16/12/2003

Uma outra batalha para Bush



Bob Herbert
Colunista


Há duas coisas que eu espero que derivem da captura de Saddam Hussein. Assim como muitos outros, espero que os esforços feitos no Iraque sejam mais compartilhados e internacionalizados, o que seria bom não só para o Iraque e os Estados Unidos, mas também para a estabilidade de curto e longo prazo em todo o planeta.

Também espero que o governo Bush comece a aplicar o tipo de concentração, energia e recursos que utilizou no Iraque para a resolução das dificuldades econômicas das famílias trabalhadoras aqui, nos Estados Unidos.

Quem deu uma olhada nas recentes manchetes de jornal, decerto teve a impressão de que a economia norte-americana está tão luminosa quanto à árvore de natal do Rockefeller Center. O produto interno bruto aumenta a olhos vistos. O mercado de ações, as vendas no varejo e os lucros das corporações também sobem. A produtividade está, da mesma forma, em curva ascendente.

A manchete de primeira página do "The Daily News" da última quinta-feira dizia, "Papai Noel chega cedo a Wall Street". O título vinha acompanhado de uma foto de Philip Purcell, presidente e diretor-executivo do Morgan Stanley, que foi descrito pelo "The Daily News" como "o primeiro titã a lucrar ao final de um ano difícil".

O artigo citou vários executivos que devem fechar o ano com lucros entre US$ 12 milhões e US$ 17 milhões.

Os assessores de Bush dirão que essas boas novas econômicas devem se espalhar pelo resto da economia. Os empregos serão abundantes. As folhas de pagamento vão engordar. O nirvana se aproxima.

O problema com esse cenário é que não existem fatos concretos para sustentá-lo. Quanto mais detalhadamente examinarmos a situação empregatícia neste país, mais convencidos ficaremos de que as condições do trabalhador comum estão se deteriorando, e não melhorando.

O problema é que não estamos criando muitos empregos, e a qualidade daqueles que são gerados não é, na maioria das vezes, satisfatória. O aumento do número de empregos no momento é de cerca de 80 mil por mês, o que não é sequer suficiente para que os novos trabalhadores consigam entrar no mercado de trabalho.

E quando o Instituto de Política Econômica comparou o salário médio das indústrias que estão criando empregos com o daquelas que estão demitindo, os analistas identificaram uma grande discrepância. Os empregos perdidos pagavam cerca de US$ 17 por hora, enquanto que aqueles que estão sendo criados pagam em média apenas US$ 14,50.

O governo Bush e seus aliados do setor empresarial dão a impressão de que receberiam com prazer um grande salto no nível de empregos que elevasse os salários e melhorasse a qualidade de vida de todos os trabalhadores norte-americanos e suas famílias. Mas as políticas que aplicam contam uma história inteiramente diferente. Uma batalha feroz e amarga - não uma guerra sangrenta, como a do Iraque, mas, de toda forma, uma guerra - está sendo travada contra os trabalhadores norte-americanos. E, até o momento, pelo menos, o governo Bush está do lado errado desse conflito.

A guerra vem sendo travada em várias frentes. Por exemplo, após passarmos anos transferindo empregos dos Estados Unidos para locais onde os salários são absurdamente baixos, estamos agora exportando também números cada vez maiores de empregos técnicos e profissionais.

Um outro exemplo: apesar do desaparecimento de mais de dois milhões de empregos nos últimos três anos, e do fato de quase nove milhões de norte-americanos estarem oficialmente desempregados, o governo Bush se recusou a apoiar uma proposta vital para a extensão de auxílios-desemprego natalinos.

E o pior é que o governo está tentando implementar uma legislação que negaria o pagamento de horas-extras a mais de oito milhões de homens e mulheres.

Os esforços para que se consiga um aumento do patético salário mínimo de US$ 5,15 por hora continuam fracassando. Os benefícios com os aumentos de produtividade que resultaram primariamente de um incrível arrocho do trabalhador, promovido pelos patrões, não estão sendo compartilhados com os funcionários. Os benefícios de saúde e previdenciários estão em queda livre.

E assim por diante.

Para lutar contra esses e outros abusos os trabalhadores precisam se organizar. Mas o direito dos trabalhadores formarem sindicatos e barganharem coletivamente vem sendo alvo de ataques há anos. Uma especialidade que prospera nos círculos de advocacia é o assessoramento prestado às corporações para que estas possam frustrar e intimidar (e despedir, quando necessário) aqueles trabalhadores atrevidos que querem criar sindicatos. Tal abordagem é auxiliada pelo poder do governo federal, que coloca os trabalhadores combativos em uma desvantagem irremediável.

Uma manchete de capa do "The New York Times" de 6 de dezembro dizia, "Empregadores negam-se a fazer novas contratações, apesar do crescimento".

Essa é a realidade para os trabalhadores. As corporações gostariam de empregar o menor número possível de trabalhadores, de manter os salários em patamares mínimos, de fornecer a menor quantidade de benefícios, de fazer com que os empregados tivessem jornadas de trabalho enormes e de submetê-los às tarefas mais duras.

O presidente dos Estados Unidos deveria se aliar às famílias trabalhadoras nesta luta.


Tradução: Danilo Fonseca Visite o site do The New York Times



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