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13/08/2003

Anúncio de ligação de antidepressivo a suicídio deixa médicos e pacientes ansiosos

Richard A. Friedman *
A recente divulgação de que um dos antidepressivos mais comumente receitados, o Paxil, poderia aumentar o risco da ocorrência de pensamentos suicidas em adolescentes e crianças gerou uma onda de ansiedade entre médicos e pacientes.
Afinal, milhões de pacientes deprimidos foram tratados com Paxil, Prozac, Zoloft e Celexa, todos eles inibidores seletivos de recaptação de serotonina (SSRI, na sigla em inglês). Essas substâncias regulam a atividade do neurotransmissor serotonina no cérebro, melhorando o humor.
E embora no início da década de 90 tenham sido registrados vários casos sugerindo um possível vínculo entre esse tipo de medicamentos e o aumento do risco de comportamentos suicidas, a Administração de Alimentos e Remédios dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) declarou, em 1991, que os SSRI não tinham relação alguma com a ocorrência de suicídios.
Em uma análise de todos os exames clínicos controlados disponíveis em 1991, a agência comparou a incidência de tendências suicidas em indivíduos que participaram de pesquisas nas quais receberam SSRI, antidepressivos mais antigos ou placebos. Não foi detectada nenhuma diferença significativa no índice de pensamentos ou comportamentos suicidas nos voluntários que tomaram SSRI, quando comparados àqueles que receberam antidepressivos antigos. O que se descobriu é que os pacientes tratados com ambas as categorias de drogas tinham um risco notavelmente menor de apresentarem sintomas suicidas do que aqueles que tomaram placebos.
Desde então, houve alguns poucos casos, alguns divulgados nos noticiários, de pacientes deprimidos que tentaram o suicídio quando estavam em tratamento com medicamentos do tipo SSRI. Mas, devido ao fato de um dos sintomas básicos da depressão ser o pensamento e o comportamento suicidas, é impossível saber, a partir de uns poucos casos relatados, se o responsável pelos incidentes foi a doença ou o tratamento.
Atualmente foi levantada uma questão legítima quanto à possibilidade de que um pequeno número de pacientes deprimidos - neste caso crianças e adolescentes - corra o risco de apresentar comportamento suicida quando tratado com o Paxil.
Sabe-se há anos que vários tipos de antidepressivos - incluindo os SSRI e drogas mais antigas - podem fazer com que alguns pacientes deprimidos fiquem mais ativos nas fases iniciais do tratamento. Quando isso acontece, os pacientes podem correr um risco maior de cometer suicídio porque contam com maior energia para levar adiante os seus impulsos suicidas, antes que os reais efeitos antidepressivos da droga se façam sentir.
O que é perturbador quanto à recente notícia é que o suposto vínculo entre o Paxil e as fantasias suicidas tenha sido abordado por um estudo não publicado financiado pelo fabricante do Paxil, a GlaxoSmithKline. Na verdade, a GlaxoSmithKline publicou apenas um dos seus nove estudos feitos até o momento sobre os efeitos do Paxil em crianças e adolescentes.
Conforme a população está neste momento começando a tomar conhecimento, as empresas farmacêuticas detêm os dados sobre os exames clínicos que financiam. Embora essas empresas precisem apresentar as descobertas oriundas de todos os testes clínicos à FDA, elas geralmente não têm obrigação alguma de divulgá-las publicamente.
Além do mais, a aprovação governamental não se constitui em garantia de segurança. Novas drogas são aprovadas com base em estudos de tratamentos de duração relativamente curta, com um número limitado de pacientes. Por este motivo, um efeito adverso raro de determinada droga pode não ser detectado até que ela chegue ao mercado e seja consumida por muita gente.
Como resultado disso, uma empresa farmacêutica pode escolher seletivamente os estudos favoráveis para divulgação pública, arquivando aqueles que apresentem o medicamento sob uma ótica negativa.
Tal tendenciosidade no processo de divulgação de estudos tem um impacto profundo sobre a prática médica, uma vez que os médicos correm o risco de ficar com uma impressão incompleta ou distorcida quanto à segurança e eficácia dos novos medicamentos. Por exemplo, a tendenciosidade nesse processo é capaz de fazer com que uma droga medíocre pareça ser espetacularmente eficaz. E pode ainda abalar a confiança da população nas pesquisas patrocinadas pelos fabricantes de medicamentos.
Isso seria lamentável, já que o Paxil e remédios do gênero são claramente seguros e eficazes, tendo ajudado milhões de pacientes que padeciam de depressão. Porém, todas as drogas têm efeitos colaterais, e os SSRI não são exceção.
Ainda que seja verdade que haja um pequeno número de pacientes que apresenta tendências suicidas após tomar esse tipo de medicamento, o risco do tratamento é muito menor que o da depressão não tratada: entre 5% e 10% dos pacientes com depressão grave acabam cometendo suicídio.
Mesmo assim, não há desculpa para a ocultação dos efeitos adversos do Paxil ou de qualquer outra droga, não importa o quanto sejam raros. Embora essas características não tornem uma droga necessariamente perigosa, é fundamental que médicos e pacientes estejam conscientes de todos os riscos envolvidos.
Quando notícias potencialmente negativas sobre um medicamento vazam de estudos não publicados, a população passa a especular sobre os verdadeiros riscos da droga. No caso do Paxil, o fato apenas vem confirmar aquela suspeita tão comum de que a indústria farmacêutica teria colocado os interesses econômicos acima da segurança do paciente e da integridade da pesquisa médica.
A confiança da população na segurança e eficácia dos SSRI, assim como das outras drogas, só pode ser gerada pela divulgação completa e representativa das pesquisas clínicas. Por isso, a FDA deveria publicar na sua página da Internet os resultados de todos os estudos financiados pelas empresas fabricantes de remédios.
E, por outro lado, dever-se-ia exigir das empresas farmacêuticas que divulgassem nos seus anúncios publicitários, para cada um dos seus medicamentos, o número de testes conduzidos e que tiveram seus resultados publicados. Esses anúncios deveriam informar também às pessoas como poderiam ter acesso aos estudos completos.
Durante muito tempo, as empresas farmacêuticas tiveram permissão para nos dizer apenas os aspectos positivos dos seus produtos. Agora estamos prontos para ouvir toda a história.
* Richard A. Friedman, psiquiatra, é diretor de clínica psicofarmacológica da Escola de Medicina Weill da Universidade Cornell



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