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08/07/2009

Visita de Obama à Rússia é recebida com indiferença

The New York Times
Clifford J. Levy e Ellen Barry
Em Moscou (Rússia)
Deixe que outras capitais fiquem empolgadas durante a visita do presidente Barack Obama. Moscou recebeu Obama, que na noite de terça-feira (7) concluiu um encontro de cúpula russo-americano de dois dias, como se fosse apenas outro dignitário de passagem.

Multidões não clamavam por um vislumbre dele. As manchetes ofereciam apenas uma breve ou frívola nota de suas atividades. A programação da TV não foi interrompida; os fãs russos da juíza Judy não tinham nada a temer. Até mesmo muitos estudantes e formandos da escola de administração e negócios voltada ao Ocidente, na qual Obama fez o discurso de formatura na terça-feira, pareciam apenas respeitosos, mas dificilmente empolgados.

"Nós realmente não entendemos por que Obama é um astro", disse Kirill Zagorodnov, 25 anos, um dos formandos. "É uma questão de confiança, de como ele se comporta, de como ele se posiciona, do carisma típico, que na Rússia é frequentemente parodiado. Os russos realmente não estão acostumados a isso. É como se ele tentasse manipular o público."

Outros sugeriram que após década de turbulência social, os russos estavam simplesmente exaustos da política, e se decepcionaram com tanta frequência com os líderes ocidentais que não estão mais inclinados a se empolgar com o mais recente. Ao serem perguntados por um jornal de Moscou o que esperavam da visita de Obama, 80% dos leitores responderam o mesmo: congestionamentos de trânsito.

Alguns assessores de Obama disseram ter percebido a recepção discreta aqui, especialmente em comparação à grande presença de pessoas em algumas de suas outras viagens ao exterior. Até mesmo Michelle Obama, que geralmente desfruta de intensa cobertura da mídia local quando viaja, não teve cada passo seu narrado aqui.

Por trás há a questão da raça, que os russos veem por um prisma complicado. Por décadas, a propaganda soviética martelou a ideia de que os Estados Unidos eram um país irredimivelmente racista, diferente dos países do bloco comunista. Mas nos últimos anos, a Rússia tem sido atormentada por violência racista contra pessoas da região do Cáucaso e da Ásia Central, assim como outros imigrantes não-brancos.

Mas muitos jovens russos, como David Zokhrabian, 21 anos, que recentemente se formou em relações exteriores pela Universidade Estatal de Moscou, disse que a raça de Obama atua de ambas as formas.

"Os estudantes em Moscou, eles são bastante positivos a respeito", ele disse. "É bacana, moderno, progressista. Todos os estudantes conhecem a história americana, eles sabem a respeito da segregação, de forma que nos fala a respeito da democracia, sobre como pode ser."

Mas o mesmo não pode ser dito a respeito do russo comum, ele disse, acrescentando: "Parece estranho para eles. Eles apenas acham que a América enlouqueceu."

Muitos aqui notaram que a Rússia passou por uma fase entusiasmada com o presidente Bill Clinton nos anos 90, quando a Rússia estendeu a mão para os americanos. Clinton realizou um encontro na prefeitura de Moscou que foi transmitido para toda a Rússia (e exibiu uma mulher da plateia subindo ao palco e abraçando Clinton diante das câmeras).

Em comparação, o discurso de Obama na terça-feira, que foi chamado de seu terceiro maior discurso de política externa, atrás dos feitos no Cairo e em Praga, não foi exibido ao vivo por nenhum grande canal russo, para decepção da Casa Branca.

Obama usou o discurso, feito na Nova Escola Econômica, para declarar que a Rússia e os Estados Unidos "compartilham interesses comuns". O Kremlin controla rigidamente a televisão russa e não ficou claro por que as autoridades escolheram desprezar o discurso.

Elas podem ter acreditado que havia pouco interesse público, ou talvez não quisessem dar a Obama um acesso livre ao país, permitindo que talvez ofuscasse o primeiro-ministro Vladimir Putin ou o presidente Dmitri Medvedev.

Tom Malinowski, que trabalhou como redator de discursos para Clinton, disse que o público russo sempre foi o mais difícil com o qual se conectar.

"É uma cultura política cansada que teve uma experiência muito dura com um sistema que professava idealismo universal enquanto oferecia sofrimento insuportável", disse Malinowski, atualmente diretor de advocacia da Human Rights Watch em Washington. "Um certo grau de cinismo em relação a ideais elevados é um resultado natural disso."

Ele disse que a facilidade de Obama com a linguagem lhe dá a capacidade de contornar os governos e falar diretamente às pessoas. Obama, segundo ele, tem o talento de "fazer isso em todas as partes do mundo, exceto possivelmente na Rússia".

Sergey Brilev, um importante âncora de televisão da "Rossiya", o canal nacional estatal, disse que a oratória de Obama pode não se traduzir bem para o russo. Ele lembrou de que quando assistiu ao discurso de Obama no Cairo com dublagem em russo, ele o considerou sem brilho. Foi apenas quando Brilev, que fala inglês fluentemente, viu o original é que ele percebeu o motivo de tanta agitação. Os russos tendem a ver Obama não com hostilidade, mas sim com indiferença. "Apesar de a Rússia ter se tornado parte do restante do mundo nos últimos cinco ou dez anos", disse Brilev, "o interessante a respeito da Rússia é que muitas coisas que fascinam os públicos americano e europeu são de pouca importância aqui".

Após as relações com os Estados Unidos terem azedado nos últimos anos do mandato do presidente George W. Bush, muitas pessoas aqui ficaram aliviadas com a eleição de Obama. Mas isso não necessariamente significa que ficaram extremamente otimistas com sua promessa de melhorar os laços.

Valery Kanishev, 68 anos, um designer da companhia circense estatal, disse ter ficado contente por Obama ter trazido suas filhas consigo para a Rússia. Mas Kanishev disse que o discurso de Obama na terça-feira não seduziria muitos russos mais velhos, que ficaram cansados de discursos políticos após suportarem as recitações rígidas de Leonid Brejnev, o ex-líder soviético.

Nos tempos soviéticos, os discursos eram redigidos por comitês, disse Kanishev. "Dez ou 12 pessoas que bebiam um copo de conhaque e então escreviam algo juntas."

"Os russos são o povo mais esperto do mundo", ele disse. "A única coisa que interessa é o resultado. Nosso povo não confia em ninguém."

Os mais jovens geralmente são mais receptivos. A formanda Oksana Sytnova, 24 anos, foi a primeira aluna de sua turma na Nova Escola Econômica, uma honra que foi particularmente agradável porque foi Obama quem entregou a ela o diploma na formatura na terça-feira.

"Para minha geração, ele é um político muito atraente", disse Sytnova. "E o discurso de hoje mostrou isso."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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