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23/07/2008
Pela primeira vez, uma perícia coletiva de cientistas alerta contra os perigos da dependência ao jogo

Sandrine Blanchard

Seria o jogo o novo vício em tóxicos do século 21? "Um longo caminho foi percorrido que conduziu da bebedeira e do mito do boa-vida até o reconhecimento da dependência ao álcool. Uma abordagem comparável está sendo adotada agora em relação ao jogo", resume o professor de psiquiatria Michel Lejoyeux, no texto preliminar do relatório da perícia coletiva que foi realizada pelo Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica (cuja sigla em francês é Inserm) sobre os jogos de azar e de dinheiro.

A primeira já conduzida sobre este tema, esta perícia, cujo relatório foi tornado público na terça-feira (22) é o fruto de um trabalho pluridisciplinar que foi realizado por encomenda da Direção Geral da Saúde (DGS) com o objetivo de estudar esta nova "dependência comportamental".

Française des Jeux: Esta companhia estatal controla 40 mil pontos de vendas. Toda semana, a Loto atrai 5 milhões de jogadores. Em 2006, dos 29 milhões de compradores, 51% eram mulheres, 34% tinham menos de 35 anos. Entre eles, os operários e os empregados são levemente majoritários.

PMU: Esta companhia privada de apostas em corridas de cavalos possui 8.881 pontos de vendas. 6,8 milhões de franceses praticam este tipo de jogo. Estes, numa proporção de 65%, são homens oriundos de meios modestos.

Cassinos: Os 192 estabelecimentos autorizados totalizaram 64 milhões de ingressos em 2004. 41% dos freqüentadores dos cassinos são pessoas inativas, sem emprego ou aposentadas.

Mercado: As quantias movimentadas pela indústria dos jogos autorizados passaram de 98 milhões de euros (cerca de R$ 245 milhões) em 1960 para 37 bilhões de euros (R$ 93 bilhões) em 2006. Os gastos com jogos de azar e de dinheiro são estimados em 134 euros (R$ 336,74) por ano e por habitante.

NÚMEROS NA FRANÇA
A noção de "jogo patológico" apareceu na literatura científica por volta do final dos anos 1980. Desde esta data, o "jogo excessivo" está inscrito no DSM (abreviatura de Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), a ferramenta de classificação das perturbações mentais, desenvolvida pela psiquiatria americana.

A loto e as "raspadinhas" comercializadas pela companhia Française des Jeux (A Francesa dos Jogos), os cassinos e as máquinas caça-níqueis, as apostas em corridas de cavalos, o pôquer... Ou seja, todas as formas de jogos de azar e de dinheiro, mas também os videogames, jogados por meio de consoles ou jogos na Internet, que foram liberalizados recentemente por iniciativa da Comissão Européia, conheceram um crescimento exponencial ao longo dos últimos anos. A perícia coletiva se refere a eles como sendo "um verdadeiro fenômeno de sociedade". E isso, mesmo se, após terem analisado a totalidade dos dados internacionais disponíveis (ou seja, cerca de 1.250 artigos científicos), os especialistas reunidos pelo Inserm constatam que é impossível dimensionar quantas pessoas, na França, se dedicam ao jogo com uma intensidade que extrapola o que pode ser considerado como um comportamento sensato.

"A França é praticamente um dos únicos países desenvolvidos que não fizeram pesquisa alguma a respeito da importância crescente na sociedade do jogo problemático e patológico", sublinham os autores do relatório, que insistem na necessidade de se promover "a realização de estudos nacionais". A maior parte dos dados provém do Canadá, dos Estados Unidos, da Austrália, da Nova Zelândia e da Europa do Norte. Nesses países, a quantidade de jogadores problemáticos e patológicos varia de 1% a 3% da população.

Impulsividade
Empobrecimento, endividamento excessivo, problemas familiares, divórcio, delitos (furtos, abuso de confiança, etc.) ou suicídio: os custos decorrentes do jogo excessivo são essencialmente sociais. Muitos começam a jogar para divertir-se, para lutar contra o tédio; jogam com a esperança de ganharem e, com isso, melhorarem sua situação econômica; ou ainda porque acreditam na sua sorte e porque querem "combater o destino". Mas este lazer recreativo pode tornar-se excessivo porque é incontrolável.

Segundo os especialistas, muitos continuam jogando - da mesma forma que fumantes prosseguem com o seu hábito - mesmo quando conhecem as conseqüências negativas disso. "A impulsividade que resulta de uma dificuldade de auto-regulação está no cerne da definição do jogo patológico", sublinham.

"O desenvolvimento dos jogos de azar e de dinheiro na Internet, em particular entre os jovens, suscita questionamentos dramáticos". Porque o jogo na telinha do computador é anônimo, solitário, acessível em domicílio, e de uma duração ilimitada, "ele é suscetível de favorecer práticas abusivas e que causam dependência".

Em sua maioria, as pesquisas epidemiológicas que têm sido conduzidas junto às populações em geral identificam o sexo (masculino) e a idade (adolescentes e jovens adultos) como "fatores associados" ao jogo problemático. "Os fatores sociais desempenham um papel importante, mas isso não deve fazer esquecer de que o jogo patológico é encontrado em todos os meios sociais", lembram os especialistas. Embora a dependência ao jogo tivesse sido incluída, pela primeira vez, no "plano de luta contra as dependências" para o período que vai de 2007 a 2011, lançado pelo Ministério da Saúde, a França acusa um sério atraso em matéria de prevenção. A dificuldade está em conseguir conciliar o desenvolvimento dos jogos, com os quais o Estado arrecada bilhões de euros em receitas, a liberdade dos jogadores, e a proteção das pessoas vulneráveis.

Diante da "propaganda maciça" em favor dos jogos de azar e de dinheiro, o grupo de especialistas argumenta em favor de uma "informação clara e objetiva a respeito dos prejuízos sociais, profissionais, familiares e sobre o risco de dependência". No Canadá, políticas sistemáticas de educação dos jovens e de informação dos adultos foram implantadas. "A França poderia se inspirar nelas". Citando o exemplo do fichário no qual estão listadas as pessoas "proibidas de jogarem" nos cassinos, os especialistas recomendam instituir "condições de auto-limitação e de auto-proibição para os outros jogos, inclusive aqueles on-line". Com o objetivo de criar condições para um controle e um acompanhamento mais adequados dos jogadores excessivos, eles preconizam também a implantação de uma "central de atendimento telefônico no plano nacional".

Porque uma maioria dos jogadores problemáticos não raro apresenta uma ou várias outras formas de vício (dependência ao tabaco, ao álcool...) e, frequentemente, desordens psiquiátricas (distúrbios do humor, problemas de ansiedade...) seria "necessário" que os médicos especializados em dependências e os psiquiatras interroguem "sistematicamente" seus pacientes a respeito da sua relação com o jogo, e que os generalistas, os psicólogos e os trabalhadores sociais sejam "formados na detecção do jogo patológico".

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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