13/08/2005
Soldados americanos vivem com luxo no Iraque
Kirk Semple
Em Camp Liberty, Iraque
A tenente Taysha Deaton, da Guarda Nacional de Louisiana, foi para a guerra esperando um ano de areia, calor e dureza, mas terminou passando suas noites em uma cama king-size, com lençóis importados e edredom de plumas.
Ela comprou a cama de um soldado que partia para substituir a cama de solteiro de metal que vinha com seu trailer de ar-condicionado nesta base, no oeste de Bagdá. Ela também adquiriu geladeira, televisão, telefone celular, forno de microondas, aparelho de DVD, som e conexão de Internet de banda larga.
 | | | DVD, som, computador, ar condicionado: parece república de estudantes, mas é o alojamento de militares em guerra | "Não tínhamos idéia que as condições seriam tão boas!" disse Deaton, 25, oficial de relações públicas da 256ª Brigada de Combate e embaixadora do ponto de exclamação. "A primeira coisa que pensei foi, 'Meu Deus! Isso é bom!'"
Assim como a guerra mudou nas últimas décadas, também o estilo de vida do guerreiro moderno --ao menos o guerreiro moderno americano nas bases. Camp Liberty, uma das instalações mais bem equipadas na constelação das bases americanas do Iraque, lembra um campus universitário, apesar da areia, Blackhawks nos céus e um ocasional ataque de morteiro.
Os soldados moram em trailers separados por caminhos de pedra arrumados. Eles contam com um refeitório que oferece uma vasta seleção de comidas e bebidas, noites de cozinha étnica, sorveteria e ocasionalmente um show de jazz.
O Camp Liberty, como muitas outras bases, também tem salas com serviços de Internet, uma loja impressionantemente estocada, academias de ginástica com equipamentos modernos, ar-condicionado em toda parte e atividades extracurriculares, como aulas de artes marciais e idiomas.
A vida não é assim confortável para todos. Os postos no interior às vezes são duros, com nada além de amenidades muito básicas. Em alguns casos, os soldados precisam usar seu equipamento completo de batalha --armadura e capacete-- o dia inteiro, por causa da freqüência dos ataques de insurgentes.
Além disso, para os soldados que precisam prestar serviços fora da base, não há como escapar da realidade cruel da guerra no Iraque. Embrulhados em armaduras e com a ameaça constante de morte, eles se engasgam com a areia e o calor e se alimentam de comidas prontas. Em longas missões de combate, podem passar semanas sem tomar banho e têm que dormir onde puderem: na terra, em construções vazias, em seus veículos. Além disso, o programa do Pentágono para oferecer-lhes veículos mais fortes e seguros sofreu atrasos.
Quando podem, porém, os jovens soldados da atual geração --como seus predecessores no Vietnã e em outros conflitos-- procuram o auxílio das coisas de que gostam. Alguns, criativos, exerceram essa busca com resultados impressionantes, acumulando todos o tipo de coisa que têm em casa: eletrônicos, lençóis, móveis, produtos de beleza e eletrodomésticos.
Os eletro-eletrônicos, em particular, proliferam entre os 138.000 soldados no Iraque: computadores portáteis, tocadores de MP3 e DVD, câmeras digitais, televisões e consoles de vídeo-game. Nas bases em Bagdá, muitos soldados têm telefones celulares e alguns têm antenas parabólicas. Coleções pessoais com várias centenas de DVDs não são raras; as mais lendárias têm mais de 1.000 filmes.
Nunca em um campo de conflito humano tanta coisa foi adquirida por tantos soldados em tão pouco tempo.
Um membro da Guarda Nacional de Louisiana em Camp Liberty converteu seu trailer em um estúdio de gravação. Um colega de Nova York que mora ali perto passou parte de seu tempo livre no ano passado produzindo um disco de um cantor em Nova York, com a ajuda de um teclado eletrônico, seqüenciador, computador, sampler, bateria elétrica e aparelho de mixagem; ele e o cantor trocaram arquivos de som pela Internet para concluir suas idéias.
