A América Central é a região mais violenta do mundo, afirma o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), em um relatório publicado na semana passada em San Salvador. "Com exceção de algumas zonas da África e da Ásia em guerra, essa região registra as taxas de homicídio mais elevadas do mundo, e essas taxas aumentaram ao longo dos últimos anos em quase todos os países da América Central", ressalta esse relatório.
Quase 79 mil pessoas foram assassinadas nos sete países do istmo centro-americano (Belize, Costa Rica, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Panamá, El Salvador) nos últimos seis anos. O índice de homicídios da região, 33 para 100.000 habitantes, é três vezes mais alto que a média mundial. A epidemia de violência atinge particularmente os três países do Triângulo Norte (Guatemala, Honduras e El Salvador), onde os índices de homicídios ultrapassam 50 para 100.000 habitantes.
Entre 1º de janeiro e 18 de outubro de 2009, a polícia salvadorenha registrou 3.492 assassinatos, 1.008 a mais que durante o mesmo período no ano anterior.
Importante destino turístico, considerada pacífica, a Costa Rica não escapa do contágio. O número de assassinatos, ainda que continue abaixo dos países vizinhos, dobrou em oito anos (11 para 100.000 habitantes).
Alguns aspectos da atividade criminal são subestimados ou pouco conhecidos. É o caso, por exemplo, da violência sexual dentro das famílias, dos sequestros com pedido de resgate (raramente denunciados à polícia), ou da prostituição infantil que envolveria cerca de 50 mil menores na região.
O custo da violência representa 7,7% do produto interno bruto (PIB) regional, segundo o Pnud. "Além de seu custo econômico tangível, a violência influencia as decisões cotidianas da população e entrava o desenvolvimento humano. Um dos custos mais difíceis de quantificar é o das liberdades perdidas", observa Rebeca Grynspan, diretora regional do Pnud. "Todo mundo tem direito à segurança, e o Estado tem o dever de garanti-la. Sem segurança, não há investimentos, e sem investimentos não há empregos, e sem empregos não há desenvolvimento humano", resume Hernando Gomez Buendia, coordenador do relatório.
3 milhões de armas de fogoUma pesquisa publicada em 21 de outubro pela Universidade Centro-Americana (UCA) dá a medida da violência em El Salvador: 16,4% das pessoas entrevistadas foram vítimas da criminalidade nos últimos doze anos, e 55% da população vive com medo de sofrer alguma agressão.
A crescente insegurança provoca uma modificação dos comportamentos: dois em cada três habitantes evitam os lugares públicos por medo de agressões. 17% das pessoas entrevistadas pensam em deixar o país para fugir da violência, e 11% mudaram de número de telefone depois de sofrerem ameaças de morte.
O relatório do Pnud enumera as principais causas da violência: as desigualdades escancaradas, o desemprego, a marginalização dos jovens, a urbanização selvagem, a abundância de armas ilegais, o narcotráfico, a corrupção e a impunidade. Contam-se quase 3 milhões de armas de fogo na região, sendo que dois terços delas são de porte ilegal.
Quase 90% da cocaína consumida nos Estados Unidos passa pela América Central e pelo México. Grande parte da violência é associada ao narcotráfico e aos "maras", as gangues que contam mais de 70 mil membros na América Central.
A pesquisa da UCA chama a atenção para a falta de confiança da população nas instituições que supostamente deveriam combater a criminalidade: 45,7% dos salvadorenhos pensam que a polícia está envolvida na criminalidade, e 65% das vítimas de violência preferiram não denunciar às autoridades.
Soluções existem, afirma o Pnud, que cita experiências de sucesso em Medellín, na Colômbia, em Guayaquil, no Equador, ou em São Paulo, no Brasil. "Nem mão de ferro, nem luva de veludo, a estratégia de segurança civil requer um diagnóstico inteligente, e uma verdadeira vontade política, que respeite a democracia e o Estado de direito", afirma Rebeca Grynspan.
Tradução: Lana Lim