25/08/2004
Poliomielite vira epidemia na África, afirma OMS
Lawrence K. Altman
Em Nova York
A poliomielite se alastrou para mais dois países africanos que estavam livres dessa doença, que provoca paralisia infantil, e já ameaça se transformar numa epidemia pela África ocidental e também pelo centro do continente. A denúncia foi feita nesta terça-feira (24/08) pela OMS, (Organização Mundial da Saúde). E há previsão de que a situação irá se agravar a partir do próximo mês.
O avanço da poliomielite na Guiné e no Mali faz com que já sejam 12 os países africanos que estavam livres dessa doença e que apresentaram reincidência desde Janeiro de 2003. Esse avanço contraria os esforços da OMS em erradicar a doença até o final do ano, um objetivo que é estimulado por um fundo com investimentos de US$ 100 milhões (cerca de R$ 300 mi).
Mas a OMS, agência da ONU com sede em Genebra, declarou que ainda pretende erradicar a pólio, embora isso possa levar mais tempo que o previsto anteriormente.
A OMS confirmou um caso de poliomielite na Guiné, numa criança que adoeceu no dia 5 de junho, e outros dois casos em Mali, em crianças cujos sintomas apareceram no dia 15 de maio e no dia 5 de julho. A agência também confirmou outros três casos na região de Darfur, no oeste do Sudão; todas as três crianças adoeceram no mês de julho.
A Guiné e o Mali não estão entre os países que realizaram programas de vacinação conjunta no ultimo verão africano. Outros países tomaram essa providencia para tentarem criar uma barreira imunológica contra a expansão da doença, vinda da Nigeria e do Níger.
Antes da notificação dessa semana, o ultimo caso de poliomielite havia sido registrado na Guiné, em outubro de 1999, e no Mali, em janeiro de 1999. Pouco tempo antes de esses últimos casos serem confirmados, a OMS havia planejado um reforço na vacinação conjunta e simultânea em 22 países, entre eles a Guiné e o Mali, nos meses de outubro e novembro.
Esse programa que irá ocorrer na primavera africana almeja a imunização de 74 milhões de crianças com menos de 5 anos.
A reincidência da poliomielite começou no norte da Nigéria, onde, segundo a OMS, o governo do Estado de Kano baniu as imunizações contra a pólio. Líderes políticos e religiosos dessa região alegaram várias razões para se oporem à vacinação, inclusive com argumentos de que a vacina provocaria esterilidade entre as meninas, o que mais tarde poderia gerar expansão do vírus HIV, sexualmente transmissível.
Funcionários da OMS vêm repetidamente negando essa possibilidade. E depois de ter feito investigação por conta própria, mostrando que não havia impurezas nem adulteração dos resultados, o governo de Kano finalmente revogou a proibição da vacinação contra a poliomielite, e o programa de imunização recomeçou no final do mês passado.
O médico Bruce Aylward, coordenador global para o programa da OMS contra a pólio, disse numa entrevista telefônica, de Genebra: "Se há algo de positivo em todo esse episódio, é que fez muita gente acordar, gente que achava que bastaria o reinício das imunizações pelo governo de Kano para que todos os problemas se resolvessem. Mas a verdade é que temos uma grande epidemia no norte da Nigéria. Está se espalhando e vai continuar a se espalhar, até que tenhamos um bom número de rodadas de imunização por lá."
Entre os problemas enfrentados pelos profissionais da saúde pública no combata a pólio está o fato de que os programas normais de imunização nos países afetados não chegam a atingir 50% da população almejada.
"Isso aumenta a necessidade de termos ótimas campanhas de imunização em outubro e novembro", disse o Aylward.
A necessidade de levar adiante programas de imunização numa área mais abrangente da África está forçando a OMS a dispersar seus consultores internacionais e técnicos por mais países, o que aumenta os riscos de queda na qualidade dos programas em determinadas áreas prioritárias, segundo o coordenador da Organização Mundial da Saúde.
Em 24 de agosto, havia o registro de 602 casos de pólio no mundo inteiro, dos quais 476, ou 79%, se encontram na Nigéria. 90% dos casos mundiais estão na África, onde no final de 2002 a doença estava erradicada em todos os países, menos na Nigéria e no Níger.
O número de casos de poliomielite podem chegar a 1.000 esse ano na Nigeria, disse Aylward, e voltar à incidência zero poderá custar um ano inteiro de trabalho intensivo.
Além da Guiné e do Mali, os países que apresentaram reincidência da pólio a partir da Nigéria foram: Benin, Botsuana, Burkina Fasso, Camarões, República Centro-Africana, Chade, Gana, Costa do Marfim, Sudão e o Togo.
Tradução: Marcelo Godoy
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