"Não sei como conseguiram adquirir tantos equipamentos de áudio-visual. Alguns desses jovens saem e lutam o dia todo. Depois voltam e passam a noite jogando tolos jogos de guerra eletrônica. Eu nunca ia pensar em jogar jogos de guerra. Você passa por eles e ouve seus gritos e torcida", disse o coronel Geoffrey J. Slack, 48, comandante do 1º Batalhão, 69ª Infantaria da Guarda Nacional de Nova York, que compartilha o Camp Liberty com a de Louisiana.
Alguns desses luxos foram trazidos pelos soldados, mas a maior parte é comprada no Iraque. Os artigos são adquiridos não só dos que partem, mas das lojas (a do Camp Liberty vende ao menos 11 marcas de televisão diferentes, inclusive uma JVC de plasma gigante de 42 polegadas, por US$ 2.999, ou R$ 7.000) ou pela Internet (o Serviço Postal dos EUA cobra tarifas domésticas para pacotes enviados para os soldados no Iraque).
"Amazon, eBay e Overstock.com fizeram dinheiro no tempo que passamos aqui", disse Deaton. As coleções de DVDs dos soldados, em geral são de discos pirateados, cada um com vários filmes, vendidos nas bases americanas por iraquianos por cerca de US$ 3 cada (em torno de R$ 7).
"Durante todo o tempo que passei lá, tive conforto. Não me faltou nada", disse Chris Foster, membro da Guarda de Baton Rouge, Louisiana, cujo último ímpeto consumidor no ano passado envolveu um aparelho eletrônico que faz massagem nas costas.
Para Foster, o conforto da guerra muitas vezes foi um jogo de Xbox e parece orgulhar-se de sua invencibilidade no "Halo 2", um jogo de atirar no qual o jogador é "um super soldado geneticamente melhorado".
"Eles me chamam de 'Deus Halo'", disse Foster. "Metade do meu tempo passei jogando 'Halo 2'". Ele e outros soldados ligaram vários trailers com cabos para jogarem juntos.
Ultimamente Foster tem jogado mais no trailer do cabo Andrew Smith, 23, de Laplace, Lousiana. Além das camas e do armário do exército, Smith e seu companheiro de quarto têm um centro de entretenimento, uma poltrona de bolinhas, prateleiras e uma escrivaninha.
Seus pertences incluem três guitarras, um computador portátil com caixas de som e uma televisão de 30 polegadas plana, com surround --presente de Foster, que deu a Smith todo seu complexo de vídeo-game para tentar conter o que chama de "vício em Halo 2".
"Não gostava de vídeo game até chegar aqui", admite Smith, da maneira culpada de alguém que confessa um novo vício. "Minha mulher me disse que eu não tinha permissão de levar o jogo para casa."
Agora que as unidades de Louisiana e Nova York do Camp Liberty começaram a preparar seus aposentos para sua volta aos EUA no mês que vem, os soldados estão procurando compradores para os itens que não querem enviar para casa. Em um rito periódico no campo, anúncios são espalhados pela base, que se torna uma espécie de barracão de vendas de objetos de segunda mão, onde os soldados recém chegados fecham negócio com os que partem.
Em manhã recente, Phill Woods, 47, e Bob Szescila, 23, que trabalham para os militares, estavam estudando as coisas a venda do pelotão médico da 69ª Infantaria de Nova York. Woods comprou uma geladeira pequena LG, anunciada por US$ 60 (cerca de R$ 140). Woods, um homem forte de rabo de cavalo, tirou um bolo de dinheiro do bolso e deu o montante, ignorando inteiramente a tradição milenar das vendas de segunda-mão --e do Oriente Médio-- de barganhar.
"Não sou desse tipo", disse enquanto carregava com Szescila a geladeira para sua nova casa. "Tenho que ir pegar umas pessoas de helicóptero."
Tradução: Deborah Weinberg
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