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04/01/2008
Monges franciscanos empenham-se em fornecer ajuda aos imigrantes ilegais de Toulouse

Stéphane Thépot
Correspondente em Toulouse


É uma cena curiosa, na Praça do Capitole em Toulouse. Alheias à animação dos chalés de madeira da aldeia de Natal que tomaram conta desta que é a praça central da cidade, cerca de vinte pessoas estão reunidas, nesta quarta-feira, 25 de dezembro. Elas formaram um círculo em outro ponto da praça e assim permaneceram durante uma hora, das 18h30 às 19h30. Sem proferirem uma palavra sequer. Tudo isso, "para denunciar as condições de isolamento dentro de centros de retenção das pessoas estrangeiras em situação irregular", conforme anunciam os dizeres redigidos em dois painéis cobertos de fotos. Este panfleto, de autoria dos Irmãos Franciscanos de Toulouse, termina com um convite dirigido a "todas as pessoas de boa-vontade para se juntarem a nós, mantendo-se em silêncio". As três últimas palavras foram sublinhadas.

"A nossa platéia era um pouco reduzida, até demais", reconhece o irmão Alain Richard, 83 anos, o decano dos franciscanos de Toulouse. Entretanto, ele não parece estar desanimado. "Foi comovente. Nós vimos pessoas pararem, se aproximarem, entregarem os seus pacotes e perguntarem se elas poderiam fazer algo para ajudar", conta o promotor desses "círculos do silêncio", que usa barba e traja roupas civis.

Os protestos que agitaram os centros de retenção da região parisiense parecem estar perdendo força. Mas a tensão continua palpável em suas dependências.

Há dez dias, várias dezenas de estrangeiros em situação irregular começaram uma greve da fome, trazendo de volta aos holofotes a situação dessas centenas de homens e mulheres que aguardam para serem reconduzidos até a fronteira.
AMBIENTE 'CARCERÁRIO'
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Desde o mês de outubro, os 14 monges franciscanos, que não vivem na clausura, mas sim compartilham um edifício moderno no bairro de Saint-Cyprien, tomaram a decisão de se reunir mensalmente na Praça do Capitole, sempre na última terça-feira de cada mês, para protestar da sua maneira contra as condições de detenção no centro de retenção de Cornebarrieu.

"Muitas pessoas ignoram até mesmo a existência deste centro", constata o irmão Alain, que aposta nas fotos expostas nos painéis para fazer com que se tome consciência do universo carcerário deste prédio novo, que foi inaugurado em julho de 2006 nos arredores das pistas do aeroporto de Toulouse-Blagnac. "Quando as pessoas vêem essas fotos, com freqüência elas perguntam em qual país elas foram feitas. Nós lhes respondemos que as cenas acontecem a uma dezena de quilômetros dali apenas".

O velho monge resolveu retornar ao centro de retenção e fazer, ele mesmo, fotos adicionais do local, em 30 de janeiro passado, para publicá-las algumas horas mais tarde no site da comunidade na Internet(www.franciscainstoulouse.fr). Graças ao efeito "milagroso" das novas tecnologias, o círculo do silêncio vai se ampliando, enquanto a ação mensal dos irmãos de Toulouse, que contam seis jovens estudantes nas suas fileiras, tornou-se permanente.

Uma vez em que não pôde visitar pessoalmente o interior do centro, o decano dos franciscanos foi obrigado a se contentar com fotos feitas do lado de fora, na área de extensão da zona industrial de Colomiers. Desta experiência, irmão Alain conservou um sentimento de isolamento e de exclusão, e até hoje não se conforma com o que viu. "É preciso ter assassinado o pai e a mãe para ser enviado para um lugar como este, longe de tudo, sem outra possibilidade de acesso a não ser de carro", diz o monge octogenário, comovido. O afastamento do centro vem sendo denunciado por organizações humanitárias tais como a Cimade (Comitê de coordenação dos movimentos de ajuda às pessoas evacuadas), e também pelos sindicatos de magistrados e de advogados. Estes últimos entraram na justiça com um recurso contra a construção de uma sala de audiência destinada a julgar os estrangeiros no próprio recinto do centro de retenção, e não num tribunal.

A algumas centenas de metros apenas do centro, foram construídas as instalações do centro de entregas da Airbus, o novo aeroporto privado da montadora européia, para atender os ricos clientes que comparecem para receber a entrega dos seus aviões novinhos em folha. Dois universos opostos ao extremo e separados por cercas de arame-farpado.

Lionel Clauss, um militante e membro permanente da Cimade, é uma das raras pessoas que não pertencem ao pessoal do serviço interno autorizadas a entrar no centro. "Lá dentro, os imigrantes detidos têm ainda mais o sentimento de terem sido esquecidos, sobretudo neste período de festas. Eles dispõem apenas da televisão para acompanhar o que está acontecendo do lado de fora, e têm dificuldades para aceitar as imagens de festejos". Este jovem rapaz se diz muito satisfeito com a iniciativa dos monges franciscanos de Toulouse, e ele compara os "círculos do silêncio" com as cirandas das "Loucas de Maio" em Buenos Aires, as mães de desaparecidos que manifestavam em silêncio contra a ditadura na Argentina.

Sem dúvida, isso não é uma coincidência. O irmão Alain Richard explica ter operado por muito tempo na América do Sul a partir dos Estados Unidos, onde ele viveu durante 26 anos antes de retornar a Toulouse para se estabelecer em definitivo. Simpatizante do MIR (Movimento Internacional da Reconciliação), movimento evangélico que foi fundado na Faculdade de teologia protestante de Paris, ele não esconde a sua admiração por Gandhi e pelas técnicas de não-violência, das quais ele seguiu os preceitos para colocar em prática seu círculo do silêncio. O monge acha melhor se referir a ele como sendo uma "ação", e não uma "manifestação". "O fato de incentivar, ou melhor dizendo, despertar a humanidade que todos temos dentro de nós, por meio da oração ou do silêncio, isso já constitui uma ação", insiste.

Para aqueles que gostariam de se engajar mais fundo nesta luta, o site dos franciscanos põe à disposição dos usuários, links de associações tais como a Cimade ou a Rede de Educação Sem Fronteiras (RESF), que foi fundada com o objetivo de se opor às expulsões de crianças já escolarizadas junto com as suas famílias. "O trabalho que eles desenvolvem é indispensável", avalia irmão Alain. Por sua vez, Jean-François Mignard, presidente da RESF em Toulouse, declara-se "agradavelmente surpreso" com a iniciativa. "Bem-vindos ao clube", exclama este militante muito laico da Liga dos Direitos Humanos, que enxerga nessas sessões de orações mensais um "bom indicador" da mobilização em favor dos imigrantes ilegais.

Até mesmo o prefeito, que chegou a ser criticado pelas associações de ajuda aos imigrantes, se diz oficialmente "muito satisfeito" com as iniciativas no terreno dos monges franciscanos de Toulouse. "A Igreja nada mais faz do que exercer o seu papel quando ela tenta nos incentivar à reflexão. Eu aceito de bom grado refletir sobre a minha ação, com a minha alma e a minha consciência", comenta Jean-François Carenco, ao ser informado de que o irmão Alain também inclui os funcionários públicos em suas orações. "É muito freqüente em nossas comunidades a prática de rezar pelos torturados e pelos seus torturadores", indica simplesmente o monge franciscano.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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