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18/11/2007
Ossétia do Sul: um quebra-cabeça cujas peças continuam espalhadas

Piotr Smolar
Enviado especial a Gori (Ossétia do Sul)


É agradável estar no jardim deste homem. Apesar dos seus 80 anos, Roman Tskhabrebov poda com destreza as videiras que trepam por cima do seu pátio. O sol é inesperado, generoso. O cheiro das uvas espalha-se pelo ar; de vez em quando, nos dias ruins, quando mais vale ficar escondido no fundo da toca, ele é substituído por aquele da pólvora.

A residência de Roman Tskhabrebov se parece com aquelas dos seus vizinhos: também está decorada pelos impactos de balas. Situa-se na artéria que simboliza todos os males da Ossétia do Sul, a província separatista da Geórgia onde a Rússia vem interferindo com todo o seu peso, assim como na Abkhazia. A estrada faz a ligação entre a aldeia de Gori, a nova sede da administração georgiana, e Tskhinvali, a capital da Ossétia do Sul, dirigida pelo "presidente" Edouard Kokoity. "As pessoas enlouqueceram!", declara o idoso. "Até pouco tempo atrás, vivíamos todos juntos, compartilhávamos as alegrias e as tristezas. Agora, eles não se gostam mais, não se falam mais, e ainda atiram uns nos outros!".

Ao sair desta casa, é preciso escolher: a 100 metros à esquerda, encontra-se o posto de controle da força de paz russa; a 100 metros à direita, fica aquele da força de paz georgiana. É um cenário de fronteira, só que não existe fronteira alguma. Implantada em junho de 1992, após um ano de guerra entre georgianos e ossetianos, a força "comum" de manutenção da paz deveria supostamente zelar pela desmilitarização da área de conflito. Mas não é o caso. A tensão continua tão viva quanto antes. Os incidentes vão se multiplicando na província que se tornou um objetivo acirradamente disputado entre a Geórgia, que defende a sua integridade territorial, e a Rússia, que vê com bons olhos a possibilidade de desestabilizar o seu antigo vassalo emancipado.

Cerca de 90% dos ossetianos são detentores de um passaporte russo. A quase totalidade do pequeno orçamento das autoridades separatistas provém de Moscou. A Gazprom - o gigante petroleiro russo - está construindo um gasoduto que corta para dentro da montanha, de modo que Tskhinvali não dependa mais da Geórgia. A Ossétia do Sul é um minúsculo território muito montanhoso (com 3.900 km2 e cerca de 70.000 habitantes), onde se sucedem as aldeias sob controle georgiano ou ossetiano, o que, em certos casos, obriga os viajantes a darem voltas inacreditáveis. Tbilisi garante controlar 50% do território da província e 40% da sua população.

Para compreender este imbróglio, basta se debruçar sobre o capô do carro de Mamuka Karachvili, o comandante da força de paz georgiana. O seu dedo indicador desenha na camada de poeira os grandes eixos de circulação da província. Não há uma linha reta sequer; por conta disso, é preferível não estar com pressa, principalmente no inverno e nos dias em que ocorrem enfrentamentos. "Nós temos que lidar com duas ou três provocações em média por mês, por parte de grupos armados", explica.

Na véspera ainda, trocas de tiros haviam sido registradas num subúrbio de Tskhinvali. As autoridades georgianas foram em busca de informações sobre a origem dos incidentes. Em vão.

Em Gori, o chefe da administração georgiana, Dmitri Sanakoiev, um antigo ministro de Kokoity que se bandeou para o lado de Tbilisi depois de 2004, lamenta que a desmilitarização conduzida pela força de paz tivesse sido interrompida, depois da ascensão ao poder de Mikhail Saakachvili. "A sua vitória não agradou aos russos", diz. "Por conta disso, em Tskhinvali e nas zonas que eles controlam, 5.000 homens foram armados. Em muitos casos, eles são bem pagos, entre US$ 200 (cerca de R$ 350) e US$ 400 (R$ 700) por mês (ou seja, dez vezes mais que a renda média da população). As autoridades de Tskhinvali se referem a eles como funcionários dos seus supostos ministérios do interior e da defesa. Para nós, eles não passam de bandos armados ilegais".

Conscientes de que a força não é suficiente para fazer frente às aspirações de parte da população à independência e à fusão com a Ossétia do Norte, que é membro da Federação da Rússia, as autoridades de Tbilisi esforçam-se em conquistar o maior número possível de pessoas e atrair para si os seus favores, construindo, investindo e modernizando. Nos arredores de Gori, na aldeia de Tamaracheni, aonde se chega depois de passar por um desvio de vários quilômetros numa estrada lamacenta de montanha, o visitante descobre uma grande sala de cinema, inesperada e ultramoderna, na qual se apresentou, no final de outubro, o lendário grupo Boney M.

Mais adiante, o visitante depara-se com uma recém-pintada loja de eletrodomésticos, um pequeno terreno de futebol com grama sintética, o canteiro de obras de um primeiro hotel, um centro administrativo onde reinam policiais, sentados a mesas sobre as quais se destacam computadores novinhos em folha; mais adiante, chega-se até mesmo a um parque de diversões.

"Estamos no processo de reconstruir tudo o que é necessário, desde a água encanada até os hospitais, começando pelas estradas", explica Dmitri Sanakoiev. Dois edifícios que comportam 120 alojamentos cada um, erguem-se na entrada da aldeia. Eles acabam de ser construídos para acolherem refugiados de Tskhinvali. Por enquanto, apenas trinta famílias neles se instalaram. "Os ossetianos vivenciam muito mal este conflito", assegura Chala Tramakidze, um chefe adjunto da polícia georgiana na província. "Mas eles não podem dizer isso abertamente, sob pena de serem acusados de traição. Em Tskhinvali, contudo, nada está funcionando. O que foi que Edouard Kokoity chegou a fazer de fato em benefício da população?"

Em 12 de novembro de 2006, vários pleitos foram organizados paralelamente na província: de um lado, um referendo sobre a independência e uma eleição presidencial, por iniciativa dos separatistas de Tskhinvali; de outro, uma votação relativa à autonomia da Ossétia do Sul, organizada por Tbilisi. Nenhuma dessas eleições foi reconhecida no exterior.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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