade social, o desenvolvimento econômico eqüitativo e a ampliação da democracia".
Tanto uma como a outra dessas duas esquerdas conheceram sucessos eleitorais em 2006. Além disso, no quadro dos sistemas presidenciais, as diferenças de formação e de estilo entre antigos sindicalistas tais como Lula ou Morales e um militar como Chávez não são desprezíveis.
Dito isso, no interior de uma mesma categoria, diferenças notórias também podem existir: o meio dos operários e sindicalistas metalúrgicos de São Paulo, de onde é oriundo o presidente Lula, não remete às mesmas tradições políticas que os cultivadores da folha de coca, dos quais Evo Morales continua sendo o dirigente. Quanto à exceção argentina, já faz sessenta anos que a cena política é dominada pelo peronismo, uma forma de nacionalismo que confunde as pistas entre esquerda e direita.
Com exceção do que ocorreu no México e na Venezuela, a esquerda pouco apostou na mobilização dos seus quadros. Em muitos casos, os seus sucessos eleitorais constituem um derivativo para movimentos sociais que tendem a reduzir a marcha, tal como ocorre na Bolívia ou no Equador. Por fim, o grau variável de complexidade das sociedades determina também de maneira diferente o comportamento dos homens políticos.
As singularidades dos países, dos partidos e dos dirigentes conduzem, portanto, certos analistas a falar de "várias esquerdas", em vez de apenas duas. Na realidade, a clivagem não separa somente os países em dois campos, mas ela se dá também no âmbito da esquerda de cada país, isso quando ela não se produz no interior de uma mesma organização, conforme é o caso na Frente Farabundo Marti de Liberação Nacional, que cristaliza a esquerda salvadorenha.
A principal diferença entre as esquerdas reside, no fim das contas, na maneira de governar: por meio de alianças, e até mesmo de uma coalizão, ou por meio do exercício solitário do poder. Os presidentes que dispõem de uma maioria (Venezuela, Bolívia, Argentina) mostram-se pouco inclinados a buscar o consenso, enquanto os outros (Chile, Brasil) se vêem de fato obrigados a negociar suas reformas.
No Brasil, antes da adoção do programa de grande alcance "Bolsa Família", o debate opôs, à frente do Estado, os defensores de uma concepção republicana, universal e institucional da distribuição das ajudas públicas, aos partidários de uma orientação militante, que teria passado pelos movimentos sociais... e desembocado assim numa prática característica do clientelismo. O populismo é uma tentação recorrente de toda a esquerda "latina".
As opiniões públicas dos países da AL são antes centristas
Será que os latino-americanos se tornaram de esquerda? O fato de os eleitores votarem à esquerda não significa necessariamente que as mentalidades tradicionais desapareceram nem que a América Latina profunda sonha com a revolução: segundo informa a pesquisa realizada pelo instituto Latinobarometro para 2006, que foi divulgada em Santiago do Chile no sábado, 9 de dezembro, a opinião pública seria antes centrista.
Em nenhum país da região, a proporção de pessoas que se situam à esquerda supera 34%, uma porcentagem que corresponde ao Uruguai. Entretanto, os partidos e as lideranças de esquerda mostraram que eles eram capazes de atrair e de representar o eleitorado centrista melhor do que a direita.
"O presidente brasileiro Lula e a sua homóloga chilena, Michelle Bachelet, governam para uma maioria que não é apenas de esquerda", sublinha Marta Lagos, a diretora do instituto Latinobarometro. "Isso explica também a política pragmática do presidente boliviano Evo Morales, que precisa interpretar as diferentes expectativas da ampla maioria que o elegeu".
Atualmente, as pesquisas de opinião perderam parte do seu prestígio no subcontinente, uma vez que várias previsões, recentemente, se revelaram equivocadas, no México, no Brasil, no Peru e no Equador. Por sua vez, o instituto Latinobarometro não faz prognósticos, e sim busca entender, já faz onze anos, as evoluções em profundidade, por meio de pesquisas de opinião nos países da região - com a exceção de Cuba que, daqui para frente passou a ser o último país que não dispõe de instituições democráticas.
Para 57% dos "latinos", o melhor meio para impulsionar uma mudança é a participação eleitoral, contra uma minoria de 14% dos cidadãos que apostam nos movimentos sociais (e 19% de fatalistas que nada esperam das urnas nem das ruas).
Os maiores partidários da mudança pelas eleições são os venezuelanos e os uruguaios, enquanto os mais inclinados a protestar seriam os guatemaltecos, seguidos pelos brasileiros e os peruanos, os quais, ainda assim, não foram vistos manifestando tanto assim nas ruas, nos últimos tempos. Em todos os casos, o apoio à democracia não pára de aumentar.
Ao abordar os aspectos mais detalhados do seu perfil do subcontinente, a pesquisa aponta que os chefes de Estado os mais prestigiados são os presidentes Lula e Michelle Bachelet. Por sua vez, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, é alvo de um número elevado de opiniões negativas, numa proporção equivalente daquele que ele chama de "o diabo", George W. Bush. No que vem a ser um magro consolo, ambos são superados neste plano por Fidel Castro.
Tradução: Jean-Yves de Neufville
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