08/06/2005 Morre a atriz Anne Bancroft, que viveu Mrs. Robinson em "A Primeira Noite de um Homem" A estrela de Hollywood tinha 73 anos e sofria de um câncer no útero Robert Berkvist Em Nova York Anne Bancroft, consagrada na história do cinema como a marcante Mrs. Robinson, a sedutora que devora a candidato a namorado da sua filha (interpretado por Dustin Hoffman), no filme "A Primeira Noite de um Homem" ("The Graduate", EUA, 1967), e também lembrada pela sua interpretação sensível, tanto no teatro quanto nas telas de cinema, de Annie Sullivan, a professora que conduz a cega e surda Helen Keller das trevas para a luz em "O Milagre de Annie Sullivan" ("The Miracle Worker", EUA, 1962), morreu na segunda-feira (6/6) no Centro Médico Monte Sinai.
 | | Annie Bancroft e Dustin Hoffman contracenam em "A Primeira Noite de um Homem", auge da carreira da atriz | Segundo John Barlow, porta-voz da família, a causa da morte foi um câncer de útero. Ela tinha 73 anos e possuía residências em Water Mill, no Estado de Nova York; em Manhattan e em Los Angeles.
Os papéis bastante dissimilares feitos por ela foram uma marca registrada da longa carreira de Bancroft.
Durante os mais de 50 anos em que atuou no cinema, no teatro e na televisão, ela fez diversos trabalhos, como a "Mãe Coragem", de Brecht, a madre superior de um convento, uma bailarina idosa, e a primeira-ministra Golda Meir, de Israel, tendo recebido repetidos elogios.
Arthur Penn, que dirigiu as suas atuações premiadas da Broadway em "Two for the Seesaw" ("Dois na Gangorra") e "The Miracle Worker" ("O Milagre de Annie Sullivan"), ambos de William Gibson, explica a atriz da seguinte forma: "Acontecem mais coisas na face de Bancroft em dez segundos do que na face da maioria das mulheres em dez anos".
Bancroft trabalhava duro para ingressar em um plano subjacente, encarnando o seu papel da forma mais profunda possível. Enquanto ensaiava para "O Milagre de Annie Sulivan", ela colocou uma venda nos olhos para melhor entender a cegueira de Helen Keller, aprendeu a linguagem de sinais e passou um período em uma instituição para deficientes visuais. Ao se preparar para "Golda", ela viajou a Israel e conheceu e observou Meir.
Bancroft se interessava mais pela performance do que pela teoria, embora tenha sido integrante do Actors Studio no início da carreira. O ator Rod Steiger certa vez lhe deu uma cópia do texto de Konstantin Stanislavsky sobre interpretação teatral. "Ainda tenho o texto", disse ela alguns anos depois. "Mas nunca o li".
Os pontos mais marcantes da carreira artística de Bancroft foram, sem dúvida, as duas peças de Gibson e "A Primeira Noite de um Homem". Ela já havia acumulado uma longa lista de trabalhos elogiados em dramas para a TV quando se mudou para Hollywood no início dos anos 50 para se juntar à multidão de jovens candidatas ao estrelato que lutavam para conseguir atuar em filmes de segunda e terceira categoria.
Ela foi uma das poucas que conseguiu trabalhos contínuos, tendo aparecido em mais de dez filmes classe C com títulos como "O Tesouro do Condor Dourado", "Gorila a Solta" e "Demétrio e os Gladiadores".
Desencantada, após cerca de cinco anos, e recém-divorciada, ela retornou a Nova York com a promessa de atuar em uma nova peça da Broadway chamada "Dois na Gangorra".
Era uma peça de dois personagens, na qual Henry Fonda estrelava como um advogado deprimido do meio-oeste, afligido por problemas conjugais, e que veio para Nova York, onde conheceu Gittel Mosca, uma atraente, embora excêntrica, jovem boêmia do Bronx.
Eles são duas almas perdidas, que, embora tenham estilos de vida totalmente diferentes, conseguem ajudar um ao outro. Bancroft, que era não só atraente e excêntrica, mas também nascida e criada no Bronx, se inscreveu para o papel e o conseguiu.
Após um início tumultuado --ela praticamente não tinha experiência com a ribalta--, encontrou-se rapidamente no papel. Quando a peça estreou em 1958, Bancroft roubou o espetáculo e acabou recebendo o Prêmio Tony de melhor atriz coadjuvante.
