09/04/2008
Cooperativas agrícolas retomam terras da máfia na Sicília
Jean-Jacques Bozonnet
Enviado especial a Corleone, Sicília
O pequeno trator vermelho de Innocenzo Micieli vai e vem entre as fileiras de videiras, revolve a terra ainda impregnada da umidade da noite, enquanto o seu zumbido repercute na paisagem delicadamente ondulada da comuna de Corleone. O nome desta fértil região agrícola da Sicília, situada a cerca de 50 quilômetros de Palermo, está historicamente associado à Cosa Nostra, a máfia siciliana. Aliás, o vinhedo no qual Innocenzo está trabalhando nesta manhã pertenceu no passado ao sanguinário Giovanni Brusca, o homem que assassinou o juiz Falcone em 1992. "Tomar a terra de um mafioso para cultivá-la? Alguns anos atrás, isso era algo impensável. O simples fato de pensar nisso fazia de você um homem morto", comenta com um sorriso o camponês, antes de pular da sua máquina.
Este habitante de Corleone que aparenta ter seus 50 anos é um dos quinze sócios da cooperativa Placido-Rizzotto-Libera Terra, a mais importante das três companhias agrícolas que foram fundadas desde novembro de 2001 para explorar as terras e os bens que foram confiscados dos chefes mafiosos: não só Brusca, que foi preso em 1996, como também Totò Riina, atrás das grades desde 1993, além do seu sucessor à frente da organização, Bernardo Provenzano, preso em abril de 2006. Recrutado por conta do seu know-how em matéria de agricultura biológica, Innocenzo não demorou a entender que ele estava trabalhando numa cooperativa diferente das outras: "O furto de um trator, seguido de um incêndio deliberado de uma colheita, logo nos primeiros meses, foram os sinais evidentes de uma tentativa de intimidação", recorda-se o agricultor.
Do outro lado do morro, Salvatore Ferrara acompanha de perto o trabalho dos seus funcionários, debruçados sobre as videiras novinhas em folha. Ele é um dos fundadores da cooperativa Lavoro e Non Solo ("Trabalho e não apenas isso"), fundada em 2001 para explorar 10 hectares que haviam pertencido à família Riina: "Os comerciantes de Corleone se negaram a comprar as nossas garrafas de suco de tomates, e com isso nós tivemos de recorrer à venda direta", explica. "As pessoas estavam com medo, e até mesmo os nossos amigos se afastaram". Atualmente, os doze sócios da Lavoro e Non Solo trabalham na exploração de mais de uma centena de hectares, auxiliados por trabalhadores temporários e benévolos.
Os jovens corleoneses, entre os quais Francesco, o filho de Innocenzo Micieli, que acabam de fundar a terceira cooperativa, a Pio La Torre-Libera Terra, em junho de 2007, não conhecerão a mesma hostilidade enfrentada pelos seus primogênitos.
"Para a primeira colheita, em 2002, nós fomos obrigados a recorrer à justiça para requisitar uma máquina colheitadeira", lembra Francesco Galante, um dos dirigentes da Placido-Rizzotto. "Os outros foram mudando aos poucos a sua maneira de ver as coisas, mesmo se os riscos de sabotagem não desapareceram por completo", acrescenta Salvatore Ferrara. Com a lâmina da sua podadeira, ele aponta para um campo vizinho, no qual uma família de mafiosos, segundo o agricultor, costuma fazer as suas ovelhas pastarem pouco após a época das semeaduras.
Daqui para frente, o trigo cresce em paz lá pelos lados de Corleone, enquanto as massas "antimáfia" estão à venda por todo lugar em pacotes que levam o selo "Libera Terra". Em 2007, 850.000 desses pacotes foram vendidos nas prateleiras reservadas aos produtos biológicos dos supermercados italianos. O faturamento das três cooperativas ultrapassou 5 milhões de euros (cerca de R$ 13,5 milhões) em 2007. Elas apostam na sua produção vinícola para aumentar os seus lucros: "É o vinho que melhor expressa a personalidade desta terra", afirmam os responsáveis das firmas. No final de março, o néctar produzido nos seus 47 hectares de vinhedos, sob a denominação única de Centopassi ("Cem Passos", título de um famoso filme sobre a máfia), foi selecionado na Vinitaly, a principal feira do vinho italiana.
