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26/12/2006
As lamas devoradoras de Java

Por Sylvie Kaufmann
Le Monde


Falou-se de um vulcão, mas é um lago, um imenso lago de lama que se estende sob seus pés. Uma lama como você nunca viu. Negrusca, compacta, viscosa, ardente, nauseabunda. Calma em certos lugares, incomodada por irrisórias tentativas de derivação em outros, rachada pelo sol quando a deixaram se espalhar e secar em paz. Voraz, ela já submergiu cerca de cinco aldeias e uma vintena de usinas em seis meses, mas não está saciada.

Aqui, um minarete emerge, testemunha de uma verdadeira vida há alguns meses. Lá onde a lama é menos profunda, o primeiro andar daquilo que foi uma casa burguesa continua a desafiar a invasão. Mais adiante, de uma fábrica de relógios, célebre na Indonésia por ter sido palco do assassinato, em 1993, da jovem operária Marsinah, culpada de ter organizado uma greve, só sobraram quatro tetos de chapas de ferro, que parecem estar flutuando, sempre perfeitamente alinhados.

Em breve, eles também vão desaparecer, inexoravelmente. Acima de um ponto identificado como a fonte da lama se eleva uma alta coluna de fumaça branca: "É vapor de água", diz alguém, para tranqüilizar. "É que a água, lá embaixo, está a mais de 100 ºC. Uma enorme chaleira!"

"Lumpur" - a lama, em língua bahasa indonésia - é o nome do novo flagelo que se abateu sobre Java. Em 29 de maio, quando a companhia petroleira local Lapindo estava efetuando uma perfuração exploratória numa jazida de gás subterrâneo no leste da ilha, na conurbação de Surabaya, a segunda maior cidade e pulmão econômico do país, a lama jorrou muito perto do local da perfuração, no município de Sidoarjo. Os geólogos identificaram um "vulcão de lama".

Todas as tentativas para deter o derramamento até agora fracassaram e, após ter se iniciado com uma vazão de 5.000 metros cúbicos por dia, o volume de lama cuspida pelo solo não parou de aumentar, dia após dia. Segundo o professor Indrasurya Mochtar, chefe do departamento de engenharia civil do Instituto tecnológico de Surabaya, que vem lidando com a erupção de lama desde o primeiro dia, ele alcançou, no final de novembro, 200.000 metros cúblicos por dia.

"Um tamanho aumento, em evolução constante, torna toda previsão muito difícil", constata o engenheiro, desanimado. "Pela primeira vez desde o começo, estou verdadeiramente pessimista". Em 4 de dezembro, o ministro do meio-ambiente, Rachmat Witoelar, justificou o pessimismo do professor: "Isso poderia perdurar por anos", reconheceu. "Nós não temos condições para deter o fluxo".

Sabendo-se que um caminhão ordinário de transporte de carga contém 10 metros cúbicos, seriam necessários, portanto, 20.000 caminhões para transportar o volume de lama produzido num único dia em Sidoarjo.

A lama, salgada, corrosiva, contém sulfureto de hidrogênio e hidrocarbonetos, mas ninguém está muito certo do seu nível de toxicidade. Quinze mil pessoas já foram removidas, após terem perdido tudo que tinham.

Mais de 430 hectares foram invadidos pela lama, em volta dos quais diques foram erigidos na tentativa de contê-la, assim como uma barragem. A auto-estrada que vai de Surabaya a Gempol, um eixo rodoviário vital para o encaminhamento das matérias-primas, do porto até as indústrias da região num sentido, e dos produtos exportáveis no outro, teve de ser fechada definitivamente, quando a lama dela se apoderou, em 25 de novembro.

Todos os ingredientes de uma catástrofe estão reunidos. Uma catástrofe ecológica, humana, econômica. Não se pode dizer que as catástrofes sejam algo novo para os indonésios: em dois anos, eles acumularam tsunami, terremotos, erupções vulcânicas e atentados terroristas. Neste país de 220 milhões de habitantes, a vida continua, só que de modo diferente. "Um terremoto, um maremoto, são fenômenos que têm um começo e um fim", comenta o professor Indrasurya. "Nós não estamos acostumados com desastres sem fim".