Quando o próximo projeto de teatro de Gibson e Penn ganhou forma no ano seguinte --a história de Helen Keller e da sua professora Annie Sullivan--, eles sabiam quem faria o papel de Sullivan desde o primeiro dia.
O papel de Helen, a garota hostil de dez anos, ficou com Patty Duke. As duas encantavam o palco quando Sullivan lutava para se comunicar com Helen e para acalmar a sua ira, acabando por romper a armadura defensiva da criança. "O Milagre de Annie Sullivan" foi um sucesso estrondoso, e Bancroft conquistou o seu segundo Prêmio Tony, dessa vez o de melhor atriz.
Penn, Gibson e o produtor da peça, Fred Coe, também receberam o Tony. Dois anos, duas peças, dois Tonys. E quando "O Milagre de Annie Sullivan" foi transformada em filme, em 1962, tanto Bancroft quanto Duke receberam o Oscar.
Hollywood agora tinha uma estrela, e Bancroft passou a receber propostas melhores do que, digamos, "Gorila a Solta".
Ela trabalhou com Peter Finch em "Crescei e Multiplicai-vos" ("The Pumpkin Eater", EUA, 1964), a adaptação feita por Harold Pinter de um romance de Penelope Mortimer sobre uma mulher que teve um colapso nervoso devido aos hábitos galanteadores do marido.
O filme lhe rendeu uma indicação ao Oscar. A seguir veio "Uma Vida em Suspense" ("The Slender Thread", EUA, 1965), no qual ela faz o papel de uma dona de casa cujo casamento fracassado a leva a tentar o suicídio.
Quando "A Primeira Noite de Um Homem" foi rodado, ela estava mais do que pronta para representar a fêmea alfa e pôde fazê-lo por meio do papel de Mrs. Robinson, de Beverly Hills, a entediada predadora cuja atração sexual pelo jovem Ben Braddock, o filho do colega advogado do seu marido, se constitui em um propulsor mecânico, mas necessário, para o seu ego auto-indulgente.
Dirigido por Mike Nichols, com uma trilha sonora melancólica por Simon e Garfunkel, "A Primeira Noite de Um Homem" foi aclamado como uma sátira social. Bosley Crowther, escrevendo em The New York Times, chamou o filme de "devastador e hilariante" e elogiou "a atuação tristemente altiva e voraz de Bancroft".
Nichols ganhou um Oscar, e Bancroft, Hoffman e Katharine Ross receberam indicações para o prêmio. Esta última fez o papel da filha de Mrs. Robinson.
A fotografia que apareceu nos cartazes de propaganda do filme, mostrando Mrs. Robinson desfiando lentamente a meia de nylon, sob o olhar vidrado de Ben Braddock (Hoffman), se tornou uma imagem clássica do gênero.
Outros bons papéis a aguardavam, mas Bancroft havia, sem dúvida, alcançado o seu apogeu.
Origem e Trajetória
 | | Anne Bancroft (esq.) e Patty Duke em "O Milagre de Annie Sullivan", em 1959 | Filha de imigrantes italianos, ela foi batizada Anna Maria Louisa Italiano, em 17 de setembro de 1931, no Bronx. O seu pai, Michael, era operário, e a mãe, Mildred, telefonista.
Quando tinha dois anos, Bancroft aprendeu a cantar e a dançar. "Por que brincar com bonecas se você é capaz de cantar 'I Wish I Could Shimmy Like My Sister Kate' na esquina?", disse ela anos mais tarde.
Mesmo assim, quanto terminou o ensino médio, Bancroft decidiu se tornar técnica de laboratório. Em vez disso, a sua mãe insistiu que freqüentasse a Academia de Artes Dramáticas de Nova York.
Dois anos mais tarde, Bancroft conseguiu trabalho na televisão, onde, como Anne Marno, apareceu em vários shows. Em 1951, pediram-lhe que participasse de um outro teste para atriz de cinema para a Twentieth Century Fox, após o que lhe ofereceram um contrato que a levou a Hollywood.
