

Terça-feira, 22 de abril de 2003

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Análise
Guerra dos EUA com o Iraque não evoluiu de acordo com os planos
R. W. Apple Jr.
WASHINGTON - Ninguém acertou.
A guerra no Iraque, atualmente em seus estágios militares finais, depois de apenas um mês de combates, não foi nem tão dolorosa quanto prevista por seus críticos, nem tão indolor quanto sugerida por seus defensores. Saddam Hussein foi deposto, a um custo bastante substancial de vidas americanas, britânicas e, especialmente, iraquianas. Suas conseqüências para o mundo e para a estabilidade política regional ainda são incertas.
Muitas coisas que preocupavam os estrategistas ou os críticos do plano de guerra não se concretizaram. Não ocorreu nenhum ataque terrorista retaliatório nos EUA; somente alguns dos poços de petróleo, dos quais dependem a prosperidade do futuro iraquiano, foram incendiados; e as longas linhas de suprimento americanas, que iam do Kuait serpenteando para norte, foram menos vulneráveis do que se temia.
Ainda é muito cedo, obviamente, para tirar-se lições definitivas do conflito. Muito ainda é desconhecido, não somente dos planos e operações do Iraque, mas também de coisas básicas, como a extensão e a natureza das batalhas que ocorreram longe das câmeras dos correspondentes.
Claramente, apesar das vigorosas negativas do Pentágono, a campanha desenvolveu-se de forma diferente do antecipado. Fedayeen e outros grupos paramilitares tiveram um papel maior que se previa, provaram-se mais difíceis de se combater e deram algumas más surpresas às forças aliadas.
A inteligência, como sempre, foi menos que perfeita. As forças aliadas, porém foram capazes de rápida e notável reorganização e iniciativa, graças, em grande parte, a uma nova flexibilidade de comando, aliada a novas tecnologias que permitiram um compartilhamento de dados mais ágil.
General Richard B. Myers, comandante das Forças Armadas, chamou essa adaptabilidade de importante para "a nova forma americana de guerra".
O poder aéreo, claramente, teve papel importante, talvez decisivo, em anular a habilidade do Iraque de resistir. Poder aéreo americano fez o que não conseguiu na Segunda Guerra Mundial ou no Vietnã: destruir grande parte de uma força que incluía 2.200 tanques, 300 aviões de combate e 400.000 soldados. A força aérea iraquiana nem entrou na disputa, por razões ainda não explicadas.
Histórias não explicadas abundam neste conflito violento, no fértil triângulo que deu a luz à civilização, há 7.000 anos.
O destino de Saddam continua um enigma. Terá sido morto em um dos bombardeios contra ele e sua família? Ou realmente foi ele que apareceu na rede de televisão Abu Dhabi, na sexta-feira, ovacionado pelo povo de Bagdá, no dia 9 de abril, mesmo dia em que a grande estátua caiu? Ou terá escapado para a Síria?
E as armas químicas, biológicas e nucleares, cuja eliminação foi uma das justificativas para a guerra citadas pelo presidente Bush? Nenhuma ainda foi encontrada, em uma busca bastante ampla. Críticos da política americana, especialmente no mundo árabe, começaram a insultar Washington, sugerindo que os EUA não encontrarão nada a não ser que plantem as evidências.
A situação que o Iraque terá no Oriente Médio e no mundo está em fase de formação. Bagdá continua uma cidade de emoções violentas e necessidades avassaladoras. A alegria e o alívio que muitos sentiram depois da derrubada do sádico ditador rapidamente deram lugar à apreensão diante das intenções dos EUA. Na gigantesca mesquita Abu Hanafi, lotada de devotos sunitas e xiitas, um líder de preces disse aos que estão ocupando a capital, na sexta-feira (18): "Vocês são os mestres hoje. Mas advirto-os contra pensar em ficar. Saiam antes que os expulsemos".
É claro que os americanos não podem sair tão cedo, sem que a cidade caia novamente em um caos, como o que a dominou nos primeiros dias depois da queda do governo. Por outro lado, a presença das tropas americanas nas ruas da cidade provavelmente ofenderá o orgulho árabe, já combalido por ter perdido outra guerra. A tendência é quase inevitável, por mais bem sucedidas que sejam as tropas em evitar atitudes orgulhosas de quem triunfa.
Eventualmente, o ressentimento poderia gerar uma resistência por forças não convencionais, dentro e fora do Iraque, da mesma foram que a invasão do Líbano em 1982 gerou o movimento Hezbollah. Se Saddam ou seus filhos estiverem vivos, poderiam liderar tal esforço. Até mesmo suspeitas de que estão vivos, estimuladas por coisas como a fita de Abu Dhabi, podem fomentar instabilidade política.
O governo Bush espera trazer forças policiais e de paz de outros países (apesar de não das Nações Unidas) e, assim, suavizar parte da resistência árabe. Mas as primeiras impressões contarão, especialmente para os jovens, gigantesca proporção da população, que estão cansados de ver seus contemporâneos progredirem, enquanto ficam parados ou andam para trás.
