09/04/2008
Empório italiano se especializa em vender produtos "livres da extorsão da máfia"
Jean-Jacques Bozonnet
Enviado especial a Palermo
Nesta rua central de Palermo, Fabio Messina está instalado há apenas algumas semanas. Contudo, o bairro inteiro conhece este comerciante de 27 anos, o cumprimenta, conversa com ele. Até mesmo desconhecidos aparecem na porta do seu estabelecimento para bater papo. Esta notoriedade o diverte. "Eu me sinto como se fosse um chefão", diz, às gargalhadas, antes de corrigir: "Um bom chefão, um chefão positivo". Este jovem rapaz é a mais recente das encarnações de um movimento da sociedade civil palermitana (da cidade de Palermo) contra a máfia.
A sua loja deu a volta ao mundo da mídia desde a sua inauguração, em 4 de março. Nos 55 m2 do seu empório é possível encontrar de tudo um pouco, mas todas essas mercadorias apresentam um denominador comum: todos os artigos foram comprados de 35 comerciantes, artesãos ou produtores que se recusam a pagar o "pizzo", o imposto cobrado pela máfia, para o qual contribuiriam, segundo as estimativas, 80% dos empreendedores sicilianos. "Eu mantinha um bar a vinho na periferia e eu era um dos aderentes da associação Addiopizzo, mas eu me sentia isolado", explica Fabio Messina. "Eu pensei que nós poderíamos nos reunir e oferecer num único local produtos livres do pizzo".
"17 empreendedores falaram" O vinho é o carro-chefe do empório Punto Pizzo Free, mas as massas e o mel das cooperativas agrícolas também são um sucesso de vendas. Fabio sonha em transformar a sua marca numa franquia, que teria pontos de venda em toda a Itália.
O empório "livre da extorsão organizada" de Fabio representa uma alavanca suplementar para os militantes do comitê Addiopizzo. Lançada há quatro anos sob o slogan "um povo que se deixa extorquir é um povo sem dignidade", a iniciativa atraiu 350 comerciantes. Foi no bairro onde fica o empório que a revolta contra o imposto mafioso adquiriu toda a sua amplitude, graças à coragem de um homem, Vincenzo Conticello, o primeiro a ter designado os homens que queriam extorqui-lo numa sala de tribunal.
Em setembro de 2007, este proprietário da Antica Focacceria San Francisco, um dos lugares mais badalados da gastronomia palermitana, repetiu perante o juiz aquilo que ele havia declarado aos carabineiros dois anos antes. Os quatro mafiosos que haviam se apresentado para reclamar dele 50.000 euros (cerca de R$ 135.000), "para que ele regularizasse a sua situação", e depois 500 euros mensais (cerca de R$ 1.350) "para viver tranqüilo", foram condenados a 48 anos de prisão. "Aquela foi a primeira vez em que um empreendedor contou tudo para a polícia", explica Vincenzo Conticello. "Em 2005, eu estava sozinho, mas hoje, outros 17 empreendedores já falaram".
Antes do processo, o comerciante teve de suportar um grande número de ameaças. Atualmente, ele vive com proteção policial. Dois carabineiros ficam de plantão, com uma pistola metralhadora a tiracolo, na frente da Focacceria, enquanto lá dentro, os turistas disputam espaços. Vincenzo Conticello se sente livre.
Tradução: Jean-Yves de Neufville
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