Há alguns anos, às vésperas do Dia do Trabalho, quando pais de todo o país já começavam aquele ritual de final de férias que eu conheço muito bem - o de enviar seus filhos de volta para a faculdade - deparei-me com uma tarefa nova e particularmente assustadora: a de me preparar para devolver meu filho não para a faculdade, mas para a guerra, para os sopés das montanhas no nordeste de Kandahar, no Afeganistão, perto da fronteira com o Paquistão.
Em vez de ir para a loja Staples comparar as características da linha mais recente de laptops, ou escolher um despertador como eu havia feito com nossos outros filhos, fui com Ian a uma seção de caça da Ray's Sporting Goods, onde compramos todas as últimas latas de tinta spray cor de areia e verde-oliva para camuflar seu equipamento.
Sou ministro da Igreja de Cristo num bairro abastado da cidade de Nova York. Nada na minha vida me levou a imaginar que o Dia dos Veteranos homenageasse o serviço militar de um filho meu. Mas em 11 de setembro de 2001, manhã em que perdemos muitos amigos e vizinhos, Ian saiu da escola e foi para o topo do estacionamento no Overlook Hospital em Summit, de onde assistiu à segunda torre do World Trade Center cair.
Jogador de lacrosse da equipe do colégio, ele decidiu nos meses seguintes que, em vez de seguir o caminho de seus irmãos e colegas, alistar-se-ia no Exército, e foi o único aluno do último ano da Summit High School a fazê-lo. Pouco tempo depois ele se tornou um soldado da 25ª Infantaria do Exército, realizando trabalho de reconhecimento na busca por militantes da Al Qaeda.
É estranho quando seu filho está na linha de frente, explorando as montanhas do Afeganistão e mesmo assim ainda pode ligar no seu celular na praia. Mas foi isso que Ian fez naquele mês de agosto, usando um telefone via satélite, com a recepção tão clara que parecia que ele estava no final da rua.
"Pai", disse ele. "Tenho algumas notícias".
"Você está bem?"
"Sim, tudo está bem. Estou voltando de licença dentro de duas semanas. Mas preciso que você fale com a mamãe."
"Sobre o quê?"
"Vou me casar."
Ian sempre foi um jovem impulsivo e impetuoso, e sabíamos que ele e Brandi já estavam saindo juntos há um ano - ela também estava no Exército no Afeganistão, em Kandahar. Então não foi tanto a notícia do casamento que nos surpreendeu, mas sim o fato de que tínhamos apenas duas semanas para preparar tudo.
Sem problemas. Imaginamos que eles queriam algo simples, com a presença apenas da família e de alguns amigos, levando em conta o curto prazo. Mas a notícia correu rápido, e logo nos vimos planejando um casamento para 200 pessoas. Felizmente, quase todos que ficaram sabendo da repentina cerimônia se prontificaram a ajudar, e sem isso não teríamos conseguido organizar tudo.
A jornada de Ian e Brandi de volta para casa os levou de Kandahar para o Uzbequistão, passando pela cidade do Kuwait e depois por Frankfurt, onde eles tiveram que correr para pegar um voo comercial para Newark, que atrasou para esperá-los.
O piloto do avião anunciou que eles estavam esperando dois soldados do Afeganistão que voltavam para casa para se casarem, e quando Ian e Brandi finalmente embarcaram, vestidos com seus uniformes, os passageiros levantaram e os aplaudiram.
Quando chegaram, eu engasguei ao vê-los ainda de uniforme quando vieram em minha direção carregando quase nada. Diferente de nossos filhos na faculdade, que podem encher uma caminhonete e um pouco mais com todas as suas roupas, móveis, livros e aparelhos eletrônicos, todos os pertences de Ian e Brandi cabiam em duas mochilas do Exército.
Quando Ian me abraçou, ele parecia forte, muito forte.
No jantar de ensaio da cerimônia, minha mulher e eu, junto com os pais da noiva, apresentamos fotos da infância de Ian e Brandi - que mostrou o tipo de pessoas aventureiras que eles sempre foram, entre muitos risos e piadas. Mas no meio da apresentação eu tive um momento de fraqueza emocional, lembrando de uma apresentação parecida que alguém tinha montado para um velório do qual eu tinha participado recentemente.
Nunca quis mostrar fotos de Ian enquanto falava como ele era grande enquanto estava vivo. O medo da morte sempre paira sobre as famílias daqueles que estão servindo o Exército. Às vezes você tenta barganhar com ele ou colocá-lo de lado, mas ele sempre está lá. Tudo o que eu senti que podíamos fazer, que fosse espiritualmente produtivo, foi celebrar as maravilhas e as coisas boas da vida em meio à nossa ansiedade. Que ocasião melhor para isso do que um casamento?
E que casamento que foi! A igreja ficou repleta de amigos de Ian que haviam postergado a volta para a faculdade para comparecerem à cerimônia - todos jovens e bonitos, bem arrumados em seus ternos e vestidos de noite, no caminho de volta para Georgetown, Middlebury, Duke e Brown.
Eles foram respeitosos, mas com certeza estavam curiosos sobre o espetáculo. Meu filho era um pouco festeiro no colegial - não era o tipo de pessoa que alguém imaginasse que fosse o primeiro a se casar. E no mundo da faculdade em que seus amigos vivem, principalmente no mundo das fraternidades, o casamento não está exatamente no topo da lista de prioridades.