As primeiras impressões incluem a chegada de Ahmad Chalabi, exilado iraquiano sem muitos seguidores em seu país, ao menos até hoje. Ele é o único político que aprecia apoio visível não só das forças armadas americanas, mas também uma milícia privada, vestida com uniformes que parecem excedentes do exército americano. Ele estabeleceu-se no Hunting Club, um enclave no distrito luxuoso de Mansur, em Bagdá, que é protegido por veículos americanos de guerra Bradley.
Apesar de muitos em Washington, especialmente no Departamento de Estado, negarem Chalabi como homem do Pentágono, ele foi o primeiro a chegar, está bem financiado e está em posição de defender sua causa. Jay Garner, general americano aposentado que servirá como administrador civil do Iraque, precisará de todas as habilidades que exibiu em cargos anteriores para impedir a emergência de Chalabi como símbolo do novo Iraque.
As primeiras impressões também incluem um fracasso das tropas americanas de proteger a biblioteca e o museu nacional, sem falar dos hospitais e escolas, apesar de terem conseguido proteger a indústria petrolífera. Os saques às lojas e casas enviaram uma mensagem infeliz; a destruição de relíquias preciosas da herança mundial e a exposição dos jovens e indefesos à crueldade da guerra enviaram mensagem pior ainda.
Indagados por repórteres em cena, militares americanos disseram que não tinham ordens nem recursos para montar redes de proteção eficazes. Em Washington, seu chefe, o secretário de defesa Donald H. Rumsfeld comentou, "As coisas acontecem". Pressionado, acrescentou, "pessoas livres são livres para fazer erros e cometerem crimes"
A raiva diante desses desdobramentos não ficou confinada aos políticos e intelectuais de Bagdá ou aos críticos da guerra. Leais defensores dos EUA também aderiram, como o Lord Hurd, ex-secretário de política externa britânica, que escreveu no The Financial Times, com respeito à estratégia de guerra: "Não havia nada pronto porque as agências em Washington discordaram do curso correto a ser seguido".
O presidente Bush espera que o sucesso no Iraque leve à democratização de grande parte do Oriente Médio. Antes, ele precisa abordar as ansiedades da região, onde o prazer particular de derrubar Saddam se mistura com a auto-estima árabe ferida. Há também um temor de que as ameaças americanas à Síria, por sua solidariedade ao governo moribundo de Saddam, tornem-se um novo conflito. O vice radical de Rumsfeld, Paul D. Wolfowitz, aqui é considerado um idealista ignorante, na melhor das hipóteses, ou um imperialista americano.
"Washington precisa tirar aquele sorriso presunçoso de seu rosto, e rápido" disse um enviado árabe.
Muito dependerá do vigor com que os EUA buscarão um acordo entre israelenses e palestinos. Tal esforço seria considerado, em países como Egito e Jordânia, como evidência concreta das verdadeiras intenções de Washington no Oriente Médio. Sob pressão do primeiro ministro Tony Blair, do Reino Unido, Bush concordou em divulgar um "mapa" da tentativa de paz, mas ele ainda enfrenta profunda desconfiança dos que acreditam que os laços entre os EUA e Israel impedirão um processo justo.
As relações dos EUA com a Europa também foram obscurecidas pela guerra. Apesar da Espanha, Itália, Reino Unido e outros países defenderem a campanha americana, a França, Alemanha e Rússia, não. Alguns suspeitam que o presidente Jacques Chirac, da França, esteja sonhando com a velha idéia gaulesa de montar um bloco de poder rival aos EUA. Isso, no entanto, é improvável. O que poderia ocorrer, sugerem especialistas em segurança europeus, seria um enfraquecimento da Otan, que não serviu a Bush no conflito do Iraque.
Com o tempo, o humor dois lados do Atlântico vai se acalmar; europeus vão parar de retratar Bush como um monstro e os americanos vão voltar ao vinho tinto e ao queijo. Mas isso poderá demorar, caso as divergências sobre o papel da ONU no Iraque do pós-guerra resultem em outra divisão no Conselho de Segurança. França e Rússia indicaram que vetarão qualquer medida para sustar as sanções contra o Iraque -que é virtualmente um pré-requisito à reconstrução- a não ser que a ONU tenha um papel maior do que o que quer Washington.
O governo espera driblar isso sugerindo não apenas uma resolução, mas uma série. Assim, deixaria o controle do petróleo do Iraque nas mãos das Nações Unidas pelo momento, mas gradualmente transferiria outras partes da economia à nova autoridade iraquiana estabelecida pelos EUA.
Tudo reunido, Bush enfrenta uma tarefa assombrosa. Felizmente para ele, o povo americano parece preparado para enfrentá-la. Na última pesquisa Gallup, 82% dos entrevistados responderam à pergunta "Qual será a dificuldade de criar um governo democrático estável no Iraque?" com "grande" ou "considerável". Mesmo assim, os americanos continuam apoiando o presidente em números impressionantes.
Tradução: Deborah Weinberg

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