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14/03/2008
O encontro mudo das duas Coréias

Philippe Pons
Enviado especial a Kaesong, Coréia do Norte


Dois mundos se observam. Dentro do ônibus, turistas da Coréia do Sul; na rua, habitantes de Kaesong, na Coréia do Norte. Dos dois lados das janelas, a curiosidade compartilhada se mistura com uma simpatia que é manifestada por meio de gestos furtivos com as mãos ou por sorrisos. Mas, excetuando-se esses sinais amigáveis, os contatos entre a população local e os visitantes se limitam a algumas poucas conversas com os guias e as vendedoras das lojinhas de suvenires. Os turistas só permanecerão no local por apenas algumas horas.

Para os mais idosos, uma excursão a Kaesong, que foi a capital do reino de Koryo (918-1392), equivale a uma viagem sentimental em busca do passado. É o caso deste homem que está aqui pela segunda vez: "Num dia desses, eu sei que vou acabar reencontrando certo lugar que eu conheci durante a minha infância", diz. Para os mais jovens, esta é a oportunidade para descobrir um país com o qual eles compartilham a história, a língua e a cultura, e do qual, contudo, eles se sentem muito distantes.

As viagens turísticas cotidianas para Kaesong, uma cidade situada a uma dezena de quilômetros ao norte da zona desmilitarizada que separa as duas Coréias - onde estão concentradas, dos dois lados, duas armadas em pé de guerra -, começaram em dezembro de 2007. Esta incursão, que constitui uma nova etapa no processo de reaproximação entre o Norte e o Sul, só faz revelar mais ainda a distância que existe entre os dois países depois de mais de meio século de separação. No espaço de uma hora e meia, o viajante passa da modernidade do século 21 para um mundo que permaneceu parado, mais de cinqüenta anos atrás, e não evoluiu mais.

Ahn Young-jonn/AFP - 30.jun.2003 
Mulher dança em cerimônia na cidade de Kaesong, na Coréia do Norte

Por ocasião da divisão da Península, realizada depois da derrota do Japão, em 1945, Kaesong estava situada ao sul da linha de demarcação. Depois, ela passou para o Norte por efeito do acordo de armistício que pôs fim à guerra da Coréia (1950-1953), que delimitou as duas zonas em função da linha de frente. Hoje, é uma cidade cinzenta e triste que parece estar vivendo em velocidade reduzida, sem trânsito algum a não ser o das bicicletas. De um país ao outro, as auto-estradas, os cabos de alta tensão, por exemplo, desaparecem. As culturas cuidadosamente planejadas debaixo de estufas de plástico, as cores variadas das casas, todas elas dotadas de uma antena de televisão, dão lugar para um país que carece cruelmente de tudo.

É a primeira vez que um número tão grande de coreanos do Sul (300 por dia) tem a possibilidade de entrever o universo dos seus compatriotas do Norte. Enquanto um outro local turístico norte-coreano, o monte Kumgang, que está aberto para visitas já faz cerca de quinze anos na orla oriental, não passa de um vasto parque natural delimitado por grades e cortado do restante do país, os visitantes estão aqui em plena cidade. Ainda assim, é uma cidade reduzida a um cenário: os turistas só têm direito a um apanhado rápido e frustrante daquilo que foi esta antiga capital que, a certa altura chegou a ser uma próspera cidade de mercadores e de letrados.

Após passar pelos postos de controle da polícia, instalados dentro de edifícios novinhos em folha, construídos pelo Sul, e depois pela linha de demarcação, guardada por um simples soldado de plantão, a estrada segue a ferrovia reservada aos trens de mercadorias. Inaugurada recentemente, esta linha garante o abastecimento da zona industrial de Kaesong na qual investiram empresas do Sul. Com a sua paisagem na qual predominam árvores desnudas, ervas deitadas e arrozais gelados, a região rural transmite uma impressão de desolação. A rudeza do inverno não é a única causa desta situação. Nos vilarejos, as casas de estilo tradicional, dotadas de um teto de telhas cinzentas encurvado nas extremidades, são modestas, e por vezes até mesmo agradáveis à vista. Mas elas parecem estar sem vida. Nenhuma fumaça sai das chaminés apesar do frio de rachar.

Cercada por morros verdejantes durante a temporada de calor, a antiga capital conservou certo encanto em razão dos seus bairros antigos que escaparam dos bombardeios americanos. Na parte sul da cidade apareceram recentemente novos prédios de habitação de cerca de quinze andares, de cores pastel, destinados aos empregados norte-coreanos da zona industrial especial. Nas outras áreas, os pequenos prédios decrépitos estão num estado lastimável.

O regime norte-coreano esforça-se para apresentar um rosto sorridente como o dessas jovens vendedoras que, na parte de baixo da cascata Pakyon, congelada, estão tremendo de frio apesar da sua fantasia de Papai Noel, vermelha com uma gola de pele sintética branca. Elas estão ali para vender bengalas de madeira de kiwi e servir chá com ginseng. Por sua vez, as jovens mulheres que, por meio de um megafone dão as explicações a respeito dos monumentos são vestidas com certa elegância, todas elas trajando um manto bem cortado e um cachecol cujas abas são jogadas negligentemente para trás.

Quando os turistas estão na cidade - das 9h às 16h -, os habitantes de Kaesong são mantidos afastados das atrações turísticas. Situadas no caminho do comboio, as ruas perpendiculares às grandes avenidas onde os ônibus circulam são guardadas por policiais. A procissão de uma dezena de ônibus - cujas placas sul-coreanas foram encobertas - evita passar perto dos monumentos que celebram as glórias do regime, com a exceção da gigantesca estátua de bronze do "Grande Líder" Kim Il-sung, representado com um braço levantado que aponta para o Caminho. Deste monumento que paira acima da cidade, o visitante só poderá entrever a parte de cima. Apenas os painéis murais representando um soldado esmagando com o punho um blindado "imperialista", e nos quais se destacam ainda slogans pichados em letras enormes, que se referem ao "Sol do século 21" (o dirigente Kim Jong-il), lembram a ideologia ambiente.

