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16/12/2003

O fim de um ditador

Editorial
Em primeiro lugar, a satisfação. A prisão de Saddam Hussein, na noite de sábado, 13 de dezembro, é uma excelente notícia. Não é tão freqüente assim, na história, ver um dos tiranos mais ferozes de sua época ser colocado na situação de ter de prestar contas.
Ora, as contas do ex-presidente iraquiano, que foi derrubado há oito meses pela coalizão dirigida pelos Estados Unidos, são salgadas, pesadas e sangrentas. O homem que, quando foi capturado, estava escondido numa aldeia da região de Tikrit, é um dos maiores criminosos do nosso tempo. Ele provocou a desgraça dos iraquianos e dos outros povos da região. Ele humilhou o mundo árabe instalando uma máfia criminosa para dirigir o seu país que tinha tudo para se tornar um dos motores da modernidade na região, com o seu petróleo, é claro, mas também com a sua população de educação refinada, uma rica herdeira da tradição da antiga terra de Mesopotâmia.
Saddam Hussein é diretamente ou indiretamente responsável pela morte de centenas de milhares de pessoas. Exercendo os plenos poderes sobre o Iraque desde 1979, ele vai governar pelo terror. Para tanto, ele não hesitará a empregar todos os meios disponíveis: as execuções, sumárias ou não, a tortura, os deslocamentos forçados de populações inteiras, os bombardeios químicos contra as suas próprias minorias são parte integrante do método de governo de Saddam no interior do Iraque.
Quantos curdos morreram nas grandes campanhas que foram conduzidas contra eles de 1985 a 1988, e, mais tarde, na primavera de 1991, depois de os Estados Unidos terem incitado esta minoria a se revoltar mais uma vez, antes de abandoná-la de maneira vergonhosa à crueldade da Guarda Republicana de Saddam? Possivelmente trezentos mil, afirmam algumas fontes. Quantos xiitas foram dizimados nas mesmas condições? Provavelmente a mesma quantidade.
Não contente em martirizar os iraquianos, Saddam Hussein, pouco depois de ter assumido a presidência, vai envolver o Iraque numa guerra de oito anos contra o Irã, com o apoio do Ocidente. Novamente, centenas de milhares morrem. Então, quando todos acham que esse pesadelo acabou, ele invade o Kuait, de onde ele sairá derrotado militarmente, enquanto os iraquianos passarão a ser submetidos a um terrível embargo econômico.
A sua captura traz algum alento a George W. Bush. Desde a derrota do regime de Saddam Hussein, as forças de ocupação americanas perderam mais de duzentos homens na batalha que uma guerrilha multiforme vem travando contra eles. Saddam Hussein talvez inspirasse - nada é mais incerto - uma das componentes desta guerrilha. Mas não as outras, a componente islâmica e a nacionalista. O presidente Bush foi bastante inspirado em evitar toda e qualquer manifestação de triunfalismo. A prisão deste sábado não irá pôr fim à violência.
Como julgar o autor de crimes que são perfeitamente comparáveis aos perpetrados por Slobodan Milosevic? Em Bagdá, o presidente do Conselho de Governo provisório, Abdelaziz Hakim, afirmou a sua preferência: ele quer um julgamento no Iraque, realizado por juizes iraquianos. No entanto, não existe nenhuma tradição judiciária iraquiana séria. O imperativo de se conferir a esse processo um caráter exemplar, e a amplidão e a gravidade dos crimes cometidos não seriam motivos suficientes para se tomar medidas extraordinárias? Não seria o caso de fazer com que esse julgamento seja efetuado em Bagdá perante uma jurisdição adequada indicada pela ONU, com juizes iraquianos e internacionais? Os Estados Unidos, por mais que eles se oponham à justiça internacional, ganhariam muito em favorecer uma tal solução. Nem que seja para a História.



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