No que vem a ser um sinal de que os tempos estão mudando, mais de 300 candidatos responderam à concorrência que foi aberta pelas autoridades para a administração da Pio La Torre, contra menos de uma centena seis anos antes, quando os projetos de cooperativas antimáfia cultivavam, sobretudo, a utopia. Mas a aventura desses jovens agricultores, que tentam fazer a sua terra reviver dentro da legalidade - todos os empregados são contratados dentro das regras -, permanece precária. Uma boa parte dentre eles conservou uma outra atividade para manter uma renda mensal suficiente. Alguns dos fundadores tiveram até mesmo que desistir. "Trata-se de empresas imbuídas de um elevado conteúdo ético e social, mas que querem ser bem-sucedidas, assim como qualquer atividade econômica, em função da qualidade intrínseca dos seus produtos e criando riqueza no território", explica Gianluca Faraone, o jovem presidente da Placido-Rizzotto.
O investimento inicial é pesado para esses camponeses da legalidade. Em razão das lentidões burocráticas, e também de "pressões" dos antigos proprietários, os bens acabaram sendo atribuídos apenas sete, dez, e até mesmo quinze anos depois de serem confiscados. Então, torna-se necessário colocar em estado de funcionar os equipamentos enferrujados, os edifícios deteriorados, as terras sem cultivo.
O deputado da circunscrição, Giuseppe Lumia (de centro-esquerda), um antigo presidente da comissão parlamentar antimáfia, vem insistindo em favor da criação de uma agência especializada que permita acelerar a distribuição dos bens confiscados: "Quatro mil deles foram redistribuídos ao longo dos últimos anos", diz. "Seria necessário alcançar um total de dez mil daqui a um ano".
Uma vez que eles não são proprietários dos bens que exploram, os "ragazzi antimáfia" não podem apresentá-los como garantia aos bancos de modo a obterem linhas de crédito. Por enquanto, está fora de questão que o Estado lhes revenda esses terrenos, principalmente em razão do risco de vê-los serem recomprados por "laranjas" às ordens da Máfia. "É preciso que a região da Sicília crie em regime de emergência, fundos de garantia regionais", argumenta Giuseppe Cipriani, o antigo prefeito de Corleone (centro-esquerda), que foi um dos promotores dessas iniciativas. Mas ele também avisa: "Se as cooperativas não conseguirem vencer este desafio econômico, vai ser uma catástrofe para a luta contra a máfia".
O prefeito atual da pequena cidade, Antonio Iannazzo, um jovem eleito do partido da Aliança Nacional (de direita), considera que o processo de reconquista que foi desencadeado pelos jovens sicilianos "é irreversível, se esta for mesmo a vontade do Estado". O prefeito não gostou da notícia do retorno ao país de Salvuccio Riina, 27 anos, o filho do ex-chefão, que saíra de maneira prematura da prisão, no começo de março, por causa de uma falha na condução do seu processo. A municipalidade protestou oficialmente contra a sua presença em Corleone, onde ele permanece em regime de prisão domiciliar.
"Vale reconhecer que houve uma evolução das mentalidades, mas o território ainda não está maduro para tolerar a presença deste homem", lamenta o prefeito.
O caso Salvuccio Riina está inflamando os ânimos no bar Central. Marlon Brando e Al Pacino têm fotos exibidas nas paredes do estabelecimento, mas "Totò Riina júnior" ocupa o centro das discussões no balcão: "Ele é um personagem constrangedor, as pessoas o cumprimentam, mas o meu temor é de que ele se torne um anti-herói", comenta o sindicalista Dino Paternostro, uma figura local do lobby contra a Máfia.
Então, Corleone se refugia novamente naquilo que é o símbolo das suas cooperativas: todo ano no verão, dezenas de jovens afluem, vindos da Toscana, da Emilia-Romana e até mesmo do exterior para ajudarem nas colheitas, como forma de manifestar a sua solidariedade com o combate dos jovens corleoneses. Quando vem a noite, toda essa juventude se encontra para um descanso bem merecido numa grande construção que foi entregue recentemente para a cooperativa Lavoro e Non Solo: a casa onde nasceu Bernardo Provenzano.
Tradução: Jean-Yves de Neufville
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