Na quarta-feira, 22 de novembro, o desastre tornou-se dramático. "Por volta das 16h, eu reparei que havia fissuras no dique", conta Sukamto, o policial encarregado da vigilância da auto-estrada. "Então, senti que a terra estava se mexendo. Num perímetro de 20 metros, o nível da lama subia e descia. Às 19h, a lama transbordou o dique. Às 19h20, a fissura havia se transformado num fosso, dentro do qual um caminhão caiu. No espaço de dez minutos, um jato de lama jorrou, a auto-estrada rachou-se e uma imensa chama subiu no céu".

Enterrado profundamente sob o local, um gasoduto havia se rompido sob a pressão do solo, aluído sob o peso da lama acima dele. Doze corpos foram encontrados, e há dois policiais entre os desaparecidos. "Quase todos foram projetados para cima pelo impacto da explosão, e então queimados ao recaírem na lama". Os feridos, dos quais um acaba de morrer, foram atrozmente queimados pela lama.

Sukamto tem a calma das pessoas que já viram coisas demais acontecerem; ele segue vigiando este local infernal aonde os curiosos vêm em família no domingo, mas ele se diz "muito decepcionado com a companhia nacional Pertarmina: duas semanas antes da explosão, foi feito um inquérito e eles não quiseram reduzir a pressão do gás". O que Sukamto ainda não sabe é que, menos de uma semana depois da explosão, o gasoduto estará consertado: hoje, o gás circula novamente sob a barragem de lama.

Portanto, o mesmo acidente poderia voltar a ocorrer? "É claro", admite um perito local. "Mas qual é a alternativa? Duzentos e cinqüenta fábricas dependem deste gasoduto! A ferrovia ao longo dos diques, os vagões-cisternas repletos de petróleo, as torres de energia no meio da lama, será mesmo sensato manter tudo isso funcionando? É claro que não!" O gasoduto também deverá ser desviado. Quando? Ninguém sabe.

Várias das 500 famílias suplementares que foram evacuadas em conseqüência da explosão encontraram refúgio no mercado de Porong, onde as autoridades instalaram um campo provisório. Deitado no chão com a sua jovem mulher e as suas duas filhas pequenas, Agung Wahgu Saputra, 28 anos, um empregado de uma fábrica de cigarros não longe dali, explica que ele pretendia partir, há muito, mas que ele não tinha dinheiro para alugar uma camionete e fazer a mudança. Então a lama chegou a Kedungbendo, a sua aldeia, e ela começou a subir. Foi preciso partir. Foi o exército que os transportou para cá? Agung sorri: "Os militares foram embora assim que a lama chegou..."

Os javaneses são filósofos - ou fatalistas. Trajando um sarongue de seda violeta amarrado na cintura e uma camiseta sem mangas, branco imaculado, Sunoko, 55 anos, parece estar tranqüilo. Ele foi eleito contra a sua vontade chefe da aldeia de Besuki, que fica à beira dos diques, ou do que sobrou deles: o dique já cedeu duas vezes. A metade da aldeia foi embora em definitivo, explica ele, mostrando as casas vazias beiradas por árvores tão ressecadas que elas parecem ter assoladas por miríades de gafanhotos. A sua mulher e ele passaram dez dias em abrigos, e então retornaram. Agora, eles esperam receber uma indenização.

A aproximação da temporada das chuvas os deixa preocupados. "Este é o nosso destino", sorri Sunoko. "É claro, estamos revoltados, mas, como ninguém nos ouve, o que podemos fazer?"

O que fazer? Agachado debaixo de uma árvore perto dos diques que retêm a lama, Darto, 50, perdeu tudo o que tinha. Só lhe restam os olhos para chorar, o que ele faz, enxugando suas lágrimas com o lenço com o qual ele cobre o rosto, assim como muitos fazem aqui, para amenizar o cheiro de enxofre que arde o nariz e os olhos. Ao lado dele, Darsono, 65, se diz furioso com o presidente Yudhoyono, que "fala, mas não faz nada. Ele diz que logo tudo isso vai acabar, mas quando, em qual mês, qual ano?"

Tradução: Tradução: Jean-Yves de Neufville

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