16/12/2003

Bush diz que povo iraquiano decidirá se Saddam deve ser executado



David E. Sanger
DE WASHINGTON


O presidente Bush disse na segunda-feira que tinha uma mensagem simples para o capturado Saddam Hussein: "Já vai tarde, o mundo está melhor sem você" -e disse que deixará ao povo iraquiano a decisão de execução ou não de seu ex-líder.

Doug Mills/The New York Times

Presidente Bush dá um largo sorriso durante a entrevista coletiva sobre a captura de Saddam
Mostrando-se entusiasmado durante uma coletiva de imprensa de 47 minutos, Bush reafirmou sua determinação de "manter o curso até a conclusão do trabalho" no Iraque, sinalizando que a captura de Saddam não está fazendo a Casa Branca pensar em uma saída mais rápida. Ele se recusou a se prender a um prazo, mas expressou confiança de que agora que "os inimigos de um Iraque livre perderam seu líder", os iraquianos devem saber que "são capazes de governar a si mesmos". Tal transição para um governo próprio está programada para ter início no verão, poucos meses antes da eleição presidencial americana. Bush, parecendo animado com os eventos do fim de semana, anunciou, quase como um aparte, que disputará a reeleição. O presidente disse ter suas próprias opiniões sobre o destino de Saddam, mas insistiu que "meus pontos de vista pessoais não são importantes nesta questão" por não ser um cidadão iraquiano. Mas várias vezes ele rotulou Saddam como "torturador" e "assassino", e deixou pouca dúvida, dado seu histórico de apoio à pena de morte como governador do Texas e em Washington, que tipo de pena ele consideraria apropriada.

Altos funcionários do governo disseram que Bush evitou expressar sua opinião por estar determinado que os iraquianos escolham a pena e, como disse um funcionário, para mostrar ao mundo árabe que "se trata de justiça iraquiana, não vingança americana".

Bush se recusou a dizer que Saddam enfrentará um tribunal criminal especial estabelecido pelo Conselho de Governo Iraquiano na semana passada, apenas três dias antes da captura do ex-ditador. Em vez disso, ele disse que trabalhará "com os iraquianos para desenvolver uma forma de julgá-lo capaz de resistir ao escrutínio internacional".

O atual ocupante da presidência rotativa do Conselho de Governo interino do Iraque disse em Paris, na segunda-feira, que Saddam Hussein será julgado pelo recém-estabelecido tribunal de crimes de guerra do Iraque e que enfrentará a pena de morte caso seja condenado.

Bush descreveu a captura há muito esperada do homem que sobreviveu à Guerra do Golfo e tentou assassinar seu pai como o clímax do que chamou de "um ano extraordinário para nosso país". Ele listou uma série de feitos, da invasão do Iraque e aprovação da cobertura de medicamentos prescritos para idosos até o sancionamento da lei que proíbe o aborto por nascimento parcial, no que pareceu ser um prelúdio de seu campanha para reeleição.

Seu anúncio próximo do final de que concorrerá à reeleição não foi surpresa, mas foi acompanhado por uma explosão de entusiasmo que pareceu refletir o humor na Casa Branca desde a captura de Saddam.

"Eu percebi que este cargo é um cargo magnífico", disse ele. "Eu certamente concorrerei novamente ao cargo. A propósito, eu pretendo fazê-lo em 04."

Doug Mills/The New York Times

Condoleezza Rice (entre Dr. Khodeir Abbas, ministro iraquiano da Saúde e Andrew Card, chefe de equipe da Casa Branca) sorri ao ouvir o discurso de Bush na entrevista coletiva
Muitas vezes nos últimos meses Bush insistiu que as forças americanas permaneceriam quanto tempo fosse necessário no Iraque. Mas o questionamento ganhou nova urgência na segunda-feira, porque a captura de Saddam poderá levar mais iraquianos a questionarem a necessidade da presença das forças americanas em seu país. Assim, Bush deixou claro que a captura não completou a missão. "O trabalho de nossa coalizão permanece difícil e exigirá mais sacrifícios", disse ele.

Bush descartou a idéia de que Saddam teria muito a contribuir durante interrogatórios iniciados pelo Departamento de Defesa e pela CIA, e sugeriu que mesmo se ex-líder falasse sobre armas não-convencionais, Bush não acreditaria em nada que ele dissesse. "Eu não acredito que ele dirá a verdade", disse ele. "Ele não disse a verdade por mais de uma década. Eu não acredito que ele mudará seu comportamento apenas por ter sido capturado."

Ele pareceu se distanciar da questão de que acusações Saddam enfrentará, dizendo "que tudo será decidido pelos advogados". A certa altura ele fez pouco de Saddam como uma referência zombeteira sobre a forma como ele foi capturado no sábado, escondido em um bunker subterrâneo.

"Assim que a situação esquentou, você cavou um buraco e rastejou para dentro dele", disse ele. Mas Bush parou pouco antes de soar triunfante. E quando foi perguntado sobre o fato dos inspetores de armas terem encontrado pouco em seus nove meses no país, ele pareceu recuar, mesmo que ligeiramente, das alegações de antes da guerra de que Saddam possuía armas.

Se distanciando de suas acusações antes da invasão ao Iraque, na segunda-feira, Bush não acusou Saddam de possuir estoques de armas químicas e biológicas assim que a invasão americana se aproximava. Em vez disso, ele se referiu à descoberta de "programas de armas que o colocariam em violação material" das resoluções da ONU, e argumentou que se David Kay, o atual inspetor de armas que presta contas à CIA, estivesse trabalhando para a ONU antes da invasão liderada pelos Estados Unidos, ele teria relatado tais violações à ONU.


Tradução: George El Khouri Andolfato Visite o site do The New York Times



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