06/03/2004

Jorge Guinle, 88 anos, playboy milionário brasileiro



Por Larry Rohter

Jorginho Guinle, um dos últimos playboys milionários cujas gastanças e feitos românticos os tornaram celebridades globais a partir dos anos 30, morreu na madrugada de sexta-feira no Rio de Janeiro, Brasil. Ele tinha 88 anos e morreu em uma suíte do luxuoso Copacabana Palace Hotel, que foi construído e pertenceu à sua família por mais de meio século.

Guinle estava internado em um hospital aguardando uma cirurgia para aneurisma na aorta. Mas, na quinta-feira, ele insistiu em ser liberado e se hospedou imediatamente no hotel onde passou grande parte de sua infância dourada, optando por jantar estrogonofe de frango, sorvete de framboesa e chá em um serviço de luxo naquela que seria sua última refeição.

"Ele morreu como viveu, em grande estilo e com os olhos brilhando", disse Cláudia Fialho, uma porta-voz do hotel. "Vir aqui foi seu último desejo."

Guinle descrevia a si mesmo como herdeiro esbanjador daquela que já pode ter sido a família mais rica do Brasil, cuja riqueza derivava de uma concessão de 90 anos, nos anos 1890, para construção e operação do maior porto de café do Brasil. Ele transformou em sua missão gastar o máximo da fortuna que pode e, no final, teve grande sucesso.

"O segredo de viver bem é morrer sem um centavo em seu bolso", disse ele em uma entrevista em 2002. "Mas eu acho que calculei mal."

No seu auge, Guinle foi tanto amigo quanto rival de Porfírio Rubirosa, Howard Hughes, Ali Khan, Aristóteles Onassis e outros ricos playboys. Mas ele também tinha um lado sério que expressou em seus últimos anos, após ficar sem dinheiro, lendo e escrevendo sobre filósofos estóicos e sua paixão por música e arte.

Graças à amizade com Nelson Rockefeller, Guinle foi para Hollywood à medida que a Segunda Guerra Mundial se aproximava. Sua função era avaliar roteiros para evitar que ofendessem os brasileiros e outros latino-americanos.

Com seu charme e dinheiro, Guinle se tornou rapidamente um homem conhecido na cidade, transitando freqüentemente de um clube ou restaurante da moda para outro com seu amigo e ocasional companheiro de quarto Errol Flynn. Durante seus anos em Hollywood e após sua volta ao Brasil, Guinle se envolveu romanticamente com estrelas do cinema como Rita Hayworth, Veronica Lake, Lana Turner, Hedy Lamarr, Jane Russell, Anita Ekberg, Jayne Mansfield e Marilyn Monroe.

Por confissão própria, Guinle não foi apenas um esbanjador, mas também um mau juiz de oportunidades de negócios. Ele recusou ofertas para investir em projetos que lhe renderiam milhões, como o cartão Diners Club, e bancou outros projetos que acabaram perdendo milhões. Quando expirou a concessão de sua família para exploração do porto, ele já tinha gasto grande parte de sua fortuna.

Durante os últimos 20 anos de sua vida, Guinle passou a viver de forma cada vez mais modesta, dependendo da aposentadoria oficial e da ajuda de velhos amigos. Ele e sua terceira esposa, Maria Helena, se separaram na mesma época em que ele foi forçado a vender um apartamento de cobertura à beira-mar e sua coleção de arte e discos. Atualmente ele dividia um apartamento em uma rua comercial em um bairro de classe média.

Apesar de sua notoriedade como conquistador, Guinle tinha mais orgulho de sua reputação paralela como conhecedor de jazz. Ele foi autor do livro "Jazz Panorama" e de vários artigos sobre história do jazz, e alegava ter ajudado a financiar algumas das primeiras gravações de bebop, no início dos anos 40, por músicos como Dizzie Gillespie, Charlie Parker, Max Roach, Thelonius Monk e Oscar Pettiford.

Guinle foi enterrado na sexta-feira no túmulo da família no Cemitério São João Batista, no Rio. Ele deixou uma filha, Georgiana, e um filho, Gabriel.


Tradução: George El Khouri Andolfato Visite o site do The New York Times



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