Em Kichinev, capital da pequena Moldova, o número de canteiros de obras em construção engana. Longe de refletir a verdadeira saúde econômica do país - à beira da asfixia -, as fachadas restauradas indicam somente que o proprietário foi trabalhar no exterior. Esse movimento migratório em massa manteve a Moldova desde a queda da URSS em 1991. Mas por quanto tempo ainda?
País essencialmente agrícola, o antigo "celeiro de frutos" da União Soviética corre o risco de sofrer fortemente as consequências da crise econômica mundial. Pois a Moldova sofre de uma hemorragia demográfica. Em 2008, por falta de emprego, pelo menos 350 mil moldávios foram ganhar a vida no exterior, ou seja, 10% da população total, 25% dos economicamente ativos.
"No ano passado, as remessas bancárias para a Moldova, dos trabalhadores no exterior, giravam em torno de ? 1,22 bilhões (R$ 3,56 bilhões); 38% do PIB", explica Ghenadie Credu, da Organização Internacional para as Migrações (OIM). No mundo, somente o Tadjiquistão depende mais de seus trabalhadores expatriados.
Com a crise econômica, a diminuição das transferências de fundos, e até o retorno dos trabalhadores imigrantes, poderia desestabilizar esse país cercado pela Romênia e pela Ucrânia. "É uma bomba-relógio social", avisa Credu.
Os moldávios que tomaram o rumo da Europa provavelmente vão ficar por lá, mas 60% dos imigrantes trabalham na Rússia e na Ucrânia, sobretudo no setor de construção. Eles voltaram neste inverno, e com a crise, eles correm o risco de ficar aqui, por falta de coisa melhor".
Mas é inútil procurar uma referência para esse fenômeno durante a campanha para as eleições parlamentares do dia 5 de abril, marcadas por uma vitória esmagadora do Partido Comunista Moldávio (PCM), no poder em Kichinev desde 2001. "As autoridades fingem ignorar a crise", observa Vasile Botnaru, redator-chefe da Radio Free Europe.
Oposição divididaO partido do presidente Vladimir Vornine preferiu exaltar a "estabilidade" da Moldova, "no caminho para a integração europeia". Uma estabilidade que tem um preço: "Para manter o leu (a moeda nacional) estável até a votação, as autoridades recorreram às reservas de divisas", explica Botnaru. Em três meses, o Banco Central teria gasto um terço de seus US$ 100 milhões; alguns chegam a afirmar em Kichinev que há risco de falência.
A oposição liberal poderia aproveitar esse contexto econômico degradado. Mas ela se dividiu, destroçando-se em dez formações diferentes. Vasile Botnaru questiona: "E se a oposição preferiu abrir mão em favor dos comunistas, para não ter de administrar as consequências desastrosas da crise?"
Mal organizada e sem líder, a oposição liberal não soube mostrar sua diferença. Todos os partidos - inclusive os comunistas - são a favor da integração europeia; todos pedem pela volta ao domínio moldávio da Transnístria, região separatista sustentada por Moscou desde 1991.
Em época de crise, a corrida eleitoral adquiriu um tom populista: os comunistas prometeram um aumento de 20% das aposentadorias a partir de abril; os liberais responderam anunciando um salário médio de "? 500 (R$ 1.460) por mês", contra os atuais 174.
Mas neste jogo, os comunistas foram mais convincentes. Resultado: no domingo à noite, a oposição se viu com menos de 35% dos votos. "É melhor lidar com os comunistas de Voronine e induzi-los àquilo que eles têm de parecido conosco, pouco a pouco, do que estar diante de um interlocutor dúbio", reconhece um diplomata europeu em Kichinev.
A dissolução da oposição não é a única explicação para o maremoto eleitoral dos comunistas. A utilização dos "recursos administrativos" do Estado e a influência do PCM sobre a maior parte da mídia lhe permitiu dominar seus adversários.
"Foi a campanha mais suja dos últimos dez anos", diz uma jornalista da Pro-TV, filial de um canal de televisão romeno e principal emissora da oposição, cuja licença de exploração quase não foi renovada em dezembro de 2008.
Desde o anúncio dos resultados, o índice de participação de 60% anunciado pelas autoridades durante a votação de domingo foi apresentado como uma prova de falsificação. Uma vez que centenas de milhares de moldávios no exterior não puderam votar, por falta de representação diplomática em seus países, a participação anunciada significaria que 80% dos eleitores na Moldova teriam comparecido às urnas. Uma porcentagem considerada estranha pela oposição.
Claro, o eleitorado comunista tradicional - especialmente os aposentados e os camponeses - se manteve fiel aos seus ideais. Mas a
intelligentsia da capital e os estudantes se sentem cada vez menos à vontade na Moldova de Vladimir Voronine, perplexos pelas manobras diplomáticas do regime entre Bruxelas e Moscou.
Para eles, as promessas de "estabilidade" do PCM são só um sinônimo de inércia. Na segunda-feira (6), eles engrossaram os batalhões de manifestantes que invadiram as ruas de Kichinev, pilharam o Parlamento e apedrejaram a presidência.
Tradução: Lana Lim