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22/06/2004

Em pleno ano eleitoral, Brasil investe mais em programas sociais

Governo do país triplica em 2004 a quantia destinada a gastos com projetos populares
Paulo A. Paranaguá
"O Brasil está no caminho do crescimento", afirmou o ministro brasileiro do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, durante uma passagem recente por Paris. Enquanto 2003 terminou com lamentáveis 0,2% de crescimento econômico, ele prevê 3,5% em 2004.
"Ainda é cedo para comemorar a retomada", declarou por sua vez o opositor Aécio Neves, governador de Minas Gerais (do Partido da Social Democracia Brasileira, PSDB). Como as eleições municipais de 3 de outubro terão um valor de teste, no meio do mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, tudo torna-se tema de polêmica.
O ministro Luiz Dulci, secretário-geral da Presidência da República, admite o verdadeiro desafio: o desemprego é a principal preocupação dos brasileiros; resta saber se a recuperação será capaz de criar empregos, enquanto 1 milhão de jovens chegam ao mercado de trabalho todos os anos.
Ainda não é o caso. Ex-sindicalista e professor em Minas Gerais, fundador e dirigente do Partido dos Trabalhadores (PT), Dulci faz parte do "núcleo duro" da coalizão governamental de centro-esquerda. Em Paris ele tentou responder durante uma semana aos partidos de esquerda, ao sindicatos, aos antiglobalização e aos intelectuais franceses.
Alguns dias depois, o presidente Lula deu uma entrevista a "El País". Depois do caso do "New York Times", a presidência brasileira se apressa a retomar contatos com a imprensa internacional. O correspondente do jornal nova-iorquino atraiu a ira do chefe de Estado ao falar de alcoolismo em relação a ele. O remédio - a expulsão do jornalista - revelou-se pior que a doença, e o governo voltou atrás em sua decisão.
Diante das eleições, a retomada é uma bênção. Em 2004, o governo deveria dispor de R$ 12,5 bilhões para os programas sociais, ou seja, três vezes mais que em 2003. "Poderemos conjugar melhor a economia e o social", salienta Luiz Dulci. "Nossos programas combinam a urgência com medidas estruturais."
Concentrado na região semi-árida do nordeste, o programa Fome Zero permitiu impulsionar a construção coletiva de cisternas, a criação de cooperativas de produção e a promoção do artesanato. Outro programa, chamado Bolsa Família, é articulado com a saúde pública e a escolaridade das crianças, sem esquecer a formação profissional.
"80% dos beneficiários da reforma agrária viviam de ajuda a alimentar e não produziam um único grão", prossegue Dulci. "Foi preciso restabelecer sua capacidade produtiva antes de distribuir outras terras. Em 2003 nossos créditos para os pequenos agricultores totalizaram 5,4 bilhões de reais, dos quais se beneficiaram 1,8 milhões de famílias." A reforma agrária se acelera, segundo o ministro. "Enquanto em 2003 houve 37 mil lotes distribuídos, este ano deveremos chegar a 115 mil", diz Dulci.
"Pela primeira vez na história do Brasil elaboramos o plano plurianual - que serve de quadro para o orçamento federal anual - em diálogo com 2.170 organizações e associações, do Movimento dos Sem-Terra às federações patronais, passando pelas Igrejas", explica Dulci.
Esse otimismo não é unânime. O presidente do PSDB, José Serra, acusou o presidente Lula de dupla linguagem. "Seu governo é mais próximo do Fundo Monetário Internacional que o de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso", declarou Serra. O ex-ministro do Planejamento e da Saúde do presidente Cardoso condena as taxas de juros, o superávit primário e a carga fiscal mantidos a um nível "sideral". Rival de Lula no segundo turno da eleição presidencial de 2002, o líder do PSDB é candidato à prefeitura de São Paulo, principal vitrine do PT, administrada por Marta Suplicy, que tenta a reeleição.



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