29/09/2007
Num mercado do disco acidentado, a edição musical está com boa saúde
Véronique Mortaigne
Ao atirarem para todos os lados para impedir a ampliação da hemorragia das vendas de discos, e ao tentarem inventar novos modelos na Internet, os industriais da música, ao menos, estão fazendo a felicidade de um setor deste ramo, o da edição musical, uma profissão pouco conhecida, porém chamada a exercer o papel de pedra angular nos dez próximos anos. O editor é aquele que detém o direito de explorar comercialmente uma obra musical (e não a própria carreira dos artistas), qualquer que seja o suporte deste fonograma, inclusive o disco.
A edição musical apresenta um nível de faturamento estável há vários anos (161,6 milhões de euros - R$ 420,62 milhões - em 2005 na França), ao passo que aquele do disco desmoronou de 50% em quatro anos. Os editores apresentam um bom desempenho, uma vez que eles compensam os lucros que eles deixam de faturar com as vendas de álbuns, recebendo direitos pagos pelos outros canais de difusão que, por sua vez, proliferam: canais de televisão, Internet, eletrônica, chaves USB, concertos, rádios, streaming e downloads, ringtones para celulares, músicas de filmes, spots publicitários, cartões com chip de memória, secretárias eletrônicas, etc.
Com isso, a onipresença da música alimenta os interesses proteiformes da edição. Uma prova disso são as intenções atribuídas ao fundo de investimento Terra Firma, que acaba de comprar a "major" do disco britânica EMI. Em outubro, o Terra Firma deverá confirmar ou não a sua intenção de se livrar da atividade relativa aos discos da EMI, para ficar apenas com a edição ou o publishing. O cálculo é simples, resume Fabrice Nataf, o CEO da filial francesa da EMI Publishing (1,5 milhão de títulos no seu catálogo, faturamento de 40 milhões de euros - R$ 104 milhões - na França). "A EMI Publishing representa 25% do faturamento do grupo EMI, mas 75% dos seus lucros".
A profissão de editor de música foi criada no século 19, com o advento das leis sobre a propriedade intelectual e das sociedades de gestão coletiva, tais como a Sacem, que arrecadam as posses dos autores e dos compositores. Uma vez escrita, uma obra pode ser entregue para um editor, que fará com que ela tenha vida útil, mediante o pagamento da metade ou de um terço dos direitos arrecadados pela Sacem. Na França, o primeiro exemplo desta prática se deu quando o compositor Hector Berlioz (1803-1869) cedeu os direitos do seu "Hino à França" para o editor Maurice Schlesinger, em agosto de 1844.
Inicialmente, o editor foi encarregado de editar partituras impressas, um setor que até hoje continua sendo importante para a música clássica, e que permanece ativo para as coletâneas de músicas, os Song Books, muito procurados. Mais tarde, o editor tornou-se um intermediário. Este foi o caso de Raoul Breton e sua mulher (a quem o cantor Charles Trenet deu o apelido de "A Marquesa"), que participaram da construção do patrimônio da "chanson" francesa, combinando as criações dos autores e compositores com as dos intérpretes.
Comprada em 1992 por Charles Aznavour, a editora Breton é detentora dos direitos sobre músicas de Edith Piaf, Trenet, Aznavour, Félix Leclerc, assim como daquelas da quebequense Linda Lemay ou do "slameur" (combinação de poeta, contador, rapper e repentista) Grand Corps Malade, cujos álbuns são produzidos respectivamente pela Warner e a Universal. Com isso, os interesses das companhias do disco e da edição nem sempre coincidem. Por exemplo, os Beatles, produzidos pela EMI, têm as suas obras editadas pela Sony ATV Publishing - sendo a ATV uma estrutura que pertence a Michael Jackson, o qual detém os direitos sobre as músicas dos Beatles.
O editor exerce uma profissão muito discreta, diz Nicolas Galibert, que dirige a filial francesa da Sony ATV Publishing (300.000 referências, faturamento de 16 milhões de euros - R$ 41,65 milhões - por ano). A sua tarefa é de "colocar" ou "inserir" músicas onde quer que elas sejam remuneradas. "O destino de uma obra não é de permanecer dentro de uma gaveta", dizia o letrista Etienne Roda-Gil, que faleceu em 2004 e cujas letras são administradas pela Sony ATV Publishing.
Fabrice Nataf apresenta como exemplo o sucesso do rapper francês Faf Larage, que foi dispensado pela sua gravadora, mas cujo título, "J'ai pas le temps" ("Estou Sem Tempo"), que é editado pela EMI Publishing, serviu de música-tema na França para a série americana "Prison Break". "Aquela foi uma idéia de editor", diz Nataf.
Marie-Anne Dudouit, a diretora da editora Blonde Music, dedica-se a combinar os interesses da cantora Camille com aqueles das artes plásticas (a artista Sophie Calle). Desde a sua criação, há treze anos, esta sociedade independente participa da renovação de uma profissão que, no tempo em que o disco era rei, chegou a ser considerada como uma mera caixa-registradora. Para reverter esta tendência, muitos autores compositores e intérpretes franceses (Jean-Jacques Goldman, Yves Simon, Francis Cabrel ou ainda Jean-Louis Murat) haviam fundado as suas próprias sociedades de edição.
Marie-Anne Dudouit se diz satisfeitíssima com a profusão dos suportes, "embora seja mais fácil 'colocar' um título de Amel Bent (de "La Nouvelle Star") para um ringtone de celular do que uma música do jazzman Eric Truffaz". Além disso, o mundo da edição não escapa da lógica das concentrações. Em 2006, o Universal Music Group comprou por 1,63 bilhão de euros (R$ 4,24 bilhões) a BMG Publishing, tornando-se com isso o número um mundial da edição (com 26% do mercado, na frente da EMI Publishing (20%) e da Warner Chappell (16%).
Na primavera passada, a Comissão Européia exigiu que a Universal abrisse mão de vários catálogos americanos. Isso porque, "num certo número de países", escreveu a entidade, "a Universal chegaria até mesmo a ponto de controlar mais da metade dos sucessos das paradas, e se tornaria desta forma detentora de uma espécie de monopólio para todos os serviços de música on-line e de celulares".
Tradução: Jean-Yves de Neufville
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