02/02/2005
Estrada na Califórnia serve como tela para um escultor que pensa grande
Carol Pogash
Em Salinas, Califórnia
Philip Cerney/The New York Times
 John Cerney sobe escada para dar últimos arremates na grande obra
| Nos campos férteis do vale de Salinas, aparecem as figuras gigantes: agricultores de madeira de 5,5 metros colhem alfaces. Um deles está apoiado com a bota na pá, supervisionando os serviços. Outro está ajoelhado ao lado, com a mão na terra argilosa.
As mulheres capinam, de lenço na cabeça. Tudo é tão real --as dobras em suas camisas, suas expressões corporais-- que, até de costas, essas figuras causam espanto em quem passa por ali, que é a intenção de seu criador, John Cerney.
As esculturas gigantes em um centro de educação agrícola e fazenda modelo de propriedade da Crown Packing Co. são apenas uma de dezenas de instalações neste vale, onde a região ainda aparenta ser como era quando John Steinbeck escreveu sobre ela.
Há 22 anos, Cerney vem criando pessoas gigantes que aparecem nos campos e nas fachadas de lojas no condado de Monterey, que inclui o vale de Salinas, cerca de 160 km ao sul de San Francisco. O céu azul e quilômetros de plantações servem de tela.
"Nunca liguei para galerias e coisas quadradas em uma parede", disse Cerney em entrevista. O que importa "é que as pessoas vejam meu trabalho", disse ele, acrescentando que para ele isso significa "trabalhar do lado de fora".
Cerney, 51, vive uma vida espartana, em um canto de sua oficina em um armazém de metal ondulado, onde trabalha 12 horas por dia em sua arte. Vêem-se jogadas partes das pessoas gigantes de madeira. Encostado em uma parede, um maratonista está com um braço levantado, triunfante. Um atendente de posto de gasolina segura uma mangueira, pronto para encher o tanque. Mesmo em repouso, há algo de ordinário e heróico nessas imagens.
A arte de Cerney, disse Amanda Holder, porta-voz do Centro Nacional Steinbeck, em Salinas, "faz o que a arte pública deveria fazer, enriquece o cenário visualmente e emocionalmente".
O centro Steinbeck encomendou a Cerney uma Marilyn Monroe de madeira, para sua ala agrícola. (Monroe foi coroada Rainha da Alcachofra da Califórnia, em Castroville, em 1948). Inicialmente, ele hesitou, porque prefere que seu trabalho seja apresentado do lado de fora.
A cena do campo, "atrai a atenção para o valor dos agricultores", disse Dra. Amália Mesa-Bains, diretora do departamento de arte pública e visual da Universidade Estadual da Califórnia, em Monterey Bay.
Mas, disse ela, como o produtor que encomendou o trabalho "é bom e justo com seus funcionários", as imagens de Cerney não falam sobre "condições de trabalho ruins, doenças de pesticidas e péssimo alojamento". Ela acrescenta: "Essa é outra história que nunca é contada."
Cerney "volta à tradição de arte regional, de arte de beira da estrada" e murais do Departamento de Trabalhos de 1930, que sobrevivem em escolas e postos dos correios em todo o país, disse seu amigo o artista D.J. Hall.
Quando Beverley Meamber, presidente e diretora executiva da Câmara de Comércio do vale de Salinas chamou suas peças de "obras de arte", Cerney, maratonista que parece mais jovem do que é, retrocedeu, preferindo pensar em si mesmo como ilustrador e desenhista. Ele gosta de cavar buracos e jogar concreto para sustentar as vigas que, junto com uma barra de metal, seguram as pessoas de compensado.
Seu trabalho reúne duas partes de sua vida: a arte e a agricultura. Depois da escola, ele passou sete anos trabalhando para uma empresa de produtos agrícolas, operando um trator, até que se demitiu para cursar a universidade.
Depois de se graduar em arte, na Universidade Estadual da Califórnia em Long Beach, ele voltou para Salinas, onde bateu na porta de um estranho e persuadiu-o a emprestar a frente de seu prédio. Cerney converteu uma fachada ordinária em um mural impressionantemente realista de "Tony's Friendly Auto Service". Seu único pagamento foram US$ 50 (em torno de R$ 150), por colocar as placas de amigos nos carros pintados.