No mundo de homens e mulheres alistados, entretanto, a lealdade e o apoio constante são valorizados, e isso se traduz numa alta taxa de casamentos, mesmo entre jovens no final da adolescência e começo dos 20 anos. Todos os dias, do treinamento básico às missões diárias, em que eles dependem uns dos outros para a sobrevivência e o sucesso, o que realmente importa é a lealdade e as pessoas com as quais você pode contar. E foi assim para Ian e Brandi.
Tivemos que fazer a recepção em nossa casa uma vez que meu filho ainda não tinha 21 anos e pela lei ainda não pode beber. Isso não era nada novo para ele; os soldados norte-americanos no Afeganistão vivem em abstinência. Eles também não têm acesso a dinheiro - apenas a um cartão de crédito que pode ser usado na base.
Há muito pouco para se comprar, de qualquer forma. A unidade de Ian raramente estava de folga, e com frequência suas missões em campo duravam semanas nas montanhas escarpadas e hostis, períodos durante os quais ele e seus colegas viviam de forma autossuficiente, capazes de dormir em qualquer lugar a qualquer momento.
Na tarde anterior à que ele tinha de viajar, depois que compramos a pintura de camuflagem, passamos pelas caixas de armas. Perguntei a Ian sobre as armas adicionais que eles usam no Exército, e ele me mostrou a pistola Glock 9 milímetros que é a arma padrão. Ele me disse que os oficiais reclamam dela porque as pessoas podem receber dois ou três tiros e mesmo assim continuarem correndo.
"Como que o Exército prepara as pessoas espiritualmente para matar?", perguntei.
"Você treina muitas e muitas vezes para que quando chegue lá não seja nada muito excepcional", disse ele.
Mas eu fiquei preocupado porque eu sabia que era algo sério. Até agora ele havia conseguido evitar o fogo pesado. Considerando onde ele estava, entretanto, pareceria inevitável que entrasse num combate mortal, e que ele voltasse mudado.
Eu queria parar e rezar pelo fardo dele ali mesmo, naquele momento, mas não o fiz. Simplesmente coloquei minha mão em seu ombro.
Em casa, mais tarde, tivemos nossa última refeição de família antes que minha mulher e eu os levássemos para o aeroporto de manhã. Ele e Brandi estavam tão descansados depois das duas semanas de folga, tão cheios de energia por terem estados juntos, e prontos para fazer planos para uma casa. Mas tudo isso teria que esperar até que sua temporada estivesse terminada. De volta ao Afeganistão, eles não se veriam por longos períodos de tempo, e quando se encontrassem, iriam literalmente viver numa barraca. Mas eles não chegaram a reclamar nenhuma vez sobre isso ou sobre qualquer outra coisa.
Quando eu levava os meus filhos mais velhos para a faculdade, sempre tinha que acordá-los e apressá-los na manhã da viagem. Então havia todos os itens de última hora que eles normalmente precisavam, assim como dinheiro para pagar uma conta extra que eles não haviam previsto. Eu costumava brincar que cada abraço me custava US$ 100.
Mas na manhã que levamos Ian e Bradi para o aeroporto, foi meu filho que nos acordou. Era bem antes do nascer do sol, mas eles já haviam arrumado as malas, e estavam prontos para ir, e surpreendentemente acordados, considerando as poucas horas de sono que tiveram. Não haveria nenhum abraço de US$ 100.
No entanto, ele tinha um pedido relacionado a dinheiro, embora fosse a respeito do seu próprio dinheiro, e não do meu. Depois de passar alguns minutos na frente da garrafa térmica, ele me entregou um envelope. "Pai", disse ele. "Preciso que você tome conta disso para mim."
Dentro estavam os papeis de uma conta bancária que ele havia aberto com o dinheiro que ganhou no casamento, incluindo o nome de uma funcionária, se eu precisasse falar com ela, e alguns comprovantes de depósito e saque.
"As últimas coisas são para você", disse ele. "Talvez você prefira deixá-las em outro lugar."
Era uma procuração que permitiria que eu acessasse sua conta caso ele morresse.
Sei que espera-se que eu tenha muita habilidade em momentos como esse, mas não pude evitar que um ataque súbito de ansiedade tomasse conta de mim. Meus olhos ficaram embaçados, e tive que me virar para me recompor.
Enquanto dirigíamos para o aeroporto, ninguém falou nada. No terminal de embarque, estacionei o carro e desci, e minha mulher e eu puxamos Ian e Brandi para perto.
Eu não queria deixar meu filho partir - temia que aquele fosse nosso último abraço. Mas sabia que ele precisava que nós fôssemos fortes e os apoiassem no que eles tinham que fazer, então me esforcei para deixá-lo ir.
Beijei os dois na cabeça e disse: "Vocês sabem quem os ama."
Com isso eles se viraram e entraram no terminal. Ian ainda tinha o mesmo andar de quando era criança. Apesar da mochila e do uniforme, eu o via como o menino que ele já foi, usando macacão e arrastando seu cobertor. Mas ele não era mais aquele menino. Ele era um homem, com quase 21 anos, que parecia que podia lidar com qualquer coisa. Ele estava com o braço em volta de sua mulher, para apoiá-la. E foi assim que ele foi embora.
Tradução: Eloise De Vylder