13/01/2005
Epidemia de obesidade muda perfil de brasileiros
LARRY ROHTER
No Rio de Janeiro
John Maier/The New York Times
 Estudo do governo aponta epidemia de obesidade no Brasil
| Brasileiros gordos? Numa sociedade consciente do corpo, que deu à cultura global o biquíni "de tanga", a Garota de Ipanema, Gisele Bündchen e outras modelos, a idéia parece herética. Mas um polêmico estudo do governo, divulgado em dezembro, acusa: o Brasil sofre uma epidemia de obesos.
Segundo o relatório, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) e divulgado assim que o verão chegou e as pessoas começaram a tomar as praias em trajes minúsculos, pouco mais de 40% da população adulta do Brasil está acima do peso. No geral, 1 adulto entre 10, ou mais de 10 milhões de pessoas, é obeso, em comparação com menos de 4 milhões que são considerados desnutridos.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva contestou imediatamente os resultados. Desde que assumiu o governo dois anos atrás, o Partido dos Trabalhadores --de esquerda-- que ele comanda sempre defendeu que a fome, e não a obesidade, é o principal problema social do Brasil e, como resultado, criou um programa "Fome Zero" como peça central de seus programas de saúde e bem-estar social.
"Fome não é algo que pode ser medido em pesquisa", contestou Lula. "O fato é que as pessoas não têm orgulho de dizer que passam fome."
Mas as estatísticas mostram o que os nutricionistas e médicos consideram como prova inegável de um crescimento alarmante da obesidade desde meados dos anos 70, quando a pesquisa, utilizando padrões internacionais, foi realizada pela primeira vez na sua forma atual. Como em outros lugares no mundo, os principais culpados, eles dizem, são uma dieta desequilibrada e um estilo de vida sedentário, com algumas variantes que são particularmente brasileiras.
John Maier/The New York Times
 Mulheres caminham no calçadão da praia de Ipanema, no Rio, cartão-postal da cidade
| Os brasileiros têm, por exemplo, uma pronunciada paixão por doces, talvez natural em um país que é o maior produtor de açúcar. As pessoas rotineiramente colocam açúcar em frutas naturalmente doces, como abacaxi e mamão, e às vezes parece que metade da massa do "cafezinho", que é consumido por toda parte no país, é açúcar, e não líquido.
"Brasil e Estados Unidos são os países que apresentam os maiores níveis de consumo de açúcar no mundo, representando cerca de 19% das calorias", disse Carlos Augusto Monteiro, um nutricionista da Universidade de São Paulo e que foi consultor do estudo do governo.
"O consumo de refrigerantes, por exemplo, cresceu 400% nos últimos 30 anos, e nós achamos que isto pode ter um papel importante no Brasil estar se tornando mais gordo."
Além da incorporação de crescentes quantidades de alimentos processados e gordos nos últimos anos, a dieta brasileira é incomumente carregada de amido e carboidratos. Um prato típico de almoço, especialmente no interior e nos bairros pobres, conterá não apenas um pequeno pedaço de carne e feijão para proteínas, mas também arroz, batata, massa e mandioca.
Como as pessoas em países economicamente mais desenvolvidos, os brasileiros também estão levando uma vida mais sedentária atualmente. Entre 1940 e 2000, a população do Brasil, atualmente de 175 milhões de habitantes, passou de 80% rural e 20% urbana para 80% urbana e 20% rural, o que resultou em um decréscimo acentuado na atividade física.
Os ideais brasileiros de beleza ou sensualidade também podem ser um fator para encorajar a rechonchudez. Tradicionalmente, a forma feminina idealizada aqui é do "corpo em forma de violão", uma mulher com busto e cintura esbelta e traseiro avantajado.
"Os homens americanos podem se concentrar nos seios, mas o homem brasileiro sempre quis algo para agarrar", disse Constanza Pascolatto, uma das principais comentaristas do país de questões de estética, moda e beleza. "As mulheres sempre escutaram: 'Você tem que comer ou vai ficar parecendo um palito', e eram encorajadas a ser mais carnudas."
Apesar de tal preferência ainda ser forte, especialmente nas áreas rurais e entre os pobres, as classes alta e média urbanas parecem ter adotado a preferência global pela forma esbelta. Monteiro notou que em São Paulo atualmente há clínicas que tratam de anorexia e bulimia, problemas que mal existiam 30 anos atrás mas que estão aparecendo agora, devido às "mensagens conflitantes que são transmitidas" pela mídia sobre tipos de corpos desejáveis.
John Maier/The New York Times
 Jovens que observam o entardecer no Rio de Janeiro são exemplo do novo modelo de Garota de Ipanema
| Os pobres, que o estudo revelou ser o grupo mais acima do peso, recebem as mesmas mensagens, mas não têm dinheiro para explorar outras opções. José Roberto Lucena, por exemplo, é um vendedor de rua daqui que tem 1,70 metro de altura, pesa 104 quilos e se preocupa com sua saúde, mas argumenta que está fazendo o melhor que pode para criar uma família com um salário inferior a US$ 200 por mês.
"Eu certamente não posso pagar uma academia, e apesar de saber que verduras e legumes são bons para mim, eles são muito caros", ele se queixou. "Minha filha de 5 anos também está acima do peso, e mesmo depois do médico ter ordenado uma dieta para ela no mês passado, é difícil fazer ela comer coisas como salada."
A fome infinita de Lula
Alguns comentaristas daqui sugeriram que a não disposição de Lula em aceitar o estudo pode derivar em parte de sua história pessoal. Como nunca se cansa de lembrar aos brasileiros e aos líderes estrangeiros que encontra, ele passou fome como criança camponesa pobre e pode lembrar vividamente da sensação de ir para a cama de estômago vazio.
Mas hoje Lula é um destes brasileiros que lutam para manter o peso sob controle. Com uma mistura de simpatia e diversão, a imprensa nacional narra seus esforços para limitar seu consumo de churrasco, cerveja e buchada, um prato gordo de sua região natal que é a ruína dos nutricionistas.
"A verdade é que a fome de Lula não passou", especulou recentemente o colunista Arnaldo Bloch no jornal "O Globo" do Rio. "Por mais que o presidente coma e beba e coma e beba, a fome e a sede persistem. É uma fome e sede que são ancestrais, que voltam a atacar diariamente" e que ele, como outros que já foram pobres, "nunca superaram".
Tradução: George El Khouri Andolfato
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