O presidente Dmitri Medvedev conclui, na sexta-feira (26), sua viagem africana, a mais importante para um chefe de Estado russo desde a queda da União Soviética. Ela o levou para quatro países - Egito, Nigéria, Namíbia e Angola - considerados estratégicos, especialmente pela riqueza de seus subsolos. Mas o interesse russo pela África se manifesta tardiamente, uma vez que a concorrência, sobretudo chinesa, já está bem empenhada na corrida pelos recursos do continente.
As relações entre Rússia e África, intensas na época soviética, se desintegraram com a queda da URSS, sendo que no auge da guerra fria, Moscou tinha cerca de 40 mil conselheiros, técnicos ou militares, nos regimes pró-soviéticos do continente africano. No entanto, foi preciso esperar por 2006 e uma - modesta - visita do presidente Vladimir Putin ao Marrocos e à África do Sul para se assistir à primeira visita pós-soviética de um chefe de Estado russo ao continente africano.
Mas esse "retorno" russo à África não tem mais o caráter ideológico do período anterior. Nesta semana, o presidente Medvedev foi acompanhado de uma delegação de 400 empresários e representantes industriais, entre os quais, dirigentes dos gigantes das empresas estatais: Rosatom para a indústria nuclear, Lukoil e Gazprom para o setor de energia.
Pois agora trata-se de a Rússia voltar a colocar os pés no continente, uma vez que os investidores chineses já estão fortemente implantados lá: por exemplo, o comércio anual entre a Rússia e a Nigéria chega a ? 215 milhões, contra os mais de 8 bilhões entre Pequim e Abuja. "Devíamos ter começado a trabalhar com nossos parceiros africanos muito tempo atrás", reconheceu o presidente russo durante sua passagem em Windhoek, a capital da Namíbia, na quinta-feira.
Para a primeira visita de um chefe de Estado russo à Nigéria, maior produtora de gás e petróleo do continente africano, Medvedev esteve acompanhado do presidente da Gazprom internacional, Boris Ivanov. Um acordo foi feito entre o gigante da energia e a empresa nacional Nigerian National Petroleum Corporation para a criação de uma empresa conjunta, Nigaz, que dará à Gazprom um acesso aos recursos de gás e petróleo do país. A Gazprom também anunciou a construção, a partir de 2010, de um segmento de gasoduto que poderá constituir o ponto de partida de um gasoduto transsaariano até as margens do Mediterrâneo.
Destaques da imprensa internacional
A viagem africana de Dmitri Medvedev terá sido decididamente focada no domínio energético. Acompanhado do presidente da agência atômica Rosatom, Sergei Kirienko, o presidente Medvedev argumentou a favor da tecnologia russa para a construção de centrais nucleares no Egito e na Nigéria, ao mesmo tempo em que tenta reativar um projeto russo de exploração de reservas de urânio na Namíbia, e lançar um novo programa de pesquisa de minério na Nigéria. A passagem de Medvedev por Angola, cujo regime marxista foi sustentado pela URSS, também poderá permitir compensar uma parte do atraso em relação à China, principal credora do país desde o fim da guerra civil em 1992. Moscou já está financiando a construção de duas represas hidroelétricas em Angola e está envolvida na extração de diamantes do país.
Manda-chuva da indústriaA presença do manda-chuva da indústria russa junto de Dmitri Medvedev durante essa viagem confirma a importância da "diplomacia das matérias primas" praticada pelo Kremlin por intermédio de suas grandes empresas como a Gazprom, às vezes considerada o cavalo de Tróia da política externa do Kremlin.
No Egito, Medvedev também tentou reforçar o papel de Moscou no processo de paz no Oriente Médio, já que a Rússia milita por uma grande conferência internacional em Moscou antes do fim do ano. Proposta aprovada pelo Cairo, mas recebida com frieza por Israel e Estados Unidos, uma vez que Obama fará sua primeira visita a Moscou no início do mês de julho.
Tradução: Lana Lim