21/07/2004
Igreja diz que investigará as orgias de seminário austríaco
Papa nomeia um emissário para apurar o escândalo que abalou o catolicismo no país
Com AFP
Após a revelação de um escândalo de caráter pedófilo no seminário de Sankt-Poelten (Áustria), o papa João Paulo 2º enviou nesta terça-feira (20/07) um emissário para tentar solucionar a crise. Para a satisfação do clérigo austríaco, o sumo pontífice nomeou dom Klaus Kueng, um bispo de Feldkirch, como visitante apostólico da diocese de Sankt-Poelten, situada a 80 km a oeste de Viena.
Um visitante apostólico é um investigador encarregado de prestar esclarecimentos sobre um caso ao líder supremo da Igreja Católica. O procedimento, de caráter excepcional, é considerado como uma repreensão ao bispo de Sankt-Poelten, dom Kurt Krenn, que é acusado de tolerância excessiva e de desenvoltura neste escândalo que suscitou a indignação até mesmo nos altos escalões da hierarquia da Igreja.
Reação do Vaticano
Os apelos para que o Vaticano adotasse uma atitude firme haviam-se multiplicado depois da descoberta, em novembro de 2003, de cerca de 40 mil fotos pornográficas, das quais algumas tinham caráter pedófilo ou zoófilo, nos arquivos dos computadores portáteis de vários padres do seminário. Calejado pelos recorrentes escândalos sexuais que se repetem entre membros da alta hierarquia católica, o papa João Paulo 2º reagiu com uma celeridade incomum ao escândalo.
As principais manchetes da imprensa se referem a "orgias dignas de Sodoma e Gomorra no seminário", ou ainda a um "crepúsculo de Deus em Sankt-Poelten".
No início de julho, a revista "Profil" havia publicado fotos mostrando os dois responsáveis do seminário em posições que sugeriam a prática de relações homossexuais com alguns de seus alunos. O diretor do seminário, Ulrich Kuechl, e o seu adjunto, Wolfgang Rothe, que se demitiram de suas funções, teriam tido relações sexuais com seminaristas.
Na segunda-feira (19), um seminarista polonês de 27 anos foi condenado pela Justiça por ter procurado, baixado e colecionado fotos de caráter pornográfico, das quais algumas encenavam crianças.
Um bispo controvertido
Dom Kueng, o enviado do papa, explicou que "se trata de uma tarefa delicada e difícil",e que ele pretende cumprir a sua missão "com determinação e minúcia". O cardeal de Viena, Christoph Schoenborn, disse estar satisfeito com a decisão do Vaticano, que ele qualificou de "excepcional". Ele reconheceu que "uma tal operação de saneamento havia se tornado necessária".
Um prelado ultraconservador, dom Krenn, o bispo de Sankt-Poelten, se diz vítima de uma maquinação. "Alguém está querendo me destruir. Mas eu sou sólido", sublinhou. Ele também se disse "satisfeito" com a decisão do papa e insistiu sobre a necessidade de "um inquérito aprofundado e objetivo".
Ele procurou minimizar a crise, declarando diante dos jornalistas que "tudo aquilo não teve nenhuma importância. Talvez tivesse aparecido em algum momento um homossexual ou algum mau sujeito", disse, com o típico preconceito dos religiosos.
Segundo uma pesquisa que foi publicada nesta segunda-feira pela revista "Profil", 72% dos austríacos exigem que ele seja demitido. Em 1991, cerca de 3 mil pessoas haviam-se manifestado contra a sua nomeação na frente da catedral Santo Estevão de Viena.
O prelado, que é muito prezado pelo político populista Joerg Haider (de extrema direita) e que alguns consideram como dependente do álcool, havia declarado em 2002 que "o Islã era uma religião agressiva".
Tradução: Jean-Yves de Neufville
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