Desde então, "Tony's" deu lugar a "Sam's Friendly Produce Stand", um mural no mesmo lugar com personagens de madeira e um caminhão carregado de caixas de produtos, tão realista que a Câmara de Comércio teve que responder a turistas que, tendo visto o retrato em revistas de agricultura, vieram comprar na loja.
Cerney começou a fazer as pessoas de madeira quase por acaso. Quando estava pintando o mural que fingia ser a loja de produtos agrícolas, ele "calculou mal" o espaço disponível e teve que acrescentar um braço de madeira em uma das figuras pintadas. Ele observou como o braço "saltava aos olhos", gostou do efeito e acrescentou um Corvette de madeira e uma menina. Depois, acabou acrescentando uma dúzia de pessoas de compensado.
E pensou: "Não preciso mais de paredes, mas de um campo."
Chris Bunn, proprietário da Crown Packing, queria fazer uma homenagem aos seus funcionários. Ele e Cerney concordaram que os personagens em tamanho real seriam pequenos demais para os motoristas verem. Assim nasceram os gigantes.
Outros trabalhos ressaltam o humor de Cerney. Em 1993, ele procurou Ed Gularte, proprietário da oficina Abbott Street Auto Body, em um importante cruzamento da região. Ele disse que queria criar uma cena de um acidente de automóvel. Segundo Gularte, concordar foi o melhor marketing que já fez.
Para a cena, Cerney criou um hippie de 3 metros, vestindo camisa colorida e um suporte de pescoço, na frente de seu Fusca completamente destruído, com uma caixa de guitarra no teto e um adesivo do Grateful Dead. Um advogado está jogando um documento para cima dele, que diz: "Processo frívolo. Assine aqui."
Do outro lado, uma mulher com casaco de pele está saltando de sua Mercedes levemente amassada e aponta acusadoramente o hippie. Um policial de Salinas observa a cena, com uma expressão que diz: "Minha senhora, já ouvi de tudo na vida." No centro, está Gularte, com cara de satisfação. Seus pés descansam em uma caixa com o logotipo da Mercedes e as palavras: "Peças caras de automóveis".
Nem todos gostam do trabalho de Cerney. Depois da instalação da cena do acidente, a prefeitura de Salinas disse a Gularte que não tinha permissão para expô-la e deu-lhe 10 dias para retirá-la. Ele respondeu que o levassem à justiça.
A Câmara de Comércio interveio, e a prefeitura não manteve o requerimento de licença. Para fazer suas peças, Cerney usa pessoas de verdade, fotografa-as e depois pinta suas imagens em madeira compensada. Ele tem um parceiro que o ajuda, Dong Sun Kim.
Com o passar dos anos, Cerney encontrou formas de garantir sua sobrevivência financeira. Em 1992, ele criou uma cena de beisebol, ao lado de um armazém na estrada 101. De forma a cobrir os custos, ele cobrou dos amigos US$ 100 (em torno de R$ 270), para ter seus rostos incorporados ao mural.
No mural do "Sam's Friendly Produce Stand", os produtores inicialmente pagaram US$ 25 (aproximadamente R$ 65) para que seu logotipo fosse pintado em uma caixa de produtos. Desde então, os preços subiram para US$ 1.000 (cerca de R$ 3.000) por peça, e as empresas brigam para que sua caixa fique em cima.
Como artista cujo trabalho é, em grande parte, exposto do lado de fora, Cerney enfrenta desafios ambientais. Recentemente, brocas roeram sua cena de beisebol. Ao restaurá-la, ele teve que fugir das vacas. Em outro campo, onde ele tinha construído uma cena de um agricultor pintando manchas pretas em uma vaca branca, as vacas de verdade apagaram as pintas da de madeira.
Seu trabalho foi instalado em outros Estados do Oeste e Meio-Oeste. Uma de suas instalações mais chamativas está em um campo no Arizona: um bebê gigante, sentado em um trator de tamanho normal, enquanto a mãe olha espantada.
Agora, inspirado por recente visita ao Monte Rushmore, Cerney está negociando com os proprietários de terras do condado para usar um morro onde possa fazer algo maior que as cabeças dos presidentes. Ele quer construir a imagem de uma senhora, uma figura da Mãe Terra, olhando para todas as pessoinhas que passam por ali.
"Ela vai me levar ao próximo passo", disse Cerney. "Não sei qual será."
Tradução: Deborah Weinberg
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