No estúdio, ela recebeu uma lista de nomes e lhe pediram que escolhesse um deles. Foi assim que se tornou Anne Bancroft. Ela não tinha ilusões quanto a esse capítulo na sua carreira cinematográfica, observando anos depois: "A Twentieth Century me disse o que fazer e eu fiz. Não aprendi nada".
Durante a sua primeira passagem por Hollywood, a atriz se casou com Martin A. May, um empreiteiro, em 1954. Eles se divorciaram em 1957. Em 1964, casou-se com Mel Brooks, com quem teve um filho, Maximilian (que lhe deu um neto).
Nos anos 70 e 80, Bancroft interpretou vários papéis, da mãe norte-americana de Winston Churchill, em "Nas Garras do Leão" ("Young Winston", EUA, 1972) à atriz e mulher de um afetado empresário polonês ("mundialmente famoso na Polônia"), interpretado por Brooks, no cômico "Sou ou Não Sou" ("To Be or Not To Be", EUA, 1983).
Ela também recebeu mais duas indicações ao Oscar, uma pelo papel de uma bailarina que se defronta com a escolha entre a carreira e a família em "Momento de Decisão" ("The Turning Point", EUA, 1977) e a outra pela sua interpretação de uma madre superiora em "Agnes de Deus" ("Agnes of God", EUA, 1984).
Ela teve outros papéis importantes em "Noite de Desamor" ("Night Mother", EUA, 1985), no qual interpretou uma mulher que lutava contra a decisão da sua filha de se suicidar, e "Nunca Te Vi, Sempre Te Amei" ("84 Charing Cross Road", EUA, 1986), no qual é uma escritora norte-americana cuja correspondência com um livreiro londrino (Anthony Hopkins) se transforma em um romance à distância.
Ela raramente retornou ao teatro, embora tenha recebido elogios como a determinada Regina Giddens, na produção de Nichols, em 1967, de "Little Foxes", de Lillian Hellman, no Lincoln Center. No jornal "The Times", Clive Barnes caracterizou a sua atuação como "uma série de imagens visuais e aurais inesquecíveis".
No ano seguinte, Bancroft atuou no drama de William Gibson, "A Cry of Players", peça exibida na Inglaterra. A sua atuação em "Golda" (1977) lhe rendeu uma indicação ao Tony. Ela interpretou uma violinista deficiente física em "Duet for One", de 1981, que saiu de cartaz depois de duas semanas, e a seguir ficou longe dos palcos até a primavera de 2002, quando foi escolhida para estrelar em "Occupant", de Edward Albee, como a escultora Louise Nevelson. A apresentação da peça teve que ser cancelada quando Bancroft contraiu pneumonia durante a estréia.
Nos seus últimos anos, ela continuou a aparecer em filmes, embora os seus papéis fossem ficando cada vez menores.
Bancroft fez uma aparição rápida na tela como a mãe de Nicolas Cage em "Lua de Mel a Três" ("Honeymoon in Vegas", EUA, 1992), treinou uma jovem para ser uma matadora em "A Assassina" ("Point of No Return", EUA, 1992), apareceu esporadicamente como uma astuta senadora em "Até o Limite da Honra" ("G.I. Jane", EUA, 1997), e se divertiu na versão atualizada de "Grandes Esperanças" ("Great Expectations", EUA, 1998), como uma personagem insana, baseada na Ms. Havisham, de Dickens.
Bancroft se saiu melhor na televisão, recebendo indicações ao Emmy ao interpretar uma assassina no drama da PBS "Mrs. Cage" (EUA, 1992) e o papel principal em "Tempos de Guerra" ("Oldest Living Confederate Widow Tells All", EUA, 1994), da CBS.
Bancroft se conformou com o fato de que a idade e os novos tempos conspiravam contra ela. Em uma entrevista de 1992 a Bernard Weinraub, de "The Times", ela admitiu escolher papéis, "mesmo que sejam de apenas uma página", porque "há pouquíssimos bons roteiros, até mesmo para Julia Roberts".
Ela preferia fazer um papel pequeno, mas de boa qualidade, a uma interpretação mais extensa em um mau papel. Bancroft por vezes renunciou ao trabalho em nome da sua vida familiar --pelo menos por algum tempo.
"Eu me aposento após cada projeto", disse certa vez. "Então, de alguma forma, sempre surge algo que me tira da aposentadoria".
Tradução: Danilo Fonseca | |