Durante as paradas, a mesma cena se repete: de um lado da avenida fica aglutinado o grupo de turistas enquadrado pelos seus guias vigilantes, enquanto na calçada do lado oposto da rua caminham passantes fartamente agasalhados que, enquanto seguem andando, arriscam olhadas furtivas em direção aos visitantes. Com a exceção dos monumentos, é proibido fotografar qualquer coisa, e os arquivos das câmeras digitais são inspecionados na saída.

"Não deu para aprender qualquer coisa além do que nós já sabíamos", constata um diretor de colégio ao deixar Kaesong, "mas o visitante vai embora tomado por um sentimento de tristeza". No decorrer da visita, começa a transparecer entre os coreanos do Sul o sentimento de que eles se tornaram tão diferentes dos seus compatriotas que, daqui para frente, a reunificação deverá ser muito mais demorada do que se pensava. "Eu fui criado no contexto de um anticomunismo feroz e, neste momento, estou aqui. Isso já é extraordinário", prossegue o diretor de colégio. "Mas, apesar de tudo, esta rua que essas pessoas devem atravessar para apertar a nossa mão permanece intransponível".

O circuito turístico organizado pela operadora Hyundai Asan - uma empresa sulista que agencia praticamente todas as atividades industriais e turísticas dos cidadãos do seu país na República Popular Democrática da Coréia (RPDC) - inclui quatro locais históricos de maior relevância: a cascata Pakyon, considerada uma das "três mais bonitas" da Península, um templo budista rupestre, a academia confuciana Songyangwan e uma memorável ponte de pedra.

A cascata Pakyon é particularmente procurada pelos coreanos, pois ela era o local predileto de uma heroína nacional, Hwang Chini, que a freqüentava diariamente. Hwang era uma célebre cortesã do século 16 que viveu em Kaesong, onde também fica o seu túmulo. Esta figura de mulher que viveu um destino singular e cujos poemas são conhecidos por todos, reuniu recentemente as duas Coréias: o romance que o escritor nortista contemporâneo Hong Sok-jung dedicou à sua memória, e que foi contemplado em 2004 com um prêmio literário no Sul, acaba de ser adaptado pelo cineasta sulista Chang Young-hyon.

Este filme, que estreou em junho, se mantém fiel à interpretação que o romancista elaborou da vida da sua heroína. "No Sul, uma dezena de romances já foi dedicada a Hwang Chini", explica o realizador, que nós entrevistamos em Seul. "A originalidade de Hong provém da ênfase que ele confere ao caráter rebelde desta mulher que, apesar de estar evoluindo no mundo aristocrático, luta contra o jugo confuciano, lançando mão de seu poder de sedução". Uma parte das filmagens deveria ter sido realizada em Kaesong, mas, em razão do teste nuclear efetuado pela Coréia do Norte em outubro de 2006, o projeto teve de ser cancelado e certas cenas ao ar livre acabaram sendo filmadas no monte Kumgang.

As visitas em Kaesong, que são permitidas aos estrangeiros, foram autorizadas pelo dirigente Kim Jong-il por ocasião da cúpula entre as duas Coréias realizada em outubro de 2007, depois de três anos de laboriosas negociações. Trata-se de uma operação rentável para a RPDC, que "fatura" US$ 100 (cerca de R$ 170) do total de US$ 195 (R$ 330) que cada turista desembolsa em cada excursão - ou seja, cerca de US$ 1 milhão (R$ 1,7 milhão), quase a mesma quantia que os 13.000 empregados da zona industrial de Kaesong proporcionam para o governo... A esses "royalties" devem ser acrescentados os lucros com as vendas de recordações nas lojas novinhas em folha montadas ao lado das atrações turísticas, onde também pode ser comprado ginseng, disponível em abundância e oferecido nas suas mais diversas formas, além de bebidas alcóolicas locais variadas e champignons secos (uma guloseima que os coreanos e os japoneses adoram)... Todos os pagamentos são efetuados em dólares.

Sem dúvida, o turismo constitui uma fonte de divisas para a RPDC. O monte Kumgang viu desfilarem 348.000 visitantes em 2007. A partir de maio, a Hyundai Asan passará a organizar excursões de avião a partir de Seul que permitirão visitar o monte Paektu, na fronteira chinesa. Este vulcão inativo que paira acima das planícies da Manchúria, e cuja cratera é ocupada por um lago (a "bacia do céu"), oferece uma paisagem grandiosa. Esta é uma das montanhas sagradas da Península: é neste lugar que teria descido sobre a terra o Filho do Céu, que deu origem a Tangun, o fundador da nação coreana, mais de dois milênios antes da era cristã. Além disso, está montanha é considerada o berço do regime norte-coreano uma vez que o dirigente Kim Jong-il teria nascido no local. Contudo, este talvez não seja exatamente o aspecto que mais atrai os turistas do Sul...

No meio do grande pátio quadrado do museu Koryo, em Kaesong, cercado por antigos pavilhões e onde foram plantadas veneráveis árvores gingkos, um casal de turistas idosos do Sul, sentado num banco, parece bastante nostálgico. Ambos nasceram em Kaesong. "Nós viemos para cá à procura da nossa infância, mas nós nada encontramos a não ser este lugar que costumávamos freqüentar quando éramos colegiais", diz o marido, cuja família havia fugido de Kaesong no início da guerra. "Os outros locais que nós visitamos me lembraram apenas do Sul durante os anos 1960, quando nós éramos pobres".

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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