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12/01/2005
Sistema de saúde de Cuba é melhor que dos EUA

Nicholas D. Kristof
Em Nova York


NYT Image

Nicholas Kristof é colunista
Aqui está o fato doloroso: se os EUA tivessem uma taxa de mortalidade infantil tão boa quanto a de Cuba, nós salvaríamos 2.212 bebês americanos a mais por ano.

Sim, a de Cuba.

Bebês têm menos chance de sobreviver nos Estados Unidos, com sistema de saúde que achamos ser o melhor do mundo, que na empobrecida e autocrática Cuba. Segundo o mais recente Livro de Fatos Mundiais da CIA, Cuba é um dos 41 países com melhor taxa de mortalidade infantil que os EUA.

Ainda mais perturbador, a taxa nos Estados Unidos piorou recentemente.

Em cada ano desde 1958, a taxa de moralidade infantil nos Estados Unidos diminuiu, ou ao menos permaneceu constante. Mas em 2002, ela piorou: 7 bebês morreram em cada mil nascimentos vivos, enquanto tal taxa era de 6,8 mortes no ano anterior.

Tais números, enterrados em um recente relatório dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, não chamaram muita atenção. Mas eles são parte de um padrão de estatísticas recentes que estão sendo divulgados de forma pingada pelo governo federal e que sugerem que para aqueles nas camadas mais baixas dos Estados Unidos, a vida em nossa nova Era Dourada está ficando mais cruel.

"As crianças da América estão correndo maior risco do que estiveram há pelo menos uma década", disse o dr. Irwin Redlener, reitor associado da Escola Mailman de Saúde Pública da Universidade de Colúmbia e presidente do Fundo de Saúde Infantil. "O aumento da taxa de mortalidade infantil é um primeiro sinal de que estamos seguindo na direção errada, sem alívio à vista."

É cedo demais para avaliar o que realmente representa o aumento da mortalidade infantil em 2002 para os bebês americanos. Dados confiáveis para 2003 e 2004 ainda não estão disponíveis. Sandy Smith, dos Centros para Controle de Doenças, diz que os estatísticos estão certos de que não ocorreu maior deterioração em 2003, mas ainda é cedo demais para saber se ocorreu alguma melhoria ou apenas uma estabilização em uma taxa mais elevada.

Cingapura apresenta a melhor taxa de mortalidade infantil do mundo: 2,3 bebês morrem antes da idade de 1 ano entre cada 1.000 nascimentos vivos. Suécia, Japão e Islândia também apresentam uma taxa menor que a metade da nossa.

Se tivéssemos uma taxa tão boa quanto a de Cingapura, nós salvaríamos 18.900 bebês a cada ano. Ou colocando de outra forma, nossas políticas fracassadas no Iraque podem estar matando americanos a uma taxa de cerca de 800 por ano, mas nossos fracassos na saúde em casa estão resultando em um número incomparavelmente maior de mortes --de bebês. E suas mães, porque as mulheres apresentam uma probabilidade 70% maior de morrer no parto nos Estados Unidos do que na Europa.

É claro, as mortes nas maternidades ocorrem uma de cada vez, e não geram atenção nacional, pesar e alarme quanto uma explosão em Fallujah ou um maremoto no Sri Lanka. Mas são bem mais freqüentes: todo dia, em média, 77 bebês morrem nos Estados Unidos e uma mulher morre no parto.

Melhorar a saúde pública não é tão dramático quanto gastar US$ 300 milhões em um único caça Raptor F/A-22, mas pode ser uma forma bem mais eficiente de proteger os americanos.

Por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial, o boom do emprego representou para muitos americanos pobres o desfrute pela primeira vez de atendimento de saúde regular. Assim, apesar de 405 mil americanos terem morrido na guerra, a expectativa de vida nos Estados Unidos na verdade subiu entre 1940 e 1945, aumentando em três anos para os brancos e cinco anos para os negros.

É verdade, a mortalidade infantil e muitos outros problemas de saúde americanos estão altamente interligados com a pobreza, e a experiência sugere que nem a esquerda e nem a direita tem soluções fáceis para a pobreza intratável.

Mas alguns dos passos que o governo está adotando agora ou discutindo --como reduzir ainda mais os benefícios, particularmente aqueles que dão às crianças acesso a atendimento de saúde-- agravariam a situação. No ano passado, um estudo do Instituto de Medicina, uma divisão da Academia Nacional de Ciências, estimou que a falta de cobertura de saúde causa 18 mil mortes desnecessárias por ano.

Como os leitores sabem, eu me queixo regularmente sobre a brutalidade do governo chinês na prisão de dissidentes, cristãos e, mais recentemente, Zhao Yan, um colega do New York Times em Pequim. Mas, apesar de toda a sua crueldade, os ditadores da China conseguiram reduzir a taxa de mortalidade infantil em Pequim para 4,6 em mil; em comparação, a taxa de Nova York é de 6,5.

Nós deveríamos celebrar esta liberdade que desfrutamos nos Estados Unidos --reclamando a respeito e buscando resolver os redutos de pobreza e os fracassos em nosso sistema de atendimento de saúde. É simplesmente inaceitável que um bebê comum tenham menos chance de sobreviver nos Estados Unidos do que em Pequim ou em Havana.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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