12/04/2008
Norte da Itália vê aprofundamento das desigualdades com o Sul
Jean-Jacques Bozonnet
Ao registrar um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) per capita de apenas 0,1% entre 2001 e 2006 (contra uma média de 1,3% para os 15 países mais antigos da União Européia), a Itália segura a lanterna no ranking dos países industrializados, segundo um relatório da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômicos (OCDE) publicado em 8 de abril. Mas essa quase-estagnação não é homogênea, conforme explicam os especialistas da organização, em razão da "profunda diferença entre o Norte e o Sul".
O abismo que separa as ricas regiões setentrionais - entre as mais prósperas da Europa - e um Mezzogiorno que vai se arrastando, é "o problema número um do país", lembrou recentemente o presidente da República, Giorgio Napolitano.
A discrepância tenderia a aumentar cada vez mais. A dinâmica de "recuperação do atraso" do Mezzogiorno, que era visível no final dos anos 1990, "está bloqueada em razão de um desengajamento da política nacional que vem ocorrendo desde 2002", comenta o economista Roberto Basile, do Instituto de Estudos e de Análises Econômicas (ISAE).
De 1995 a 2007, as diferenças entre os níveis de renda por habitante praticamente não se alteraram. Um italiano do Sul ganha 57% do que ganha um italiano do Norte, contra 55% em 1995. Contudo, "este ligeiro progresso se deve inteiramente a um crescimento menos intenso da população no sul do país, do que no norte", explica o ISAE. Em 2007, 11,1% das famílias italianas foram consideradas como vivendo abaixo do limite de pobreza, fixado em 970 euros (cerca de R$ 2.600) por mês. Cerca de 5% da população do Norte corresponde a este perfil, contra mais de 22% no Sul.
As taxas de desemprego e de contratações confirmam uma nítida derrocada da metade meridional, uma tendência que pode ser constatada também na estrutura industrial. Segundo dados divulgados pelo Centro de Estudos Econômicos (CERM), a produtividade de um trabalhador do Sul é inferior pela metade àquela de um assalariado do Norte.
No que veio a comprometer a sua meta de construir o seu desenvolvimento, o Mezzogiorno perdeu o trem da distribuição dos fundos estruturais europeus, cuja fonte tende a arrefecer desde a ampliação da União Européia. O dinheiro desviado pelas máfias, além da "ineficiência nos processos de atribuição das verbas" figuram entre as principais causas deste desperdício, afirmam os especialistas.
Com isso, os recursos foram pulverizados em função das lógicas políticas, ou ainda em razão da incompetência da administração pública. "Um mundo artificial foi surgindo em torno desses subsídios, ao passo que teria sido necessário concentrar os investimentos na implantação das grandes infra-estruturas, tal como fizeram a Grécia e Portugal", lamenta Fabio Pammolli, o diretor do CERM. "Teria sido necessário também implantar um sistema de ajudas fiscais, como fez a Irlanda, de modo a atrair um maior número de investimentos".
As regiões meridionais, contudo, não carecem de trunfos: elas apresentam grandes espaços livres, enquanto o Norte está congestionado; e elas dispõem ainda de uma mão-de-obra qualificada, uma vez que o Estado consentiu importantes investimentos na formação. Ora, os investimentos estrangeiros permanecem muito reduzidos nestas regiões: 13 euros por habitante contra 292 euros no Norte (R$ 34,72 contra R$ 780). Essa cifra está muito longe da média européia (800 euros - R$ 2.136) ou dos 1.500 euros (cerca de R$ 4.000) por habitante, alcançados pela Irlanda.
Ao longo dos últimos anos, as multinacionais instalaram dez usinas no Sul, em relação a um total de 48 que foram implantadas na Itália, contra 329 na Polônia e 209 na Hungria. "A política que o governo implantou com o objetivo de desenvolver a competitividade do Sul por meio da redução dos custos não é suficiente, por causa da concorrência dos países do Leste", argumenta Roberto Basile. "Ela precisa ser complementada por uma política de marketing que venha a valorizar a qualidade das fábricas que foram construídas e da mão-de-obra. Para tanto, é necessário criar uma grande agência de desenvolvimento regional".
Na opinião de Gian-Maria Fara, o presidente do Instituto de Pesquisas Políticas, Econômicas e Sociais (Eurispes), "O Estado não compreendeu que o Sul é uma região estratégica para o desenvolvimento do país como um todo e que agora, não basta livrar-se dele com algumas esmolas. É preciso raciocinar em termos de sistema-país, dentro do qual o Norte precisa contribuir para fazer com que o Sul saia da sua situação de emergência, ajudando-o a compensar os seus atrasos crônicos". Aliás, este pesquisador acrescenta que a divisão da Itália em duas partes deixou de ser tão nítida quanto era: "Existem pólos industriais de excelência no Mezzogiorno, e regiões com dificuldades no Norte".
O Piemonte e a Ligúria (Norte) mal começaram a se recuperar de uma extensa crise causada pelo desmantelamento industrial, enquanto núcleos de pesquisa aeroespacial e indústrias de alta tecnologia optaram por se instalar na Campania e na Sicília (Sul). As estatísticas também destacam os avanços obtidos pela região do centro, que apresenta um desenvolvimento específico.
A Itália é múltipla, e ela segue evoluindo no plano institucional rumo a um sistema de federalismo fiscal mais definido. Fabio Pammolli sugere instaurar um sistema de relações entre o Estado e as regiões, semelhante àquele que existe entre a União Européia e os Estados-membros: "Seria preciso construir um pacto de estabilidade e de crescimento interno", resume, "de modo a passarmos das relações de assistência tal como elas existem atualmente para uma maior responsabilidade política dos poderes regionais".
Em sua maioria, os especialistas praticam uma verdadeira militância em favor de uma redução dos intermediários políticos, o que permitiria "gastar melhor" o dinheiro público. "O co-financiamento nacional necessário para que o país possa beneficiar dos cerca de 30 bilhões de euros (cerca de R$ 80 bilhões) que foram colocados à sua disposição pela Europa para o período que vai de 2007 a 2013, precisa envolver fortemente as regiões", propõe o universitário Roberto Pasca Di Magliano. "Mesmo que para isso, seja preciso fazer com que os custos pesem sobre as suas próprias finanças quando as regiões se aventuram em promover medidas fantasiosas, 'de caráter assistencial'".
Por ocasião da precedente programação de investimentos, apenas 37% das quantias alocadas foram destinadas a projetos que o ministério da indústria considera "coerentes" para o desenvolvimento do Mezzogiorno.
Tradução: Jean-Yves de Neufville
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