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16/12/2003

Saddam nega envolvimento com insurgência iraquiana

Thom Shanker e James Risen
DE WASHINGTON
Funcionários graduados do governo dos Estados Unidos informaram, na segunda-feira (15/12), que Saddam negou qualquer participação direta no comando dos insurgentes iraquianos ou no planejamento de ataques após ter se escondido. Ele afirmou ainda que o seu governo não possuía armas proibidas.
Saddam Hussein começou a ser interrogado apenas horas após ter sido capturado pelas forças norte-americanas, disseram os funcionários. Segundo eles, o foco preliminar do interrogatório recaiu sobre aquilo que Saddam pudesse saber a respeito da guerrilha em andamento. A esperança dos interrogadores era obter rapidamente informações que poderiam ajudar a prevenir ataques e desbaratar as células responsáveis pelas operações de resistência armada.
Segundo o governo Bush, o Pentágono e oficiais de inteligência, Saddam foi ainda indagado sobre o seu programa de desenvolvimento de armas não convencionais, mas ele até o momento negou a existência de tais artefatos. Os funcionários dizem que o depoimento do ex-ditador é semelhante àqueles prestados por outras autoridades iraquianas graduadas que foram capturadas nos últimos meses, e que ainda continuam afirmando que Bagdá não possuía armas não convencionais.
Os interrogadores norte-americanos tomaram a decisão pouco comum de fazer imediatamente perguntas importantes a Saddam, em parte porque o ex-presidente iraquiano parecia estar física e mentalmente fatigado, o que os levou a concluir que a resistência ao interrogatório seria pequena.
Mas oficiais de inteligência e militares dizem que ainda vêem com reservas as poucas informações fornecidas por Saddam até o momento. Os funcionários de Washington que falaram sobre o interrogatório de Saddam estavam se referindo a informações contidas em relatórios de inteligência enviados do Iraque.
Segundo eles, pode demorar semanas ou meses até que o ex-ditador aceite a sua real situação e comece a responder mais francamente às perguntas.
"Ele é o rei da negação e da burla", afirma o senador Pat Roberts, republicano do Kansas, e presidente do Comitê de Inteligência do Senado.
"É óbvio que há muitas perguntas que precisamos lhe fazer com relação a vários tópicos. Ele está colaborando, no sentido de que está respondendo, ao invés de ser obstinado e se manter calado. Mas não está nos ajudando", disse um funcionário graduado do governo.
"Saddam não deu indicações de que será uma pessoa útil em nos fornecer informações", disse um outro funcionário. "Mas isso era o que esperávamos".
Um outro funcionário, falando sobre os primeiros dias de Saddam no cativeiro, informou: "Ele está negando que tenha qualquer envolvimento direto com a insurgência iraquiana".
Várias autoridades disseram não saberem ao certo se Saddam já falou qualquer coisa com relação a um possível envolvimento do Iraque com os ataques de 11 de setembro a Nova York e Washington. Mas eles afirmaram que o ex-presidente negou conhecer o destino de um piloto da Marinha dos Estados Unidos, desaparecido desde a Guerra do Golfo Pérsico de 1991.
Naquele que é um dos mistérios persistentes da primeira guerra com o Iraque, o tenente Michael Scott Speicher, piloto de um caça F-18, foi abatido pelas defesas inimigas no primeiro dia do ataque aéreo ao Iraque, em 17 de janeiro de 1991. Ele é o único norte-americano ainda classificado oficialmente como desaparecido em combate naquela guerra. No início se acreditava que fora morto em combate, mas o seu corpo jamais foi recuperado. Após ter obtido informações da inteligência sugerindo que ele poderia ter sobrevivido à queda da aeronave, em 2001 a Marinha mudou a sua classificação para desaparecido em combate.
Os interrogadores norte-americanos aprenderam por meio da experiência com líderes da Al Qaeda capturados no Afeganistão, Paquistão e outros países que podem ser necessários longos períodos de cativeiro até que a resistência ao interrogatório seja suprimida. Ainda não se sabe se Saddam está disposto a oferecer o tipo de resistência obstinada demonstrada por membros da Al Qaeda. Até o momento, funcionários do governo disseram não estar satisfeitos com as respostas do ex-ditador.
Segundo fontes do governo, ao ser capturado, no último sábado, escondido em um diminuto buraco subterrâneo, Saddam não contava com meios significativos de comunicação, embora estivesse com US$ 750 mil em dinheiro vivo e dispusesse de um táxi nas proximidades do esconderijo.
As fontes disseram que Saddam poderia se comunicar com os seus comandados por meio de um mensageiro, mas não por telefone celular ou por satélite - já que esses aparelhos o tornariam vulnerável à interceptação pelos equipamentos norte-americanos de vigilância eletrônica e denunciariam a sua localização.
Embora o dinheiro pudesse ter sido usado para financiar a insurgência, um funcionário do governo disse que é mais provável que a quantia fosse o seu "fundo pessoal de segurança".
O general Raymond T. Odierno, comandante da 4ª Divisão de Infantaria, cujas tropas realizaram a operação, disse que mesmo antes da captura de Saddam, os serviços militares de inteligência descobriram que uma quantia significativa fora escondida nos dias que antecederam à deposição do ditador. Segundo o general, esse dinheiro foi reservado previamente para financiar a esperada guerrilha contra a aliança liderada pelos norte-americanos.
Portanto, não seria necessária a autorização de Saddam para desembolsar fundos para os ataques, após ele ter fugido de Bagdá e se escondido.
As autoridades do governo foram um pouco ambíguas ao falarem sobre o local onde Saddam está sendo interrogado.
Após a sua captura por tropas da 4ª Divisão de Infantaria e uma unidade de Operações Especiais denominada Força-Tarefa 121, Saddam foi entregue a uma equipe de interrogadores do Comando Militar Central, da Agência Central de Inteligência (CIA) e da Agência de Inteligência de Defesa.
Segundo fontes, as forças aliadas, especialmente as do Reino Unido, deverão desempenhar um papel no interrogatório. Iraquianos farão parte do processo a fim de questionar Saddam sobre os assassinatos em massa e outros crimes de guerra.
Os funcionários do governo não disseram por que Saddam teria negado o envolvimento com a insurgência em forma de guerrilha, ainda que declarações a ele atribuídas após a sua queda conclamassem os iraquianos a se levantarem contra os norte-americanos. Também não se sabe se ele deu declarações que levaram em consideração o seu status segundo a legislação internacional.
Uma autoridade graduada da administração Bush disse que Saddam conta atualmente com a proteção concedida a prisioneiros de guerra, de acordo com a Convenção de Genebra.
Mas essa autoridade frisou que tal proteção pode ser revogada, caso se comprove conclusivamente que, assim que as grandes operações de combate cessaram e ele deixou o poder, Saddam resolveu desempenhar um papel nos ataques subseqüentes contra alvos não militares que mataram ou feriram grande número de não combatentes, em violação às leis da guerra.
Esses ataques incluem os atentados contra a sede da Organização das Nações Unidas (ONU) em Bagdá e a Embaixada da Jordânia, assim como contra vários quartéis de polícia.



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